Espelho

Um dia, em uma conversa com o Laurence (meu marido), falávamos sobre as facetas de Deus. Uma delas é a criatividade. Venho de uma família de artistas, todos cantamos, meu irmão mais velho compõe, meu pai e eu desenhamos e pintamos, meu irmão mais novo é designer. Minha mãe tem muitas habilidades manuais e assim vai… Então, a criatividade é uma coisa que permeia minha vida desde muito cedo.

Sempre amei desenhar, rabiscava meus livros e cadernos. Algumas professoras iam à loucura, mas desenhar me ajudava a prestar atenção, me ajudava a processar alguns sentimentos também. Eu dizia que iria ser estilista quando crescesse, mas isso não aconteceu.

Mas o que essa minha história tem a ver com a minha conversa com o Laurence? Falávamos sobre como a criatividade, sendo executada de alguma maneira, pode ser um ato altamente espiritual, uma coisa que nos liga diretamente com o Pai. Achei aquilo fantástico! Era o começo do nosso casamento e meu marido havia acabado de se formar em teologia e psicologia. Eu fiquei impressionada com esse conceito que ele trouxe,  explicando que a Bíblia começa nos mostrando um Deus criador, criativo, como um pintor, e escultor. Então quando estamos sendo criativos, nos conectamos com esse Deus de uma maneira linda, manifestando a Sua semelhança com a qual fomos criados, por Ele mesmo.

Não sei vocês, leitores, mas pra mim foi algo que me atingiu. Puff! Wow! Que conceito loucamente lindo.

A igreja às vezes não sabe bem como lidar com a arte, acho que uma das razões é por  achar que a arte, muitas vezes, é a alma de alguém desnudada. Às vezes é fácil de achar lindo, outras vezes é obscura e misteriosa, e de vez em quando você considera feio mesmo. Então é meio complexo se relacionar com tanta variedade ali à mostra. Geralmente na igreja existe música, esses são os artistas, mas a partir do momento que a variedade de arte floresce, a coisa desanda. Os artistas também são tachados de rebeldes, estranhos, ou algo assim. Só pode ser considerado de Deus se mostrar aspectos “evangélicos” na arte. Mas a criatividade e a arte são bem mais abrangentes.

Mas esse texto não é sobre isso, era só uma pausa para reflexão.

Seguindo essa linha de pensamento, cada ato criativo cria uma ligação com o Deus criador. Pessoalmente, quando estou desenhando ou pintando, sinto paz, sinto alegria, sinto Deus. Uma parte da minha arte fica pra mim mesma, algumas eu mostro. Muitas vezes porque sou meio insegura com as minhas habilidades e às vezes acho que não é tão bom ao ponto de “valer a pena” ser mostrado. Algumas criações somente são somente pra mim e para Deus, fruto desse momento de conexão com o Pai.

Foi uma surpresa boa quando em 2015, o Erwin McMannus, pastor da igreja Mosaic nos EUA, lançou um livro exatamente sobre esse conceito “The artisan soul”. Eu li e foi como se encontrasse um amigo, alguém que entendesse. Fala sobre como espelhamos nosso Deus e como Ele se alegra quando exercemos a criatividade. O autor explica sobre como somos arte e artesão ao mesmo tempo, e esse aspecto, muitas vezes, é abafado. Quando percebemos essa ligação, abrimos espaço para experimentarmos Deus de uma maneira nova e linda.

A criatividade não se delimita apenas à arte, música, fotografia… A criatividade está em todos os lugares. Você exerce a criatividade quando está cozinhando e escolhe que temperos colocar. Às vezes experimenta algo novo fugindo um pouco da receita, mas está ali, criando uma lasanha a partir de elementos que antes não constituíam a massa, somente ingredientes. Também podemos exercer criatividade quando você está no trabalho, quando resolve problemas, ensinando a tarefa para seu filho ou aluno, na maneira que você escolhe se vestir. Consciente ou não, mesmo que se considere um zero à esquerda na área, precisamos de criatividade pra nos mover na vida. E a criatividade nos remete ao Criador.

Quando identificamos essa faceta de Deus em nós experimentamos uma grande alegria! A alegria de exercer algo para o qual fomos criados para fazer. Quando canto ou pinto, existe um sentimento de completude, é como se eu percebesse: “eu nasci pra fazer isso”. E ali, naquele ato criativo, Deus é exaltado e glorificado através do meu pincel ou da minha voz. Aleluia! Escrevendo esse texto, meu coração se enche de gratidão pela oportunidade de estar exercendo minha criatividade ao digitar palavras antes não existentes aqui, na minha frente, nessa tela.

Uma das frases do livro de McMannus é: “A alma do artesão não diz respeito à rebeldia, é sobre ressonância”. Somos filhos, imitando o Pai. Somos um ícone na tela do computador, que ao ser clicado leva ao programa principal que o símbolo representava. Ao sermos “ativados”, acionamos o Original, a Fonte de todas as coisas.

Não sei se você consegue entrar nesse pensamento sem esboçar um sorriso, por dentro ou fisicamente mesmo. Como isso me traz alegria! Como essa ressonância mexe comigo.

Peço permissão para colocar aqui um trecho de uma manifestação criativa de C. S. Lewis, o livro “O Sobrinho do Mago”, quando escreveu as crônicas de Nárnia.

“(…)O Leão andava de um lado para o outro na terra nua, cantando a nova canção. Era mais suave e ritmada do que a canção com a qual convocara as estrelas e o sol; uma canção doce, sussurrante.

À medida que caminhava e cantava, o vale ia ficando verde de capim. O capim se espalhava desde onde estava o Leão, como uma força, e subia pelas encostas dos pequenos montes como uma onda. Em poucos minutos deslizava pelas vertentes mais baixas das montanhas distantes, suavizando cada vez mais aquele mundo novo. Podia-se ouvir a brisa encrespando a relva.

(…) Polly achava a canção cada vez mais interessante, pois começara a perceber uma ligação entre a música e as coisas que iam acontecendo. Quando uma fileira de abetos saltou a uns cem metros dali, sentiu que os mesmos estavam ligados a uma série de notas profundas e longas que o Leão cantara um segundo antes. Quando ele entoou uma sequência de notas rápidas e mais altas, não ficou nada surpresa ao ver primaveras surgindo por todos os cantos…”

Que alegria, a oportunidade e privilégio de me juntar à essa melodia, de maneiras grandiosas ou simples, mas louvando e espelhando essa Força Criadora e criativa.

Meu desejo para você, leitor, é que, conscientemente, experimente dessa conexão, que já acontece, mas passa despercebida tantas vezes. Que reflita a fonte, a origem. Te convido você a ser mais presente em tentar encontrar esses momentos, mesmo sendo um segundo em que você se conectou ao Deus Criador de uma maneira única, criativa e pessoal. Por fim, convido-a a ouvir a melodia e se juntar à sinfonia.

 

18 comentários em “Espelho

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  1. Texto lindo Mical. Nao sei dizer ao certo, mas sorri… e identifiquei prazer em certas coisas que faço, que não são necessariamente arte, nas quais me empenho com capricho… E que me dão alegria!

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    1. Oi tia, obrigada! Exatamente! Não precisamos ser artistas, mas ficar conscientes da conexão que temos com Deus quando exercemos a criatividade. Nessa hora, nos ligamos diretamente com a nossa origem, o Deus Criador! 😘☺️

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  2. Oi Mical, achei lindo e fui me conectando e pensando sobre o que eu tenho feito de criativo na minha caminhada. Na minha oração de hoje cedo, pedia a Deus criatividade e o que você falou me remeteu diretamente a isso. Deus tem me dado criatividade para administrar da melhor forma e obtendo os melhores resultados. Deus é magnífico! Ele nos dotou de talentos e dons com tamanha maestria que só precisamos enxergar e acreditar para usar em favor do Reino. Parabéns pelo excelente texto que nos faz refletir profundamente!!!!

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  3. Parabéns lindo! conseguimos imaginar a magnitude de Deus, como um artista, como cantor, como advogado, como médico, como dentista, como agricultor…..como todas as profissões e talentos que existam nesse mundo.
    Grata sou a Deus por mostrar como sou parecida com Ele, que o dom que tenho na minha profissão é espelho do senhor.
    Obrigada Mical!

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  4. Chorei ao ler. Eu nunca imaginei Deus assim e portanto nesse aspecto da criatividade eu não me imaginava a sua imagem e semelhança, já pelos próprios pecados eu me via tão distante Dele e lendo seu texto me senti bem pertinho de Deus. Sempre fui um zero a esquerda pra tudo relacionado a arte, e me acho uma ótima mãe( mas não via criatividade nisso), também me acho ótimo dona de casa e cozinheira ( também nunca imaginava que nas minhas criações culinárias eu pudesse ser criativa). Agora poxaaa me senti bem e até me achei criativa, a maneira como exerço a paciência e ensino meu filho e em tantas coisas que agora posso dizer: não canto, não danço, nem desenho, mas a maneira como Deus me usa pra cuidar da minha família só me faz sentir o quanto artista eu sou e talvez encare essa rotina com mais amor ainda e olhando pra mim agora de uma forma diferente. Obrigada Mical.

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