Não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe.

Hoje é o Dia do Índio e durante muitos anos pra mim esta data era apenas o dia de colorir o desenho de um indiozinho e colar uma pena em sua cabeça, na escola. Nada mais. Temos que admitir, para nossa vergonha, que nós brasileiros não conhecemos nada sobre os índios que aqui vivem. Parece até que vivemos aquela máxima: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Mas nós, igreja do Senhor, não podemos continuar assim. Devemos amar ao próximo, e mais que isso, nos preocupar e nos envolver em missões, nos envolver na causa de alcançar os povos não alcançados, que não ouviram falar do Evangelho, que estão perecendo sem Cristo, que não tem presença missionária, não tem a tradução da Bíblia em sua língua materna e não possuem igrejas plantadas.

Eu e meu marido trabalhamos com um povo indígena no Mato Grosso do Sul há 3 anos. E quanto mais tempo passamos aqui, mais percebemos que ainda não sabemos nada! Ainda há muito o que conhecer e aprender sobre a cultura, língua, modo de viver, sentir e pensar deste povo. Mas quando convivemos de volta com nossos irmãos “brancos”, ouvimos comentários que nos chocam pela falta de cuidado e respeito no modo de se referir aos indígenas: “Nossa, mas índio é tudo preguiçoso! Olha a casa deles, olha o jeito deles viverem!” e uma das que mais nos chocam: “Os índios aqui já são CIVILIZADOS?”. E ainda: “o certo era ter deixado os índios no lugar deles. Antes eles eram ‘puros’ e agora os brancos ensinaram tudo de ruim pra eles e eles ainda querem ter tudo que o branco tem”.

Não pretendo aqui dar uma aula de missiologia, teologia ou antropologia, muito menos de cultura indígena. Nem tenho a formação necessária para isso. Mas sou crente. Leio a Bíblia. Amo o Evangelho. Não posso me conformar e achar normal tanta indiferença, tanto desrespeito. E te convido, minha irmã (ou meu irmão) a olhar com mais amor para os nossos indígenas. Não são perfeitos, como eu e você também não somos. Não são “puros” (ninguém é) mas também não são uma raça inferior, menos capaz, nem pior que nenhuma outra. Jesus morreu por eles também. Eles foram formados pela mão do mesmo Criador de todos as outras raças humanas. Foram projetados, desenhados pelo mesmo Deus de amor.

Nós temos um projeto de aula de culinária básica e dentro destas aulas também há um momento de oração e leitura da Palavra. E foi assim que conheci a Noemi*.

Noemi é uma jovem indígena, nos seus vinte e poucos anos, mas que já passou por muita coisa nesta vida. Cresceu longe de seus pais biológicos pois quando era muito pequena, sua mãe fugiu com outro homem. O pai também não quis viver com este “peso” e a deixou com um casal idoso a quem ela passou a chamar de avós, mesmo não sendo.

Casou-se nova, teve um filho, e quando este filho era bebê, seu marido foi assassinado num conflito de terras. Tudo foi armado para parecer que um fazendeiro “branco” tinha sido o autor do crime, mas muitos afirmam que foi um indígena da própria aldeia que o matou.

Depois de algum tempo ela se casou novamente. Tudo ia bem até que este novo marido foi trabalhar fora da cidade e voltou perturbado, com a mente completamente transtornada. Começou a beber, brigar com ela, bater nela e na criança. Ele acreditava que toda vez que Noemi estava calada, estava pensando no falecido marido. Todo gesto de carinho que Noemi dispensava ao filho, certamente estava imaginando acariciar seu falecido marido. E assim, Noemi não viu outra solução a não ser deixar seu filho com a família do pai da criança para que fosse criado num ambiente mais calmo e longe de violência. A história se repetia: ela não foi criada com os pais e agora não poderia criar seu filho.

Num final de tarde, ao chegar em casa, Noemi encontrou seu marido enforcado, pendurado em uma viga. Já sem pulso, sem reação, aparentemente sem vida. Ela então correu para a casa da mãe dele, pediu ajuda, e num ato de desespero se lembrou que ouviu falar em respiração boca a boca e massagem cardíaca. Ela tinha visto isso na TV. E ela fez, e insistiu, e insistiu mais uma vez. E o pulso voltou, a ambulância chegou e o marido foi socorrido, levado ao hospital e sobreviveu sem sequelas.

Ela teve mais um filho, porém sentiu muita tristeza e culpa. Era como se estivesse rejeitando o primeiro filho e cuidando apenas deste. Como se tivesse colocado outro filho em seu lugar. Mas o marido continuava irredutível.

Noemi orava a Deus em sua casa sozinha, mesmo sem ninguém nunca a ter ensinado a orar. Ela pedia pra Deus mandar alguém que falasse com ela, que explicasse as coisas espirituais a ela e que a ensinasse como servi-lo.

E um dia no final de uma aula de culinária, ela deixou todas as colegas irem embora e ficou pra trás, disse que queria conversar comigo. E quando ficamos a sós ela contou: “Bia eu queria te contar uma coisa. Desde que comecei a vir nas aulas, a minha vida melhorou muito. Ouvi seus conselhos sobre o casamento, ouvi o seu esposo orando, aprendi como se ora. O meu marido começou a mudar de atitude e estamos vivendo muito melhor. Sabe, eu moro rodeada de crentes, mas ninguém nunca me ensinou nada!” Meu coração disparou de alegria! Sim, o objetivo principal de estarmos aqui é este mesmo, ver Deus agindo, restaurando, transformando. Mas ver isso acontecendo na prática sempre nos emociona!

Após esse dia Noemi veio algumas vezes na igreja e depois começou a frequentar outra igreja. Essa semana ela veio em uma reunião de oração e me contou, muito feliz, que conseguiu receber um dinheiro a que tinha direito e com esse dinheiro comprou uma moto, uma bicicleta para o filho e duas cadeiras novas. “É para receber as visitas” – completou. “Eu gosto muito de receber visitas, mas não tinha cadeira!”.

Noemi precisa das nossas orações. Ela ainda é nova na fé. Precisa ser discipulada, fundamentada na Palavra do Senhor. Ela ainda sofre, ainda clama pelo filho que ela não pôde criar. Sofre em silêncio e faz visitas a ele escondida do marido. Hoje ele tem 8 anos e ela sonha poder viver com o marido e os dois filhos. Sonha ver o marido também transformado e servindo ao Senhor ao lado dela.

Mas o que mais me chama a atenção é que mesmo com esse histórico tão sofrido de vida ela não é triste! Ela é alegre e vibrante. Ela é cheia de fé e esperança, cheia de gratidão a Deus por tudo que Ele tem feito em sua vida. Ela diz: “Meu marido não era assim. E Deus pode fazer ele ser como antes!”

Meu pedido é: ore por ela e por tantos irmãos indígenas, pelo fortalecimento da Igreja em todo o mundo. E que Deus derrame no seu e no meu coração um amor profundo pelas almas, pela obra dEle e um anseio ardente pela volta do seu Filho amado, Jesus.

(*Noemi, um nome fictício. História real.)

 

Fotografia: Jorge Henrique da Silva.

 

Escrito por

Mineira, 35 anos, casada há 9 anos com um lindo rapaz que conheceu aos 15, tem um filho de 4 anos que é um "colosso". Ela acredita que tudo isso é muito mais do que merece ou sonhou alcançar. É a graça enorme do nosso poderoso Deus. Atualmente serve ao Senhor na Missão Caiuá, no Mato Grosso do Sul, trabalhando com indígenas. Gosta muito de conversar, escrever e viajar.

8 comentários em “Não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe.

  1. Uma história muito linda de dor, sofrimento mas tbm de vitória e esperança,Deus abençoe a Noemi,e a vc e sua família Bia,um dia almejei estar aí onde vc está, até comecei o Instituto Peniel onde aprendi muito,mas era o meu desejo e não o desejo de Deus para mim,tbm sirvo ao em um Bairro pobre e nessecitado de Jesus, onde famílias são destruídas pela maldita droga,a gente tem que estar onde o Senhor quer não onde queremos.Bom dia,conte com nossas orações,bjs no coração.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Amém, irmã! Muito obrigada por suas palavras. Ore mesmo, estenda o convite à sua igreja, fale da história da Noemi e de tantos outros que precisam de oração. Esta semana aqui é a semana do Índio, então tem festas e apresentações quase todos os dias. Mas também é a semana em que eles bebem até cair para “comemorar” e com isso acontecem as tragédias. Que o Senhor continue a te abençoar aí onde ele te conheceu. Grande abraço!!!!

      Curtido por 2 pessoas

  2. É muito importante divulgar histórias de vida como a de Noemi. Realmente as pessoas estão carentes do conhecimento de Deus.
    Mas…o mais importante é divulgar o poder do nosso Deus e Seu infinito amor por todos.
    Que benção é o trabalho de vocês, Bia e Pastor Jorge.
    Que privilégio! Vivenciar a semente germinadando, brotando e, pela graça de Deus, colherão lindos frutos.
    Parabéns pela publicação! Que venham muitas e muitas!
    Que Deus te abençoe e continue lhe dando inspiração.
    Tereza Vidigal Santos

    Curtido por 2 pessoas

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