Cara de um, focinho do outro

Eu ainda era bem pequena quando minha mãe, ao me olhar brincando, reparou que ao me apoiar sobre meus braços, eles ficavam “tortinhos”. Somando isso aos primeiros traços de minha personalidade que começavam a despontar, ela exclamou: “até isso é sangue Almeida!”.

“Almeida” vem de meu pai e durante anos seguintes e até hoje escuto minha mãe brincar que eu apenas “aluguei” sua barriga por nove meses, devido à tamanha similaridade que tenho com meu pai. Nós rimos e fazemos piada disso, mas quando conheço outras pessoas, elas sempre dizem: “uau, você é a cara da sua mãe!” E eu realmente sou! A ponto de nós já termos nos confundido em fotos.

A verdade é que ambos têm sua parte em mim, literal e figurativamente! Amo a espontaneidade e a criatividade de meu pai, amo a compreensão e delicadeza de minha mãe. Não vou dizer as coisas que não amo tanto porque, possivelmente, eles lerão esse texto depois! Mas, falando sério, puxei coisas maravilhosas deles e também coisas que preciso melhorar. Hoje eu posso trabalhar em mim tudo isso para, acima de tudo, buscar no meu Pai Celeste o modelo de filha que Ele quer de mim. A partir do legado que meus pais me deixaram, chegar mais longe com o Senhor.

Esta semana, uma história bíblica saltou a meus olhos durante meu período de devocional. Elias, grande profeta do antigo testamento, que profetizou diante de reis, “parou” a chuva por três anos em Israel e, quando orou novamente, ela desceu copiosamente sobre a terra. Elias que ressuscitou um garoto que havia morrido, que humilhou os profetas de Baal e a quem Deus ouviu a oração e respondeu imediatamente, exaltando Seu nome ao consumir, com Seu poderoso fogo, o altar erigido pelo profeta ensopado com toda água possível! (conhecemos essa história… fenomenal, não acha?). E para esse homem, que fez grandes coisas em nome de nosso Deus, assim como todos os seres humanos, chegou a hora da partida desta terra. Porém, diferente de todos os seres humanos, Deus mandou “apenas” um carro e cavalos de fogo num redemoinho para buscá-lo e levá-lo ao céu.

Em meio a milagres e profecias, Elias chama um moço para acompanhá-lo. Seu nome, Eliseu. Tão parecidos em profecias e grandes milagres (até no nome!) que volta e meia os confundimos. Andaram tão próximos que suas histórias se entrelaçam em nossas mentes e por vezes temos que consultar a Bíblia para diferenciá-las.

Bom, Elias sabia seu destino, bem como Eliseu, e um grande grupo de outros profetas também. Então Elias se preparou para ir ao lugar que o Senhor o levaria, e tentou se despedir de seu discípulo por três vezes dizendo para ele ficar. E a resposta de Eliseu foi: “ Vive o Senhor, e vive a tua alma, que não te deixarei.” (II Reis 2:2, 4, 6) E assim, eles prosseguiram juntos até o fim.

Antes de ser levado, porém, Elias “concede um desejo” a Eliseu. Eliseu pede, nada mais, nada menos, do que a porção dobrada do espírito de Elias, ao que o profeta responde: “Coisa difícil pediste. Todavia, se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não, não se fará.” (II Reis 2:10)

Seu pedido seria realizado, porém com uma condição: Eliseu teria que manter seus olhos bem atentos e fixos em seu mestre à medida que ele se fosse. Nesse propósito, Eliseu permaneceu firme e ficou ao lado de Elias até serem separados pela carruagem de fogo que levou o profeta aos céus. Eliseu sentiu bastante a partida de seu companheiro, mas logo creu em suas últimas palavras e se encheu de autoridade para desempenhar o papel que agora lhe cabia como profeta. Ele rasgou suas roupas e vestiu o manto de seu mestre. Em vez de “passar o bastão”, Elias passou o seu manto e seu espírito (porção dobrada!).

Acho incrível que ao voltar do outro lado do rio onde tudo isso teve lugar, Eliseu realiza seu primeiro milagre, idêntico ao último de Elias: abrir passagem no rio Jordão. E, de longe, o grupo de profetas que aguardavam o desfecho dessa história viu um homem vindo a leste. Na mesma hora eles disseram: “O espírito de Elias repousa sobre Eliseu.” (II Reis 2:15)

Não foi sobre o manto que eles comentaram e nem sobre o milagre que Eliseu mostrou, mas eles reconheceram algo mais. Algo tão abstrato, espiritual, invisível, mas profundamente significativo, real e poderoso.

Muitas pessoas passam por nossas vidas: familiares, amigos, colegas, opositores, rivais, etc. Podemos escolher com quem andaremos, quem acompanharemos até o fim, de quem “vestiremos o manto”, de quem pegaremos o bastão, com quem seremos identificados e quem os outros enxergarão em nós.

Assim como Eliseu escolheu permanecer com Elias até o fim, assim como ele escolheu seguir os passos de seu mestre, estou buscando adquirir e me apropriar da criatividade e espontaneidade de meu pai, da delicadeza e compreensão de minha mãe, do companheirismo de meus amigos mais chegados, mas acima de tudo isso, do temor ao Senhor e compromisso diligente com a obra de nosso Deus que cada um deles manifesta. Posso escolher a cada dia, das pessoas que me cercam, o que vou levar comigo.

O que falta em mim? Com quem posso aprender isso? Posso me achegar e crescer juntamente com os preciosos irmãos que Deus me permite conviver. Ao mesmo tempo, busquemos no Senhor reconhecer as coisas que recebemos de outras pessoas e que não são boas para que as deixemos.

Ao mesmo tempo, podemos meditar no que temos deixado para os outros que andam conosco. Que tipo de “manto” temos passado? Como temos influenciado, encorajado e encaminhado nossos companheiros?

Acima de tudo, que eu possa ir além e me revestir do Espírito de Cristo, que Ele mesmo nos concede tão deliberadamente. Seguir Seus passos demonstrando Sua presença em nós, a ponto de todos os que estão ao redor olharem, se espantarem, e se admirarem com apenas uma coisa, dizendo: “O Espírito de Jesus repousa sobre ela”!

 

Fotografia: tudointeressante.com.br

Escrito por

Curitibana de nascimento, africana de coração, filha de missionários, e irmã caçula de um jovem adotivo muito especial. Envolvida no universo missionário desde pequena, passou parte de sua infância na África com sua família, onde serviram como missionários em Moçambique. Ingressou no instituto missionário onde cresceu, ali foi moldada pela preciosa Palavra do Senhor que é o seu sustento dia após dia. Hoje, tem dedicado sua vida aos povos indígenas do Pará. Gosta de cantar e tocar seu ukulele e violão, dos quais tem muito ciúmes. É apaixonada pelo céu, com destaque à lua e pôr do sol, embora dias chuvosos e frios sejam seus preferidos combinando com um delicioso capuccino. Consegue sempre encontrar a trilha sonora perfeita, pois acredita que independente do dia ou situação, tudo fica perfeito ao som da música perfeita.

2 comentários em “Cara de um, focinho do outro

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