Na galeria do coração

Deveria ser umas 8 horas da manhã e lá estava ela me acalmando pelo WhatsApp. Eu lia atentamente suas palavras, e os mais de 6 mil quilômetros que estavam entre nós naquele momento não eram um empecilho para orarmos juntas. Meu coração estava apertado e temeroso, e as sábias palavras da minha querida amiga me levaram a olhar para Deus no meio de todo o medo que inundava minha alma. Naquele momento entreguei aquela vidinha de 35 semanas de gestação ao Senhor, reconhecendo que Ele amava mais meu bebê que eu mesma, e que a vontade dEle é “boa, agradável e perfeita”.

A mesma amiga, que deixou tudo o que estava fazendo na Flórida naquela manhã para me acompanhar em oração, também esteve me apoiando na chegada dos meus outros dois filhos. Quem sabe conto para vocês um dia desses. Como essa história terminou? O Tiago nasceu com 36 semanas, sob as orações de muitos amigos e da tia Thelma, que acalmou a mamãe com sua sabedoria e orações, e mesmo estando em outro país, pôde ser a segunda pessoa a vê-lo (seguindo a tradição dos nascimentos dos meus pequenos), graças à internet.

Hoje quando olho para trás lembro de tantas pessoas, como a Thelma, que passaram por minha vida e me deixaram preciosos legados. Mas infelizmente não existem apenas bons legados. Muitos marcam nossa história e acabam deixando manchas nas lentes com as quais enxergaremos a vida.

Quando eu tinha seis meses meus pais se divorciaram, e meu pai foi embora com outra mulher e os filhos daquele relacionamento extraconjugal. Ele nunca voltou para as visitas. Esse acontecimento marcou profundamente minha infância e juventude e consequentemente interferiu na maneira que enxergaria Deus e Sua paternidade. Levei anos para entender a real paternidade de Deus e aceitar o amor incondicional que Ele me oferecia. Da mesma forma, meus olhos estavam embaçados para enxergar com clareza a maneira que realmente deveria ser o casamento e uma família.

Quando fui para o seminário, comecei a ser marcada por novos legados, convivi com famílias preciosas que, aos poucos, e sem saber, foram usadas por Deus para limpar as minhas lentes. Demorei muito para aprender o que fazer com os legados negativos que marcaram minha vida. Confesso que não foi, e não é, nada fácil. Certas feridas demoram muito para cicatrizar, devido a nossa natureza pecaminosa que reluta em abrir mão e lançar certas coisas no mar do esquecimento, mas Deus a todas as feridas pode curar.

Depois de um tempo, comecei a ver meu coração como uma grande galeria, com uma exposição de diversos “artistas”. Mas em meio às belas pinturas vistas, existem pichações em algumas paredes, as quais não consigo remover. Às vezes gasto mais tempo observando as pichações que admirando as obras de artes. Mas aprendi que posso ir decorando as paredes riscadas com novos quadros e, embora algumas manchas ainda existam, elas não escorrem mais com o passar do tempo. Aquele que projetou a galeria faz reformas no ambiente, e limpa as paredes que eu não consigo limpar com meus esforços.

Hoje quando ando pela galeria do meu coração, vejo obras belíssimas que foram feitas por artistas que, na maioria das vezes, nem imaginavam o trabalho que estavam realizando. Não imaginariam que algum dia, em algum lugar, eu seria muito grata por tê-los conhecido, e que suas obras seriam legados de amor que mudariam minha vida.

Quando lembro, por exemplo, tudo que aprendi com minha amiga Thelma, me vem à mente a mulher descrita em Tito 2:3-5

Quanto às mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias em seu proceder, não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho; sejam mestras do bem, a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem a seus maridos e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas a seus próprios maridos, para que a palavra de Deus não seja difamada.

Semelhante a outras pessoas maravilhosas que Deus me deu o privilégio de conhecer, minha querida amiga me ensinou muito com sua vida diária. E esse é o meu desejo: que com minha vida eu possa deixar um legado, estar na galeria de alguns corações com algumas singelas pinturas, e não com pichações.

 

Fotografia: Unsplash

Escrito por

Uma goiana de passagem por este mundo caótico, onde vem buscando ser moldada por Deus e ter uma vida que O glorifique. Mãe de três sapequinhas: André-6, Danielle-4 e Tiago-1. Dona de casa com alegria e apaixonada por tudo que envolve este mundo "caseiro". Amante de um café fresquinho, cheiro de livro novo, artes manuais de todos os tipos e pamonha quentinha em um dia de chuva. Conheceu seu marido em Minas, já morou nos três estados do Centro-oeste e hoje serve ao Senhor da seara, com seu marido no treinamento de missionários junto a MNTB em Vianópolis.

5 comentários em “Na galeria do coração

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