De wi-fi a tucumã

Lembro que no segundo ano do ensino médio ouvi a história de uma moça que de tanto comer tucumã ficou cor de laranja. Para as queridas que não nasceram na região norte, tucumã é uma fruta amazônica alaranjada, que cresce em cachos no alto de palmeiras. Com ela fazemos o famoso x-caboquinho, sanduíche que consiste de tucumã e queijo coalho (uma de-lí-cia. Se forem a Manaus, não deixem de experimentar!), colocamos a fruta em tapioca com queijo, ou somente comemos fatias da fruta tupiniquim acompanhada de um café da tarde. Acho que deu para entender o quanto gostamos de tucumã, não é?

Acontece que, mesmo sendo muito bom, o tucumã, quando comido em quantidades exorbitantes, causa hiperpigmentação cutânea, dando aquela cor de bronzeado cenoura. Penso que o uso da internet, aplicativos e afins tende a ser parecido com nosso tucumã. Se usado de maneira exacerbada, pode criar problemas. Só que ao invés da tez, atinge várias áreas da vida.

No entanto, tendemos a pesar o pêndulo indiscriminadamente para um lado só. Gritamos contundentemente que a internet é um ninho de coisas horríveis, ou a abraçamos e a tornamos centro de nossas vidas.

Creio que a verdade está ali no meio, no equilíbrio de tudo. Por exemplo, temos uma regra na minha família: ligamos para cada membro ao menos uma vez na semana, usando Skype, Facetime ou WhatsApp. Assim, mantemos o contato e a intimidade que a distância nos tira. Há também as inúmeras facilidades produzidas pela internet, como pagar contas online, ler livros no Kindle e jornais em websites, assistir tutoriais de como desentupir a pia com vinagre e bicarbonato de sódio, e etc. Inclusive, este blog é resultado de uma ferramenta online, usada para compartilhar sonhos, chamados, lutas e vitórias. Tenho pelo menos um punhado de amigos que conheceram o amor de suas vidas num site de relacionamento, se casaram, e hoje estão postando fotos e vídeos de seus bebês.

Existe também o oposto disso tudo. Algumas redes sociais tem sido a causa de algumas desordens mentais. Estudos citam o Instagram uma das mídias sociais ligadas a distúrbios de ansiedade e depressão em jovens. Isto geralmente se dá porque tendemos a compartilhar nossas vitórias, nossos momentos atípicos (férias, jantar elegante, ou mesmo a nova promoção recebida no trabalho) com mais frequência que situações tristes e desafiadoras. O dia-a-dia vira um quase conto de fadas. Mesmo que não sejamos os geradores de vidas em filtros, seguimos os “influenciadores digitais”, que literalmente ganham provendo entretenimento virtual, com a vida florida, engraçada e quase sempre de bom humor.A exposição de detalhes da vida de amigos, ou bloggers, com filtros que imitam a perfeição, tem levado a síndrome da comparação. Se a vida de alguns é incansavelmente feliz, por que a minha não é? E nos derramamos em análises de “likes” em fotos, o significado de cada uma delas.

Não estou advogando pelo não uso de redes sociais, mas de equilíbrio e senso crítico quanto ao tempo que dedicamos em olhar o mundo pelas lentes virtuais, e, concomitantemente, usamos a internet pela facilidade que ela dá para quase tudo nessa vida.

Provérbios 3:21-24 encoraja-nos a buscar o equilíbrio em tudo, e usar o senso crítico para navegar todas áreas de nossas vidas, inclusive o uso de mídias sociais. É realmente difícil não ser influenciado digitalmente quando o mundo se move rapidamente ao nosso redor, com sugestões sobre quase tudo. Ou quando sabemos que qualquer informação que precisamos encontrar está a alguns cliques de distância. Selecionar o bom uso do que Deus nos dá é sempre uma boa ideia, nos esmerando a viver no equilíbrio de estar “nem muito ao mar, nem tanto a terra”, dosando a quantidade que ingerimos de informações online e tucumã – afinal de contas, ninguém gosta de um bronzeado alaranjado, não é mesmo?

Escrito por

Nascida e criada em Manaus, hoje mora nos Estados Unidos, com o seu esposo. Tem uma filha canina de 7 aninhos chamada Meg, muito sapequinha e inteligente. Estudante de aconselhamento, esposa em tempo integral, adora fazer comidinhas e cuidar da casa. Ama sair pra passear.

2 comentários em “De wi-fi a tucumã

  1. Amiga… lendo o seu texto agora como seguidora do blog, e não editora, pausadamente e com mais calma (a mais acordada 😄), fico de novo impressionada com sua capacidade literária… E em português! Que você diz estar enferrujado 😝 Confesso q tem pedaços que eu preciso ler mais de uma vez, de tão profundos! E outras partes que são simples e palatáveis como uma conversa na varanda… Sou sua fã! 😘

    P.S.: agora estou desesperada de vontade comer Tucumã! e olha que nem sei que gosto tem! Isso não se faz a uma mulher grávida… hahahaha

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  2. Cunhaaa, que texto incrivelmente escrito, que leitura gostosa.. Compartilho da ideia e acho de grande importância falar sobre isso, às vezes nos esquecemos que a vida não é esse mar de rosas mostrado pelas lentes dos celulares! Parabéns minha lindona, que orgulho ❤️

    Curtido por 1 pessoa

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