O lixo esquecido que chamo de perdão

Quando começamos o blog, pensamos na ideia de sugerir temas mensais onde cada autor poderia discorrer sobre sua experiência naquela área, sua percepção e entendimento do assunto. O objetivo era termos uma diversidade de olhares sobre a mesma “imagem”.

Éramos apenas 6 inicialmente, e cada uma sugeriu 2 tópicos, os quais distribuímos pelos 12 meses do ano. Algo interessante tem acontecido desde então. Todos os meses, a pessoa que sugeriu o tema, é mesma que não publica nada sobre “seu” tópico, ou o faz no último minuto. Isso havia me deixado curiosa, pois meu entendimento era de que elas seriam as que teriam algo na ponta da língua a dizer sobre o assunto, já que elas mesmas teriam sugerido o determinado tema!

Porém, adivinhe só. Esse mês foi minha vez de ser tomada pelo silêncio… sim, o tema que escolhi para escrever, é exatamente aquele sobre o qual não me vêem nada à mente. Ou melhor, o que vem não passa pelo meu crivo de censura (ou bom senso). Talvez seja isso… poderia ser que o tema que escolhemos seja mais aquilo sobre o que queremos ouvir do que o que temos a dizer. Ou quem sabe seja exatamente aquela área sensível, intocada, que teima em nos assombrar e que Deus insiste em tratar? É, talvez…

Gostaria de poder começar esse texto com alguma história pungente e dolorida que teve um final surpreendente e restaurador devido à minha imensa capacidade aglutinadora e conciliadora, trazendo amor e alegria a todos. Pronto, final feliz!

Só que não… quem tem um temperamento como o meu, ou convive com alguém que o tem, sabe muito bem que conciliação e paz não são realidades muito frequentes no nosso dia-a-dia. Quase todas as nossas decisões, ações e palavras são movidas por uma reação intensa e apaixonada a qualquer que seja o estímulo e situação. Emoções à flor da pele, boas ou ruins, tornam a vida de todos ao redor uma montanha russa de sentimentos, quase sempre muito divertidos, mas com frequência também, profundamente doloridos. Conflitos então pululam feito pipoca, e a forma de resolvê-los se torna uma arte a ser perseguida. Ai, ai.. por toda a vida.

Olhando para trás, posso observar a vasta coleção de confrontos que me acompanham, mas não consigo me lembrar de como eles foram resolvidos. Isso provoca um gelado arrepio na espinha ao pensar na possibilidade de que talvez eles não foram resolvidos, e que eu sigo minha vida feliz, livre, leve e solta, enquanto ainda existem pessoas magoadas e feridas que deixei pra trás! Ouch! Bom, isso explicaria muita coisa.

Outro traço de minha personalidade é que falamos tudo o que nos vem à mente. Raramente pensamos duas vezes antes de falar, e muito mais raro ainda, optamos por não falar. Existe esse sentimento (oculto e presunçoso) de tudo o que tenho a dizer é importante, interessante e indispensável. Porém ao mesmo tempo em que falamos demais, nos lembramos muito pouco do que é dito. Isso vale para as discussões também.

Essas explosões verbais tem um fator terapêutico para quem está extravasando (colocamos tudo pra fora e dali dois minutos não nos lembramos de mais nada) e corrosivo para quem está absorvendo (geralmente aquele que houve em silêncio não se esquece tão fácil das ofensas a que foi exposto). É muito comum que encontre pessoas que há muito não via, e que até me lembre que tivemos um “arranca-toco” (desacordo, briga etc) no passado, mas definitivamente não me lembro sobre o que se tratava, nem quem falou o quê e muito menos como foi resolvido. Em geral apenas presumo que é passado e que estamos bem, saudando a pessoa com a alegria do reencontro de velhos amigos. Ledo engano. Não são poucas às vezes também em que sou acusada de falsa, hipócrita, insensível e traiçoeira. A pessoa ferida ainda estava em dor.

“Como você pode chegar assim, depois de todo esse tempo e agir como se nada tivesse acontecido?” é a acusação inflamada que escuto, enquanto meu cérebro gira em parafuso tentando desesperadamente se lembrar do que aconteceu, e meus dentes lutam para segurar a língua que teima em responder rapidamente “Exato! Depois de tanto tempo! Tanta coisa aconteceu, mas o que há de tão importante para se lembrar depois de tanto tempo?!”. Bem, você imagina o final desse encontro se meus dentes falharem em sua missão.

Enfim, posso dizer que minha maior virtude é também minha maior maldição. A facilidade que tenho para esquecer as razões dos conflitos e que me fazem genuinamente perdoar e esquecer, tornando possível que eu honestamente me alegre com o reencontro (acredite!) é exatamente o que para o outro vem como desmerecimento de sua dor, indiferença, cinismo e provocação.

Eu poderia muito bem escolher seguir a vida feliz com meu esquecimento e totalmente alheia ao efeito causado nos outros. Afinal, é problema de quem guardam rancor, certo? Não! Errado! Seja biblicamente, humanamente e até ecologicamente falando, somos sempre responsáveis pelos rastros (lixo) que deixamos pra trás. Como o outro reage ao meu rastro, ou o que faz com ele não é problema dele, é meu que o criei!

Ah, como eu queria agora encerrar dizendo que essa é uma lição aprendida, uma batalha da qual sou vitoriosa e que assim poderia lhe passar a receita para alcançar o mesmo sucesso. Porém, não. Ainda me debato diariamente para aprender a olhar para o outro, me colocar no lugar do outro, tentar pensar e sentir como o outro. Isso dá um trabalho, ah! Como dá!

É desconfortável, é humilhante, é desconcertante voltar atrás recolhendo o lixo que fomos espalhando ao longo do caminho, limpando as vias de trânsito e convivência bloqueadas pelo entulho que eu havia “esquecido” ali. Mas ao contrário da sujeira recolhida por garis e outros funcionários, esse lixo emocional e relacional, apenas eu posso remover. Não posso delegar, não posso terceirizar. Não foi à toa que Jesus afirmou:

“Bem aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”. Mateus 5:9.

 

Fotografia: Unsplash

Escrito por

Cidadã do mundo, ela nunca conseguiu responder à pergunta "de onde você é?". Nascida em Minas Gerais, cresceu no Pará, se formou em São Paulo, exerceu a Terapia Ocupacional em Goiás até ir para o Nepal onde esteve nos últimos 6 anos, e onde conheceu seu marido. Se casou na Índia e está de volta ao Brasil por tempo indeterminado. Para ela o dia perfeito começa com cheiro de café coando, pão com manteiga na chapa chiando, minutos preciosos lendo e conversando com o Pai, e a risada de sua filha de 2 anos anunciando que o agito já vai começar.

3 comentários em “O lixo esquecido que chamo de perdão

  1. Adorei! A parte que mais curti é a honestidade de assumir que você está em construção e precisa continuar caminhando e encontrando em Deus ajuda pra superar essa situação interna toda. Como cristãos, tantas vezes achamos que TEMOS que trazer as soluções, esquecemos que também estamos em uma caminhada e que quem é perfeito tá no céu já. Parabéns pela coragem! É inspirador ver gente de verdade na caminhada com Jesus. É revigorante! Quanto ao problema… que Deus te dê oportunidade de “Make amends” e resolva tudo quanto for possível!
    bjinho

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    1. Obrigada Mical,
      Foi muito difícil escrever algo, e tive mesmo que me empurrar pra tal. Geralmente gostamos de histórias de sucesso, não de obras ainda em construção. Mas depois pensei que a maioria das coisas em nossa vida ainda é uma obra em construção, não é mesmo? Como vc mesma disse, perfeitos só os que já foram pro céu… então precisamos nos encorajar com a realidade do jeito que é… obrigada pelo seu carinho. 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  2. O perdão é um exercício diário que devemos praticar constantemente. As palavras de Jesus são maravilhosas e devemos segui-la porque ele é o nosso exemplo maior de perdão. Como disse William Shakespeare: “O perdão cai como chuva suave do eu na terra. É duas vezes bendito: bendito ao que dá e bendito ao que recebe.” Um grande abraço.

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