Uma questão de vida ou morte

Ainda me lembro quando comprei meu primeiro celular. Foi uma questão de vida ou morte. Quer dizer, não tão dramática assim, mas bem importante.

Eu morava no interior de Goiás e trabalhava na capital, há mais ou menos 70km da minha casa. Eu passava grande parte do dia na estrada e incomunicável do momento em que saía pra trabalhar, até chegar ao hospital onde lecionava (ainda longe do escritório onde minha chefe ficava).

Por várias vezes ela ficou “louca” atrás de mim e não pôde me achar até que eu estivesse ao alcance de um telefone fixo. Nessa época poucas pessoas possuíam um celular e eles não eram nem sombra dos elaborados aparelhos que temos hoje. Suas funções se limitavam a ligar e receber ligações de voz.

Nesse contexto, ela me deu um ultimato: “ou você compra um celular, ou pode procurar outro emprego!”. Ui! Credo… e foi assim que me rendi ao meu primeiro Nokia.

O problema é que eu nunca gostei de telefones (e até hoje sou péssima em atender ou fazer uma ligação). Enquanto outros arrancavam seus cabelos diante da conta telefônica geradas pelas suas filhas adolescentes “penduradas na linha”, meus pais nunca tiveram esse problema. Eu era do tipo que, quando alguém me ligava e eu percebia que a conversa ia se prolongar, perguntava logo: “Onde é que você está? Espera um pouco que já estou chegando aí.”

Não é que eu não goste de conversar, pelo contrário! Vocês já devem ter percebido pela extensão dos meus textos aqui… hehehe. Mas, para mim, telefone era algo funcional, utilitário, prático. Existia para marcar consultas, e pedir pizza. Você não conversa com a recepcionista do consultório ou atendente da pizzaria. Você vai direto ao assunto. Conversar? ahhh… conversar tinha que ser cara a cara, no sofá ou no parque, regado a um café quentinho com bolo de fubá, ou aquela pizza velha que estava na geladeira, ou quem sabe com sorte um bom vinho e queijo!

Hoje em dia, mais do que nunca, telefones ainda são extremamente funcionais. Lá eu controlo meu banco, e-mails, notícias, executo meu trabalho, chamo e pago pelo táxi, compro de roupas a computadores, agendo consultas e coleto resultados de exames e até acompanho minha gravidez.

E eu já não faço como antigamente. Não vou mais até a casa de quem me ligou para continuar a conversa. As mídias sociais e os aplicativos de comunicação que deveriam facilitar e aumentar a velocidade da comunicação, entretanto, só o fazem se eu assim o quiser. Encontrar alguém, diminuir distâncias, se comunicar com alguém, isso tudo nunca esteve tão fácil! Porém, eu nunca conversei menos com quem me procura. E-mails não respondidos, mensagens não visualizadas, notificações que ficam piscando eternamente nos cantos da tela sem nunca serem verificadas, respostas deixadas para depois…

Meu telefone ainda é um instrumento utilitário.

Pensando sobre minha relação com as alternativas de comunicação existentes hoje e a quantidade de pessoas que já magoei com minha atitude “funcional e prática”, eu acabei sendo levada a pensar, também, na minha comunicação com Deus.

Nunca antes esteve ão fácil ter acesso ao Pai. Desde Adão que o homem não podia mais tomar o chá da tarde em conversa agradável com Deus. Era preciso sacrifícios e intermediários (sacerdotes), ninguém falava direto com Ele e o acesso, mesmo que indireto, não acontecia todos os dias. Tinha rituais rígidos e agenda determinados.

Jesus eliminou essa separação, ele rasgou o véu que nos separava e nos deu livre acesso ao Pai, nos reconectou e restaurou nosso relacionamento. Mas, ao invés do “chá da tarde”, eu insisto em usar esse canal como meu telefone, funcional: preciso de perdão, “bato um fio” e Ele perdoa; preciso de provisão, “dou um toque” e Ele providencia; recebo algo, “mando um smile com uma mensagem de obrigado”, e estamos acertados. E a isso se limita nossa comunicação.

Cadê o café com pão-de-queijo? A conversa, os “causos”, o choro, as risadas?

Não faço mais isso com meus relacionamentos na terra, não faço também com meu relacionamento no céu.

Todos os recursos, os acessos e facilidade criados para possibilitar a comunicação não terão função, efeito ou valor algum, se em mim não houver disposição, querer e ação. Comunicação demanda tempo e vontade, e isso, tecnologia alguma será capaz de criar.

É… com ou sem celular, minha disponibilidade para comunicação ainda é uma questão de vida ou morte…

 

Fotografia: Unsplash

Escrito por

Cidadã do mundo, ela nunca conseguiu responder à pergunta "de onde você é?". Nascida em Minas Gerais, cresceu no Pará, se formou em São Paulo, exerceu a Terapia Ocupacional em Goiás até ir para o Nepal onde esteve nos últimos 6 anos, e onde conheceu seu marido. Se casou na Índia e está de volta ao Brasil por tempo indeterminado. Para ela o dia perfeito começa com cheiro de café coando, pão com manteiga na chapa chiando, minutos preciosos lendo e conversando com o Pai, e a risada de sua filha de 2 anos anunciando que o agito já vai começar.

3 comentários em “Uma questão de vida ou morte

  1. Amei o texto. Grande realidade, hoje com tantas facilidades na comunicação se não formos disciplinadas não achamos tempo para comunicação e intimidade com nosso Deus, porque a tecnologia rouba esse privilégio!

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