MattsApp

Como missionária da Missão Novas Tribos do Brasil, fiz o Centro de Treinamento Missionário Shekinah (CTMS) de fev/2015 – jun/2016. Ali temos aulas de Vida Cristã, Tradução Bíblica, Antropologia, Linguística, entre várias outras e também algumas matérias bastante práticas e de vivência em aldeias e matas. Um dos momentos mais esperados do curso é o Acampamento. A turma é dividida em grupos menores e fica de 15 a 20 dias acampando na mata praticamente sem contato uns com os outros, sem energia, água encanada e muito menos internet ou sinal de celular. Quase um programa de sobrevivência do Discovery Channel! Mas não é solitário não, além dos colegas de seu grupo, você ainda tem a oportunidade de conhecer muitos habitantes do local, tais como aranhas, macacos, insetos para todo gosto e, é claro, os sempre presentes, répteis poliquilotérmicos sem patas, ou seja, cobras.

Nossos líderes visitavam cada acampamento frequentemente. Checavam se estávamos cumprindo as tarefas (limpar a área, fazer um fogão de barro, banheiros, etc), checavam nossa saúde e é claro, contavam as histórias hilárias das outras equipes sempre com uma pitada a mais nas epopeias que cada um enfrentava. Como ríamos! Depois, ao nos encontrarmos, íamos compartilhar as histórias e nos admirávamos ao ver que os colegas já sabiam de quase todos os acontecimentos via liderança. Admirávamo-nos e depois recontávamos as histórias corrigindo alguns exageros cômicos… Surgiu então o termo “MattsApp”. A falta de celular, internet, etc, foi totalmente compensada pelos nossos líderes que transmitiam as notícias e ali, no mato, nossa amizade cresceu como nunca.
Digo pela minha equipe; eu, outra moça e um casal. Nunca joguei tanto Banco Imobiliário na minha vida! Nunca conversei tanto, chorei e ri tanto com aqueles colegas e, se não fosse pelo “isolamento”, talvez nunca poderia fazê-lo.

Hoje sinto falta disso. Tenho contato ilimitado com todos eles, mas aqueles 17 dias de sentarmos um ao lado do outro em volta de uma fogueira comendo “só mais quatro” marshmallows ou à mesa criando  milhares de estratégias e perdendo sempre nos jogos de tabuleiro (pelo menos eu), abrindo o coração e chorando a vida, ouvindo histórias e mais histórias, esses momentos foram mais profundos e intensos do que 17 anos de amizade virtual poderia jamais ser.

Quão constrangedor pode ser estar numa sala com outras pessoas sem nada pra se distrair, apenas um ao outro? Ou num elevador com outra pessoa e nenhum celular ou musiquinha de fundo? Essas situações constrangedoras podem levar a momentos que marcarão nossas vidas e serão lembranças preciosas eternamente. Podem ser o começo de algo novo e emocionante, ou um momento de você dar um fora e pagar um belo de um mico. De qualquer forma, vai gerar ótimas recordações e histórias engraçadas.

Por hora, moro em Santarém, Pará. E como missionária, logo irei morar em uma aldeia. De volta ao mato! Mas agora, não mais por 2 semanas. Imagino que a cada 4 meses virei à cidade para ficar uma ou duas semanas. Só para comprar alimentos, medicamentos, etc. Esse será o tempo que terei online. Adeus internet, sinal de telefone, blog Karíssimas, mas calma! Só por alguns meses! Logo ficar offline será minha única opção e os únicos contatos que terei serão ao vivo e a cores. As únicas pessoas que verei serão meus colegas e vizinhos. Uma realidade bastante diferente da que estamos acostumadas. Quando eu voltar, contarei alguns desses momentos de gafes, constrangimentos mas tenho absoluta certeza de que terei histórias de ótimas conversas e verdadeiras amizades que esse tempo também reserva. Não minto que será fácil! Ficamos dependentes e nos acostumamos muito fácil com essa tecnologia toda e sei que fará falta. Quando fizer falta, porém, um olhar pra lua bem fininha crescente no céu, uma melodia de uma canção indígena nos lábios de uma criança ou a pilha de trabalho que terei para realizar lá mesmo, com certeza encherá meu tempo, mente e coração sem deixar lugar para o tédio ou vontade de visualizar os hits virtuais do momento.

Devo um dos melhores momentos de minha vida ao “MattsApp”. Devo umas das minhas melhores amizades. Sem um click, com muitas palavras. Sem um GIF, com muitas risadas.

Espero que você também possa se aventurar mais e mais nesse mundo espontâneo, constrangedor e emocionante, mais que 4D! E não se esqueça de compartilhar conosco essas experiências!

 

Fotografia: acervo pessoal da autora

Escrito por

Curitibana de nascimento, africana de coração, filha de missionários, e irmã caçula de um jovem adotivo muito especial. Envolvida no universo missionário desde pequena, passou parte de sua infância na África com sua família, onde serviram como missionários em Moçambique. Ingressou no instituto missionário onde cresceu, ali foi moldada pela preciosa Palavra do Senhor que é o seu sustento dia após dia. Hoje, tem dedicado sua vida aos povos indígenas do Pará. Gosta de cantar e tocar seu ukulele e violão, dos quais tem muito ciúmes. É apaixonada pelo céu, com destaque à lua e pôr do sol, embora dias chuvosos e frios sejam seus preferidos combinando com um delicioso capuccino. Consegue sempre encontrar a trilha sonora perfeita, pois acredita que independente do dia ou situação, tudo fica perfeito ao som da música perfeita.

4 comentários em “MattsApp

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