A fantástica fábrica de chocolate

As lembranças mais felizes que tenho da minha infância geralmente envolvem férias em família. Se fechar os olhos, consigo lembrar da primeira vez que andamos de avião, o friozinho na barriga, a gentileza dos comissários de bordo da finada Varig. E chegamos em Vila Velha, no Espírito Santo. Fomos a algumas praias, brincamos muito, nadamos e conhecemos uma realidade diferente de outro estado. No entanto, o que mais me trouxe alegria foi a visita à fábrica de chocolate da Garoto – Se você foi criança nos anos 90, entende bem a expectativa e esperança de que a estrutura do lugar se pareça muito com a que o Willy Wonka construiu no filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Imaginava o rio de chocolate, as árvores de pirulitos gigantes e a grama comestível. Para a minha decepção, o lugar era uma pequena loja que vendia os bombons da marca, porém mais baratos. Tive que comer muito doce para afastar minha tristeza, mas acho que já superei o trauma =)

Acontece que muitas vezes lidamos com situações parecidas na vida adulta. As circunstâncias atuais não condizem com a expectativa, ou até mesmo a fantasia, idealizada na mente. Nos frustramos, choramos, nos emburramos e passamos por todas as fases do luto.

O que nos causa tristeza pode ter vários nomes e significados: relacionamentos partidos, empregos perdidos, o cansaço que acompanha a busca pelos sonhos, a caminhada árdua que parece nunca terminar, ou a dita fábrica de chocolate.

Ano passado perdi minha primeira gravidez. Ouvimos do nosso médico que o bebê tinha parado de se desenvolver ainda muito cedo na gestação. O que antes tinha sido um motivo de muita alegria, agora significava idas e vindas ao hospital, exames de sangue e procedimentos médicos. Uma mistura de sentimentos tomou conta de mim, e enquanto meu corpo se recuperava, as emoções não davam trégua. Ouvi do “sinto muito”, até o “mas já, já você engravida de novo”. Notava que, entre curiosidades e interesses, ou as pessoas me perguntavam as mais diversas coisas, ou tendiam a não tocar no assunto, talvez por cuidado. Até que escutei de uma pessoa muito próxima a seguinte frase: Já faz um mês que isso aconteceu, já era para você estar superando isso. As lágrimas vieram à tona, queria me defender, e explicar meus sentimentos. Ao mesmo tempo, pensei em me apressar, sacudir a poeira e exclamar “vida que segue”. Lembrei de uma professora na faculdade que dizia não ter tempo para sofrer, só para ser feliz. Pedi a receita dela. Como faz para não sentir?

Mas sentimos, não é mesmo?

Há tempo para tudo debaixo do céu, já dizia Salomão. Será que dá para pular de fase? Chegar logo na parte que a gente fica como quem sonha?

Demorei um tempo para ficar bem. A minha recuperação aconteceu na velocidade que meu corpo permitiu e as emoções seguiram o mesmo passo. E hoje respiro aliviada por estar de pé.

Semana passada conversava com uma amiga que não via há um ano. Compartilhamos sobre as experiências dos últimos meses e ela me lembrou da alegria existente em meio ao sofrimento. Da permissão que muitas vezes devemos nos dar para chorar, sentir tudo que devemos sentir e incluir Jesus em nossas dores. Aliás, permitir que Jesus nos encontre onde estamos, como Ele fez com a mulher de Samaria, o cego de Jericó e Paulo a caminho de Damasco. A mesma amiga citou uma frase que a ajudou em uma situação difícil que enfrentou:

Que eu sempre esteja a beira das lágrimas entendendo completamente toda a dor e alegria da vida, e o espaço existente entre elas.

(May I always be on the verge of tears fully acknowledging all the pain and joy in life, and the space in between).

A ideia aqui é viver as fases da vida e os sentimentos que as acompanham. Sabendo que dentro do vale da sombra da morte, ou dos desertos secos, há o Pastor que nos carrega, nos acompanha, devagar ou rápido, e nos leva a um lugar de pastos verdejantes. E que dentro disso tudo, Ele é a nossa própria alegria. E então, as circunstâncias, por mais que permaneçam as mesmas, se tornam mais leves, porque Ele mesmo providencia as ferramentas necessárias para enfrentarmos as lutas.

Em Romanos 8:28-39, Paulo discorre sobre a totalidade de nossas experiências convergirem para o nosso bem (vs. 28). Ele, então, fala sobre o nosso estado de existência em Cristo -comprados, redimidos, justificados (vs.29, 30) e da posição de Deus diante de nossas lutas (vs. 31-34). E enfim, declara que n’Ele somos mais que vencedores, em todas as situações, conjecturas e realidades (por mais que não pareça e a fé desanime). E por causa da inabalável condição de ser e existir n’Ele, nada pode nos separar de Cristo (vs. 37-39).

Somente por essas razões podemos encontrar alegria nos lugares tristes da caminhada, enquanto concomitantemente crescemos e nos aperfeiçoamos. Crendo que Aquele que começou a boa obra, há de completa-la n’Ele mesmo. E claro, às vezes um chocolatezinho nos ajuda a processar os sentimentos, mesmo que não venha da mágica fábrica do senhor Wonka.

“ Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.
Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.
Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?
Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.
Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós.
Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
Como está escrito: “Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”.
Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.
Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes,
nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”
Romanos 8:28-39

fonte: Wellesley Free Library

Escrito por

Nascida e criada em Manaus, hoje mora nos Estados Unidos, com o seu esposo. Tem uma filha canina de 7 aninhos chamada Meg, muito sapequinha e inteligente. Estudante de aconselhamento, esposa em tempo integral, adora fazer comidinhas e cuidar da casa. Ama sair pra passear.

7 comentários em “A fantástica fábrica de chocolate

  1. É isso minha amiga. A nossa realidade apenas Deus conhece. Bem como as nossas cicatrizes e dores. Não há tempo um tempo certo para superararmos as situações pelas quais passamos. Acho que isso nem é o x da questão. E sim, chorarmos aos pés do Consolador das nossas almas, ao invés de chorarmos como os que não tem Esperança na vida.

    Texto incrível! És exemplo pra mim, desde a escolha do curso na faculdade há anos, até hoje 😍❤️

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  2. Texto bonito! Fiquei emocionado ao lembrar dos chocolates dessa fábrica, onde passei todas as minhas férias desde os 5 anos até que me casei! Era a “Praia dos mineiros” tínhamos casa de Praia lá! Meu pai amava o lugar! Muitas saudades!!!
    Parabéns Heidi!!

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