Em casa a gente conversa …

Quem não se lembra de ser criança, estar de divertindo loucamente em uma festinha de aniversário (provavelmente mais do que deveria) e ouvir aquela frase famosa de quase todos os pais e mães: “Quando chegar em casa a gente conversa”. Ah! Não sei vocês, mas para mim a festa acabava ali mesmo! Eu sabia muito bem que a “conversa” não seria nada agradável e que eu provavelmente estaria encrencada quando chegasse em casa.

Lembro que a espera era horrível! Eu ficava sentada, emburrada, perguntando pros meus pais se a gente já podia ir embora. Só queria acabar logo com aquela angústia e ter a bendita “conversa”! Mas não, eles geralmente não estavam com planos de voltar para casa tão cedo, e para mim, bem… a festa já tinha perdido toda a graça, então as poucas horas de espera pareciam uma eternidade!

O tempo passou, eu cresci, e qual não foi minha surpresa ao me deparar com a tal “espera” de novo, só que dessa vez não dos meus pais terrenos, mas do Papai do Céu. Consigo lembrar inúmeras vezes em que eu queria muito uma resposta ou direção de Deus (que era urgente, ao meu ver) e Ele respondeu com um longo silêncio. Me consola saber que os grandes heróis da fé se depararam com o mesmo dilema!

Ao olhar, por exemplo, para a vida de Abraão, José, Daniel… percebo que todos eles passaram por longos desertos e tiveram que aprender a esperar e confiar em Deus em meio ao silêncio. Creio que dentre todos os personagens bíblicos, o que mais admiro (depois de Jesus) é Moisés. Ele teve um nascimento milagroso e escapou do decreto de Faraó para matar todos os meninos hebreus, sobreviveu aos perigos do rio Nilo em um cestinho e chegou ao palácio onde foi adotado pela filha do próprio Faraó.

Foi entregue de volta à sua mãe biológica para ser criado (coisa de filme de Hollywood!), depois voltou ao palácio real e foi educado em toda cultura, treinamento militar e conhecimento egípcio. Parecia que ele estava sendo preparado para ser um libertador guerreiro do povo de Deus. Mas Deus tinha planos diferentes, Deus não precisava de um grande guerreiro, Deus precisava de um coração obediente, e para isso o Senhor o removeu do Egito e o treinou por quarenta anos como pastor de ovelhas, um trabalho considerado pelos egípcios como sendo de baixo nível. Apenas após esse tempo Deus revelou a Moisés Seus planos de usá-lo como Seu instrumento para a libertação do povo de Israel da cruel escravidão no Egito.

A história é empolgante demais para relatar aqui, mas o resumo é que Deus usou Moisés para finalmente libertar Seu povo de maneira gloriosa! Mas agora, longe da opressão do Egito, Moisés tinha nas mãos um povo obstinado, ingrato, desobediente e reclamão (igualzinho a gente muitas vezes). Mesmo diante desse desafio incrível, Moisés perseverou, amou e serviu a esse povo com todo esmero, até que… ele cometeu um deslize! O povo mais uma vez reclamava, murmurava e acusava Moisés e a Deus, pois estavam sem água. Moisés consultou a Deus e Ele disse que desse uma ordem à rocha para que jorrasse água, Moisés (já muito chateado da vida) dá uma bronca no povo e bate com seu cajado na pedra com força e a água jorra.

Deus então dá uma punição a Moisés, (ao meu ver, uma punição dura demais!) de que ele não entraria em Canaã, a terra prometida, mas apenas a veria de longe. Moisés ficou triste, até tentou argumentar, mas por fim aceitou graciosamente a decisão de Deus (eu não sei se teria a mesma capacidade… provavelmente não) e o que o Senhor disse se cumpre: Moisés sobe ao monte, contempla Canaã e ali mesmo encerra seus dias de vida.

A história de Moisés me inspira porque eu quero aprender a esperar em Deus, eu quero aprender a aceitar o não com a mesma graciosidade com a qual eu escuto o sim, quero entender que o silêncio de Deus não significa que Ele está distante ou ausente, muito pelo contrário! Quero encontrar o prazer na Sua companhia em meio ao silêncio e quero aprender a me submeter à vontade boa, perfeita e agradável de Deus (mesmo que muitas vezes não pareça assim aos meus olhos).

Essa história de Moisés foi belamente transformada em uma canção pelo compositor Estêvão Queiroga que disse:

“Quando Deus te pede pra esperar

Quando Deus te impede de um sonho alcançar

Quando Deus te diz que não podes entrar em Canaã

Espere um tempo, Deus tem algo melhor

É porque teu hoje pode ser pra Deus um amanhã”

Hoje, percebo que sou eu a mãe que diz para os filhos que vamos ter que conversar quando chegarmos em casa, hoje eu sou aquela que muitas vezes não tem como atender aos pedidos deles naquele momento e digo que eles têm que esperar. Como mãe eu consigo entender que nem todo “não” é negativo e nem toda espera é ruim. Sei do amor que tenho pelos meus filhos, e não me alegro em vê-los tristes quando digo não, ou quando eles precisam esperar. Se eu, que sou humana e falha, consigo perceber que há amor por trás dessas decisões difíceis que tenho que tomar, quanto mais nosso Pai do Céu.

Moisés não entrou na terra prometida terrena, mas ele certamente entrou na Terra Prometida Celeste, aquela que está sendo preparada para nós por Jesus, onde a traça e a ferrugem não corroem e que não foi feita por mãos humanas, mas pelas mãos do próprio Criador!

Meu desejo é que eu e você possamos enxergar esses períodos de silêncio de Deus com graciosidade, percebendo que existem lições importantíssimas para a vida que só podem ser aprendidas nesses momentos de espera ou de “não”. Se cremos em um Deus amoroso e bom, então podemos descansar em esperar, afinal, é nesses momentos difíceis que Deus vem, gentilmente, para provar o nosso coração e nos fazer conhecer quem somos de verdade!

 

Fotografia: Justin Bland on Unsplash

 

 

Escrito por

Seguidora de Jesus, Brasileira de Manaus-Amazonas, casada e feliz há 9 anos com um americano, homem de Deus (Aaron), mãe de três crianças lindas (Noah - 7 anos, e um casal de gêmeos de 4 anos - Julia e Benjamin). Compositora e cantora (amadora). Formada em odontologia há 10 anos, mas atualmente dedica-se em tempo integral à família e criação dos filhos. Não recusa um convite para uma boa prosa, ainda mais se tiver um cafezinho e banana frita! Mora com a família em Indiana, nos Estados Unidos.

2 comentários em “Em casa a gente conversa …

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