O legado do supermercado

Aconteceu há pouco mais de uma semana. O jantar havia acabado e parte da minha família materna continuou ao redor da mesa contando “causos” engraçados da rotina. Numa das brincadeiras, o esposo de minha prima revelou um hábito de sua mãe, dona Francisca, chamada carinhosamente de “Chiquinha”. Percebendo que dona Francisca ouvia a conversa, ele disse: “Quando a mamãe fica entediada em casa, ela vai ao supermercado passear.” Decidida a comprovar o fato, a nora de dona Francisca ergueu a voz e disse: “Outro dia, minha filha (neta da matriarca) pediu uma sandália nova pra acompanhar a avó nesse passeio. E eu acabei comprando”. Eu não pude me conter ouvindo os relatos sobre a querida Chiquinha e complementei: “Eu amo passear no supermercado!” Foi aí que alguns primos e tios começaram a reforçar o time dos que correm pro supermercado só pra comprar uma caixa de fósforo. E chegamos à uma conclusão sobre a origem desse comportamento: um valor deixado pela minha avó materna, a portuguesa Maria Lucília de Sá Campos.

Quando eu era criança, eu olhava para a despensa abarrotada de minha avó e pensava com um medo silencioso: “Será que teremos uma terceira Guerra Mundial e eu não estou sabendo de nada? É muita comida armazenada. Acho que nos alimentará por vários dias.” E mesmo com aquele exagero de produtos estocados, ela sempre precisava adquirir algo no supermercado, que ficava na mesma rua da casa. Então lá íamos nós, os netos, acompanhá-la no passeio, cheios da expectativa de ganhar doces. Era realmente divertido subir a ladeira e andar entre as prateleiras. Aos poucos, percebemos que, por trás do princípio de armazenamento ensinado pela vovó, havia o argumento de aproveitar as promoções e economizar preciosos centavos. Dona Maria Lucília havia enfrentado severas limitações financeiras e por isso dava muita atenção às promoções. Tal prática foi naturalmente aprendida por filhos e netos. Minha avó já desfruta da plena comunhão com Cristo no céu, mas a dedicação, prudência e honestidade transmitida durante décadas formam uma estaca sólida em nossos lares.

Dona Maria Lucília não possuía graduação em nível Superior de Economia, mas esbanjava expertise em gestão de recursos. Também não era bióloga, mas ensinou suas filhas a plantar, regar e cuidar bem de um jardim (o que elas fazem até hoje). Não era uma grande oradora, mas seu proceder gritava bem alto aquilo em que acreditava. Não possuía vastos conhecimentos teológicos, mas tinha profunda comunhão com o Criador e ensinou ao meu avô tudo o que sabia sobre Deus. E apesar de todas as batalhas que os dois enfrentaram ao longo da história, vovó escolhia sorrir e cantar o hino “Grandioso és Tu” enquanto fazia as atividades domésticas. De maneira despretensiosa, dona Maria Lucília entregou a nós valores inegociáveis. E sua humildade me leva a crer que ela não teve tal percepção. Simplesmente aprendeu a amar e colocou em prática com simplicidade e renúncia.

Ao olhar pro livro de memórias que guardo na mente, percebo que o traço comum daqueles que me influenciaram profundamente não foi o planejamento do “legado”. O que os torna parecidos e tão admiráveis é o exercício do amor. Amor que se entrega, abdica e estende as mãos para que o outro caminhe ao meu lado por um tempo e depois chegue aonde não pude chegar, fazendo o que não pude fazer.

Se recebemos princípios sólidos de gente extraordinária, nossa responsabilidade é vivê-los hoje com as habilidades e limitações que temos. Não acertaremos em todos os momentos e com certeza faremos diferente daquilo que vimos em nossos professores. Mas vale a pena continuar dirigindo na estrada do amor, sabendo que a obra será terminada por Aquele que nunca falhou nem falhará. Ele sabe como transformar o que é pequeno em extraordinário. É por isso que estamos aqui!

 

Fotografia: Unsplash

Escrito por

Sou uma amazonense apaixonada pelo tambaqui assado e pelo pôr do sol no meio do rio. Aliás, curto contemplar a beleza estampada e também as nuances da natureza e das pessoas. Acredito que o Criador do universo se comunica por meio delas e se faz presente no pequeno "universo" de cada um de nós. Sou movida pela convicção de que existo pra conhecer o Deus de amor e, enquanto caminho com Ele, aprendo a amar as pessoas; gente de “carne e osso”, com histórias de erros e acertos. O prazer de escrever essas histórias transformou um hobby em profissão (atuo como jornalista desde 2005). Nas horas livres, gosto de correr e AMO estar em casa com a família.

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