E quando as coisas não são como planejamos?

Comecei… ufa, consegui começar este texto, pela enésima vez, rs.

Sempre tive muita dificuldade com “começos”, acho que porque gosto das coisas sob meu controle, e começos são muito imprevisíveis, na maioria das vezes pelo menos. Começos trazem muitas expectativas, sonhos e planos, independente da situação.

Lembro bem da primeira vez que comecei algo muito importante, o primeiro dia de aula. Eu estava tão eufórica, estava indo para escola! Tinha o uniforme e a mochila com todo o material, estava animada para usar os lápis de cor, aprender a escrever e conhecer meus colegas. Mas quando cheguei me assustei! Tantas crianças chorando, e um amiguinho estava tão desesperado que batia aos murros no vidro da sala de aula. Eu não entendia porque ele agia assim, aquele dia era tão esperado por mim, nunca poderia imaginar que a escola seria algo ruim.

Foi aí que entendi que começar algo pode ser mais difícil do que se imagina. E desde então já vivi tantos começos e fins, e em cada um deles tenho aprendido muito, especialmente agora.

Há um ano Deus me trouxe, ou melhor, nos trouxe para um lugar que jamais imaginei. Confesso que quando fazia planos, lá na minha adolescência, nunca cogitei a possibilidade de morar e trabalhar no meio da floresta, ainda mais onde eu não consigo entender o que as pessoas falam ou como pensam.

Iniciamos nosso ministério junto a um povo tribal. Já tinha vivido começos difíceis, mas nenhum tão desafiador como este. Meu coração estava cheio de planos e expectativas e mais uma vez estava tentando controlar o desconhecido. Mas, se alguém me dissesse de antemão o que eu viveria nesse ano, talvez eu o tivesse adiado, pois não me achava pronta para tantas mudanças e surpresas.

A minha única certeza é que o Senhor estava conosco, e tudo estava se encaixando tão bem que não nos restava dúvida quanto ao local que Deus queria nos usar. Nosso bebê havia completado 4 meses, e eu estava me recuperando de uma depressão pós-parto, ou melhor achava que estava…

O começo da jornada foi bem difícil. O clima, a cultura local e o medo não tornaram as coisas muito fáceis para nós, especialmente para mim. Logo apareceram as primeiras dificuldades: nosso filho adoeceu, eu adoeci, era uma “novidade” atrás da outra, rs. Passamos um mês nos preparando para entrar na aldeia e finalmente chegou o dia. Um novo começo. Achei que quando chegasse lá eu sentiria um alívio, afinal desde o começo do preparo para o ministério (há 5 anos), esse era o dia tão esperado. Mas não foi bem assim.

Os primeiros dias foram bons, com novidades, novos amigos, e expectativas. Porém, estava tão cansada, com um bebê para cuidar, coisas para arrumar, língua e cultura tão diferentes para aprender e entender, e, de brinde, uma depressão que durou 9 meses. Éramos só eu e Matheus, nunca me senti tão sozinha… tão impossibilitada e inútil.

O pior eram os pensamentos, que acabavam comigo. Minha mente foi terreno fértil para os piores deles. E quando eu orava, pedia ao Senhor:”Pai, eu quero ser uma benção na vida das pessoas que me rodeiam, e fazer teu nome conhecido. Que as pessoas sintam o seu amor”. Mas eu mesma não estava conseguindo sentir o amor dEle por mim, eu estava igual ao meu coleguinha, esmurrando o vidro pra tentar fugir.

Sentia vontade de retornar para casa, achava loucura ter levado meu filho tão pequeno para morar em local tão inóspito, cheio de insetos horríveis, ficar sem água, sem energia elétrica, sem me comunicar com ninguém. Junto a isso vinha o orgulho sussurrando em meu ouvido: – “Eu não posso retornar, nossa igreja nos enviou, nossos irmãos estão orando por nós, contribuindo conosco, não posso dizer para o meu marido que quero voltar, ele está tão animado”… me sentia tão culpada por ter esses pensamentos, comecei a pensar que eu não servia para ser uma missionária, que eu estava empatando a vida do meu marido, e que nunca conseguiria ser uma benção para aquelas pessoas. Perguntava para Deus por que era tão difícil servi-lo, afinal eu obedeci ao chamado. Por que não me sentia realizada e útil?

Nos meses iniciais, mudamos algumas vezes, e confesso que arrumar e desarrumar malas não é o meu forte, e com um bebê ainda! Encher uma caminhonete, descarregar, encher um barco, subir o rio, e novamente recomeçar. Ah, era tão cansativo e às vezes desanimador ficar sentada num tronco com meu filho no colo esperando meu marido arrastar um barco em meio a paus e nem sequer poder ajudar.

Recordo-me de um dia quando sentada sob uma árvore vendo tudo aquilo, e chorando pedi o renovo do Espírito Santo. Deus logo me fez lembrar daquele hino “Tu és fiel Senhor”. Eu comecei a cantar, e de repente uma alegria e paz inundaram meu coração. Depois de quase uma hora ali, Matheus desenroscou o barco e conseguimos chegar em casa antes de escurecer. Quando chegamos em casa apesar de cansados estávamos alegres, porém nossa colega nos recebeu uma notícia muito triste. Um irmão em Cristo indígena havia feito algo muito ruim. Alguém em quem confiávamos tanto. Não podíamos acreditar, foi uma tremenda decepção. Naquela noite choramos, oramos e clamamos ao Senhor, nos colocamos à disposição dEle para que fizesse o que achasse melhor. Sabíamos que ele tinha um propósito, só não conseguíamos entender qual.

No dia seguinte durante meu tempo devocional, a resposta que eu tanto esperava veio. Fui confrontada em relação ao objetivo da minha vida:

“Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado”. 1 Pedro 1:7 (NVI)

Imediatamente respondi, como algo decorado: – “Para o louvor da Glória de Deus”. Parecia uma resposta óbvia. Mas outras perguntas começaram a surgir dentro de mim, como se Deus estivesse me guiando numa sessão de perguntas retóricas. Naquele dia, Deus se revelou a mim como nunca e também posso dizer que Ele me revelou a mim, porque entendi que até aquele momento estava mais preocupada em fazer coisas para Ele que conhecê-lo profundamente. Ele me mostrou que ele não havia me trazido até esse lugar por causa das pessoas, nem por meus talentos, e nem porque Ele precisava de mim, mas sim para que eu O conhecesse como Ele é, desfrute da Sua presença, e entenda que tudo, absolutamente tudo está sob o Seu controle e Ele tem poder para todas as coisas, inclusive as humanamente impossíveis.

Entendi que, primeiramente, Ele quer me forjar, me moldar à Sua imagem e semelhança, para que eu seja usada para o louvor da Sua glória. E que forma especial Ele tem para fazer isso! Meu Pai sabe exatamente do que eu preciso, e o teste do fogo foi necessário para eu continuar nessa empreitada.

Hoje consigo ser grata por cada situação que vivi até aqui, por esse começo turbulento, e pelo privilégio de ser transformada a cada dia, somente os que se colocam na brecha é que podem desfrutar de tamanho cuidado e aprendizado. Como Hernandez Dias disse: “A provação não é a falta de amor de Deus por nós, mas ação pedagógica para esculpir o caráter de Cristo em seu servo”. Consigo entender cada situação que passei, me sinto mais corajosa, dependente e preparada para enfrentar o porvir, na força e no poder do meu Pai, sabendo que tudo é dEle, por Ele e para Ele.

Sei que viverei muitos começos, mas como disse um pastor que admiro muito: “O importante não é só começar bem, mas terminar bem!”. O meu pedido ao Senhor hoje é que ao findar do meu tempo, eu possa olhar para trás e saber que estive no centro da Sua vontade e que atingi os propósitos dEle para mim.

 

Fotografia: Unsplash

Escrito por

Aline, uma paulista de coração mineiro, no momento aprendendo a ser nortista. Esposa e mãe de um rapazinho lindo, que é a cara do pai. Vivendo agora em um lugar muito diferente, tentando aprender mais sobre Deus e si mesma. Gosta muito de artesanato, mas no momento sem tempo para eles. Também gosta de um queijinho de minas, mas se conformando com um açaí fresquinho. Seu maior desejo é poder levar o nome de Cristo àqueles que ainda não o conhecem.

7 comentários em “E quando as coisas não são como planejamos?

  1. Aline, seu texto foi tão importante pra mim hoje… Eu e minha família também estamos vivendo um novo começo, talvez não com tantos desafios “logísticos” como o de vocês, mas estamos num outro país, aprendendo uma outra língua e trabalhando num novo ministério. As sensações são muito parecidas com as que você descreveu e é uma tentação acharmos que tais mudanças são por causa de nós ou porque somos capazes de fazer alguma coisa. Deus tem me mostrado a cada desafio que a obra é dele, e somente dele. Nossa tendência é achar que a obra é nossa e quando as coisas fogem ao nosso controle culpamos as pessoas, as cirscunstâncias, a nós mesmo, até nos darmos conta de que as coisas estão sim, sob o controle de Deus. Obrigada por me lembrar disso, obrigada pelas suas palavras. Que o nosso Pai continue a nos moldar e lapidar pra sua glória e usar textos tão valiosos como este para nos abençoar e aliviar nossas cargas. Um abraço fraterno. No amor de Cristo, Suenia.

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    1. Querida Suenia, muito obrigada por compartilhar sua experiência conosco. Que alegria saber que você também tem caminhado de mãos dadas com o Pai e aprendido a confiar nele e só nele. A Aline está sem comunicação no momento, mas ela virá para a cidade em Abril e com certeza ficará feliz com sua mensagem e lhe responderá. Grande beijo da Equipe Karíssimas.

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  2. Aline, sensacional seu texto! Incrível que a pouco eu estava aconselhando uma pessoa, e essa vivência que Deus te deu, e as maneiras como Ele agiu em você se encaixam demais para aquela pessoa. Enviarei pra ela. Deus a abençoe muito e… escreva sempre!!!

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