Quando um “por que” não tem resposta

Eu devia ter 13 ou 14 anos, morava em Olinda, Pernambuco e estudava na Academia Santa Gertrudes, no Alto da Sé. Vista deslumbrante! Turistas do mundo inteiro, até hoje, sobem aquelas ladeiras a fim de se depararem com uma das vistas mais esplêndidas de todo o Brasil.

Era um colégio de freiras, em que havia claustro, madre superiora, missas e tudo o mais que o contexto exige. Inclusive uma igreja, a Igreja Nossa Senhora da Luz, também conhecida como Igreja da Misericórdia, creio que por ficar contígua a uma ladeira extremamente íngreme, que dá acesso a outros cantos da Olinda Antiga, justamente conhecida como “Ladeira da Misericórdia”.

Eu era uma adolescente comum, fã de Elvis Presley, Jackson Five, The Carpenters, gostava de futebol e de ler Charles Dickens. Minha irmã, um ano mais nova, também estudava ali e tínhamos o Guga.

Nosso irmãozinho caçula era lindo! Cinco anos mais novo que eu, era loirinho e tinha cabelos invejáveis! Só que havia um problema. Um bem sério.

Nosso irmãozinho nascera diferente das outras crianças. O parto de minha mãe foi bem difícil. Seu médico estava em viagem, e o plantonista resolveu fazer uma “analgesia de parto”. O bebê nasceu cianótico, sem choro, mas depois suas funções vitais pareciam normalizadas e ambos, mãe e filho, tiveram alta.

Por volta dos seus dois anos de idade, apesar de ser elétrico, hipercinético, e fisicamente saudável, ele não falava… Com duas filhas que cedo começaram a falar, os pais iniciaram uma jornada, por vários consultórios médicos, ansiosos para descobrir qual era o problema. Um daqueles “doutores” sugeriu que Gustavo tinha problemas de audição, e prescreveu um aparelho auditivo. Estranho isso… afinal ele reagia a palmas e outros sons, além de se virar quando o chamávamos pelo nome.

Após uma verdadeira saga em busca de especialistas na cidade de Brasília, onde morávamos, um dos médicos indicou que aquela criança parecia ter problemas mentais graves, o que foi um choque para os jovens pais, na época com 28 e 24 anos. Assustados, seguiram para o Rio de Janeiro, onde passariam em consulta com o Dr. Rinaldo De Lamare, proeminente pediatra, cuja carreira ainda se estenderia por décadas a fio.

O diagnóstico foi “Seu filho tem uma grave Oligofrenia, Autismo e outras comorbidades”. Foi ali, naquele consultório, naquele dia, que uma jovem mãe de três filhos, com apenas 24 anos de idade e um pai com futuro promissor, técnico judiciário do Supremo Tribunal Federal , viram o seu mundo ruir. O caos se instalou, o medo tomou conta, os corações ficaram nublados, apertados, dilacerados, os pensamentos vagavam e não encontravam respostas, as lágrimas corriam e não havia quem as contivesse. Na época eu tinha sete anos e era ano de Copa do Mundo. O Brasil foi tricampeão com a seleção de Pelé e Rivelino.

A partir de então, iniciou-se uma jornada sem fim. Uma busca de “por quês”, revolta, dor, peso, incerteza, insegurança, lamento, pranto… Naquele tempo, nenhum de nós havia ainda conhecido a verdadeira Paz, aquela que independe das circunstâncias, aquela genuína, cuja fonte é inesgotável.

Não há espaço aqui para relatar como foram as décadas que se passaram desde então, mas posso assegurar uma coisa, foi duro, muito duro.

Durante minha infância, eu ainda não tinha muita consciência de tudo que estava acontecendo, mas a adolescência chegou. Eu sofria com o sofrimento dos meus pais e com as crises do meu irmãozinho, que muitas vezes se autoflagelava. Um questionamento forte que vinha ao meu coração era “Deus, por que justo na minha família tinha de nascer uma criança assim?” Eu tinha muita pena dos meus pais, porque eu percebia que eles sofriam demais, não sabendo como lidar com a situação, e eu não podia fazer nada… ninguém podia fazer nada… ninguém.

Numa busca por respostas, eu costumava cometer um delito. Muitas vezes, na hora do recreio, eu me esgueirava por algumas portas, por alguns corredores, passava sorrateiramente por dentro do claustro e ia em direção à porta dos fundos, que dava acesso ao interior da Igreja da Misericórdia. Era uma impertinência! Se eu fosse flagrada, no mínimo, seria suspensa. Aquela área era totalmente proibida para os alunos.

Já no interior da igreja, construída em 1540, sob uma luminosidade lúgubre, ambiente abafado e silencioso, sentava-me no último banco, quietinha, ficava olhando o enorme crucifixo que havia lá na frente, com um Cristo fraco, morto, ensanguentado, com a cabeça pendida para o lado, e perguntava: “Por quê? Por quê?” Então eu chorava, chorava, rezava alguns “Pai-nossos” e algumas “Ave-marias”, buscava me controlar e fazia minha via crucis de volta para a sala de aula, de volta para a vida e, ainda, sem resposta nenhuma.

Então os anos se passaram. Um dia, nossa família visitou um colégio para crianças especiais (na época se dizia “excepcionais”), e havia uma placa na parede, com os seguintes dizeres: “Se Deus colocou uma criança diferente na sua casa, é porque Ele confia em você”. Aquelas palavras saltaram aos meus olhos, e foi o primeiro facho de luz a brilhar diante de tudo que vinha acontecendo, mas minha mãe continuava sofrendo, fumando muito, lendo livros sagrados de tudo quanto é religião, e meu pai, coitado, imerso no trabalho 25 horas por dia, numa fuga inconsciente da cruel realidade, foi se tornando uma pessoa amarga, iracunda, incrédula e fechada dentro de si.

Segundo o Dr. De Lamare, a expectativa de vida de meu irmão, não por conta da doença, mas por causa dos medicamentos que teria de tomar a vida inteira, giraria em torno de 30 anos. Ele morreu aos 37 anos. Oito anos antes, minha mãe havia sido levada pelo câncer aos 52 anos e, agora em 2017, meu pai partiu aos 76 anos.

História triste, não? Mas não se resume nisso. Aos 23 anos, a Graça Irresistível do Senhor Jesus invadiu a minha vida. A dor aguda da minha alma se acalmou e eu me rendi à Soberania de Deus. Tudo ficou mais fácil. Tudo. Não me interessava mais saber o porquê de nada.

No ano de 1995, às vésperas de uma cirurgia para retirada de um tumor no cérebro, minha querida mãe foi atraída pela mesma Graça. Após a cirurgia, seu estado geral ficou bem comprometido e foi declinando vertiginosamente, mas a maneira linda como ela compreendeu o convite amoroso de Jesus, antes de ser operada, num corredor vazio do hospital, fez dela uma nova criatura!

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

A hora do meu pai chegou em 1997, após muito sofrer pela doença de sua amada esposa, quando numa tarde seca de junho, com a mangueira na mão, molhando suas plantas tão queridas, ele conversou com Deus pela primeira vez na vida, então buscou um exemplar da Bíblia Sagrada em sua casa, leu o Evangelho de João e, a partir daquele momento, deixou de ser um ateu irreverente e se tornou um fervoroso cristão.

A realidade do Guga ainda estava ali, mas a maneira de encará-la mudou completamente. As décadas de questionamento e angústia ficaram para trás. A presença de Deus na minha família e a nossa rendição ao seu incondicional amor fizeram toda a diferença.

Hoje eu convivo com a saudade do Luciano, da Neuza e do Gustavo. Não sei como será no Céu, mas eu quero muito rever os três ali, com seus corpos glorificados, com um sorriso no rosto, desfrutando da presença plena de Deus para todo o sempre e, durante alguns momentos, como eu queria poder dar-lhes um longo abraço, um bem longo…

 

Fotografia: acervo pessoal da autora

Escrito por

Quase 30 anos de casada com um marido lindo! Duas filhas: Jessica (26) e Isabela (20). Candanga, fiquei em Brasília até os 12 anos. Daí fui pra Recife, onde fiquei quatro anos. De lá fui para Anápolis onde fiquei nove anos. Daí casei-me e fui pra Goiânia, onde passei quatro anos. Voltei para Anápolis e lá vivi mais nove anos. Agora já são 17 em São Paulo. Se fizer as contas, descobrirá que tenho 55 anos! Pode-se imaginar que meu sotaque é uma bagunça! 2017 foi meu Jubileu de Prata trabalhando em Missões Transculturais! 25 anos tentando fazer o que o Senhor me chamou pra fazer. Foram nove anos com Asas de Socorro e já são 17 com a APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Amo demais o que faço. Forever!

14 comentários em “Quando um “por que” não tem resposta

  1. Mônica querida,viajei literalmente lendo seus relatos, não tem como não me emocionar pois a nossa linhagem é a mesma e sei a verdade das alegrias e tristezas relatadas por vc.Luciano,Neusa e Gustavo sempre serão lembrados por nós com muito carinho.Sua história é linda e vc é e será muito amada por todos nós.Agradeço por vc compartilhar essa particularidade da sua vida conosco.Um beijo grande.

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    1. Que delícia ler seu comentário, Claudia. Queria muito ter passado mais tempo da minha vida com você, seus pais e suas irmãs. Como eu queria ter convivido de perto com meu avô… mas toda a nossa vida está nas mãos d’Aquele que escreveu a nossa história antes da fundação do mundo, e a força d’Ele em nós nos impulsiona a prosseguir e a descansar n’Ele.

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  2. Especial este escrito em forma de poema, tão cheio de emoção, intenso, vívido!!
    Obrigada querida Monica, por abrir a janela de tua alma em tuas memórias e nos levar ali através das linhas escritas; meu carinho e simpatia por tua viva História!

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  3. O que dizer deste lindo testemunho de vida? Não tenho palavras! Sempre admirei a forma profunda e delicada com que expressa os seus sentimentos. Parabéns. O Senhor faz maravilhas nas vidas dos filhos. Bjs. Raquel Oliveira.

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