Um mundo melhor

No início desse ano estive em uma conferência missionária cujo tema era “Construindo um Legado”. Eles estavam celebrando a vida daqueles que, heroicamente, iniciaram o trabalho entre indígenas no Brasil, e relembrando as marcas deixadas por aqueles que passaram pela história. Uma noite o preletor abriu sua fala com uma definição que não sai da minha cabeça:

“Herança é aquilo que você deixa para alguém. Legado é aquilo que você deixa em alguém”. Pr. Jadir Siqueira

Essa simples distinção dos termos, destituída de qualquer juízo de valor em favor de um ou de outro, tem martelado na minha cabeça todos os dias, e me feito pensar as diversas esferas da vida. Herança e Legado, ambos tão importantes.

Todos falamos do quanto queremos um mundo melhor. Entretanto, poucos sabem exatamente que ações tomar para torná-lo realidade. Em geral, pensamos em coisas grandiosas, como descobrir a cura para o câncer, ou acabar com o lixo tóxico, fazer paz entre as nações e acabar com a corrupção. Sim, sonho com o dia em que veremos todas essas coisas realizadas.

Porém, refletindo na definição acima, percebi que muito dos nossos esforços estão focados em deixar algo PARA a humanidade. Quase 100% de nossas atividades, pensamentos, investimento de dinheiro, tempo e saúde estão direcionados para a construção de uma herança – para meus filhos, para minha comunidade, para a sociedade, para o mundo. Mas…

Quanto de fato tenho investido naquilo que vou deixar EM alguém quando eu não estiver mais aqui? Aquilo que não vai ser engolido pela inflação ou pelo novo esquema de corrupção, aquilo que não irá pelos ares com a explosão de novas guerras, e que não se tornará obsoleto com o surgimento de novas tecnologias. Mas, sim, naquilo que vai permanecer, à revelia das circunstâncias, e impulsionar meus sucessores a continuar construindo um mundo melhor.

À semelhança do que foi feito naquela conferência em janeiro, comecei a rebuscar em minhas memórias os grandes exemplos de pessoas que passaram por minha vida, ou sobre as quais eu ouvi falar e que me impactaram.

Relembrei dos 5 missionários mortos no Equador, história que ouvi aos 6 anos de idade quando meu próprio pai estava fazendo exatamente o que eles fizeram, e todos os dias eu ia pra cama sem saber se o veria novamente aqui na terra. Os exemplos daquele grupo e de meus pais definitivamente marcaram minha vida.

Me lembrei também de minha avó que antes-de-ontem completou 99 anos, e mesmo diante das maiores provações, sempre teve o coração mais grato que eu já vi. Perdeu o pai ainda pequena, e como irmã mais velha teve que ajudar a mãe a criar e sustentar seus 7 irmãos. Numa época onde acesso à educação era um luxo reservado, em sua maioria, a homens, ela aprendeu a ler e escrever praticamente sozinha, tão bem à ponto de, aos 14 anos, se tornar a professora da vila. Também se destacou na música, aprendendo piano e regência de coral ao observar o organista da igreja. Seus primeiros anos de casada foram outro martírio. Ela passou por muitas dificuldades, frio, discriminação, falta de um teto para se abrigar, fome – opa! fome, não! – pelo menos isso é o que ela dizia. Quando se aproximava a hora do almoço ela costumava dizer que sentia uma dorzinha na boca do estômago, mas era só comer alguma coisinha que a dor passava. Se retrucávamos, sorrindo, dizendo: “isso é fome, vó!” Ela respondia muito séria: “Não, meu Deus nunca me deixou passar fome! Eu não sei o que é fome! É só uma dorzinha, e se eu comer algo, passa.”

Enfim, uma “nuvem de testemunhas” tem passeado pela minha mente e memória desde que ouvi aquela citação. Mas de todas, houve uma que teve o maior impacto em minha vida pessoal, cujas ações e palavras ainda ecoam diariamente em meus ouvidos toda vez que sou colocada diante de escolhas. E o pior (ou melhor) é que a maioria das marcas que ela deixou em mim não foram intencionais. Não foram planejadas, calculadas ou ensaiadas com o intuito de deixar “um legado”. Ela simplesmente vivia o seu dia-a-dia (e ainda o faz), buscando ser cada vez mais semelhante a Cristo, e de “bandeja”, saía marcado profundamente todos os que cruzavam o seu caminho.

Nós nos conhecemos em São Paulo quando eu estava me preparando para ir para o Nepal. Por dois anos estudamos e trabalhamos juntas. E como jovens solteiras na cidade grande, também nos divertimos muito. Não perdíamos um concerto ou exposição de arte, desde que fosse “0800”, é claro. E como representantes da agência em que trabalhávamos, fizemos inúmeras viagens carregando caixas e caixas de material de divulgação do nosso escritório.

Ela lembrava o nome de todos que participavam do seu dia (inclusive o guardador de carros na rua, mesmo não tendo um carro). Era sempre a primeira a lavar louça ou limpar o chão, mesmo de unha feita ou salto alto. Ela sempre tinha algo em sua bolsa para presentear alguém por uma data especial, por uma vitória, ou simplesmente “porque sim”. Ela deixava de comer para dar a sua comida para quem não tinha. Ela perdeu sua mãe ainda jovem. Seu pai sofreu muito com isso e a família nunca mais foi a mesma. Seu sonho era se casar e ter sua própria família. E quando todos faziam piadas de sogra ela genuinamente dizia “Eu vou ser a melhor amiga da minha sogra! Vou mimá-la, cuidar dela, levar no salão, não vai ter jeito dela não me amar”. Ela estava sempre feliz e bem disposta, independente da situação ou dia do mês.

Confesso que, embora não tenha dito, mais de uma vez, me irritei com tanta felicidade. Mas, alguém não se conteve, e um dia, pela primeira vez eu a vi triste. Alguém a havia machucado dizendo: “a sua felicidade me irrita! ninguém pode ser feliz assim 24 horas por dia!”. Com os olhos cheios de água, minha amiga sussurrou: “você acha que eu acordo todos os dias saltitante? você acha que eu também não tenho vontade de chorar, gritar, soltar os cachorros e morrer? mas antes de sair da cama, eu me lembro do que é maior: minha vontade ficar triste ou a glória de Cristo reservada pra mim? e com isso em mente eu escolho ser feliz. Felicidade não acontece, você decide.”

Eu poderia continuar escrevendo outras 5 mil palavras sobre suas ações . Mas o que quero destacar aqui é que, legado não vem em forma de pregação ou de campanhas. Não vem em forma de gestos planejados ou esforços deliberados. Legado é transmitido a partir do reflexo genuíno daquilo que realmente acreditamos. Geralmente o que acreditamos com a mente está muito longe do que acreditamos com o coração e que é traduzido em ações.

De uma maneira ou de outra sempre deixamos marcas, para o bem ou para o mal. Mas apenas quando nossa fé se tornar de fato entranhada em nossos corações, em nossas vísceras, é que agiremos, pensaremos e falaremos de forma a deixar marcas de Cristo na vida das pessoas. E do mesmo jeito que não posso apontar na Kézia um ato heróico único que moldou quem eu sou hoje, posso dizer que quero ser imitadora dela, como sei que ela é de Cristo.

 

Fotografia: Denny Daniel Photography

Escrito por

Cidadã do mundo, ela nunca conseguiu responder à pergunta "de onde você é?". Nascida em Minas Gerais, cresceu no Pará, se formou em São Paulo, exerceu a Terapia Ocupacional em Goiás até ir para o Nepal onde esteve nos últimos 6 anos, e onde conheceu seu marido. Se casou na Índia e está de volta ao Brasil por tempo indeterminado. Para ela o dia perfeito começa com cheiro de café coando, pão com manteiga na chapa chiando, minutos preciosos lendo e conversando com o Pai, e a risada de sua filha de 2 anos anunciando que o agito já vai começar.

8 comentários em “Um mundo melhor

    1. Olá Valéria,
      Obrigada por deixar seu recadinho aqui.. obrigada por acompanhar o blog e nossos textos.
      Que alegria saber que vc tem sido edificada. Compartilhe e divulgue o site com suas amigas e família.
      E sinta’se em casa pra falar sempre conosco.
      Abraço,
      Celinda.

      Curtir

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