Espera-nça

Quando engravidei pela terceira vez, foi surpresa! Com 26 semanas, minha pressão despontou levemente mais alta, surpresa de novo. Sempre tive pressão baixa durante a gestação. Não dei atenção para aquele detalhe. Passando o tempo me sentia mal, exausta. Ao final de vinte e oito semanas, comprei uma maquininha para aferir a pressão, como a médica havia sugerido. Descobri que estava numa média de 16X10.

Fui à maternidade pública próxima. Depois de uma longa espera e tentativas de baixar a pressão, fiz um ultrassom. O médico calado, “isso é um mal sinal”, eu pensei. Perguntei o que via e ele só disse: “Não posso responder, a médica de plantão vai esclarecer tudo pra vocês”. Ficamos mais tensos. De volta ao consultório, a médica falou que o líquido amniótico estava no nível 1 e eu deveria ser internada mas não havia leitos então que fosse para casa, tomar muita água e procurar um outro lugar pela manhã.

Que noite horrível! Me deram um calmante forte, mas não conseguia dormir. Tomei uns 2 litros de água naquela madrugada, me sentia muito mal. Cedo de manhã, fomos para uma maternidade pública referência na cidade. Lá os médicos pensaram em já fazer o parto, mas um novo ultrassom mostrou que o líquido havia subido para quatro (um milagre). Não havia necessidade do parto.

Eu nunca havia passado por nada tão surreal na vida. A pressão sempre alta, tomando soro e muita água. Meu corpo e rosto inchados, fiquei irreconhecível. Estar longe dos filhos era um pesadelo. Naquele leito, nervosa, triste, insegura, o que seria de mim e do bebê? Todos diziam: “Fique calma! Se ficar nervosa a pressão aumenta”. Como?

O hospital era carente. Estava entre duas outras mulheres em gravidez de risco. Uma noite em que estávamos ali, a mulher da minha direita chamou o enfermeiro de plantão, o bebê estava nascendo. O bebê não esperou, nasceu ali mesmo. Com outros seis filhos, ela devia conhecer bem o seu corpo. Entra então a equipe para cuidar do bebezinho e assistir a mãe. Nesse clima “tranquilo”, eu deveria ficar calma.

Entre um ultrassom e outo o líquido continuava em quatro. Quis conversar com um médico e entender a situação. Perguntei porque não tiravam logo o bebê, estava tão difícil baixar a pressão. Ele falou comigo em um tom paternalista: “Meu amorzinho, temos que deixar o bebê na barriga o quanto der, ele é a prioridade. Se a pressão subir a ainda mais e precisarmos, faremos a intervenção, por hora fica como está. O índice de sobrevivência de bebês dessa idade gestacional é baixo e se ele sobreviver, provavelmente terá várias sequelas”. Pânico! Voltei para o leito lentamente, e lá fiquei. Sem mais perguntas.

Tentar ficar calma me levou a algumas práticas aprendidas ao longo da vida. Exercícios de respiração, oração e a consciência de Deus comigo ali, naquele hospital. Também vieram anjos, um enfermeiro e ex-aluno que me cuidou carinhosamente e uma amiga com quem cresci na igreja e trabalhava no hospital.

Numa tarde senti que precisava ter o bebê. De madrugada conversei com Deus. Me entreguei em Suas mãos, orei pelos meus filhos, por cada fase. Pelo meu esposo, por sabedoria cuidando das crianças. Não sabia se viveria, mas sabia que não estava melhorando. Pedi para Deus mandar um médico que fizesse o parto. Quando meu marido chegou, pela manhã, falei: “Amor, esse parto precisa acontecer, ou nem eu nem o bebê vamos resistir. Falei com o Pai e Ele sabe, entreguei minha vida e do nosso filho. Deus cuidará de nós”. Mais tarde a plantonista veio e, olhando minhas informações, avisou: “Esse bebê tem que nascer urgentemente! Vamos prepará-la”. Meu coração acelerou. Pensei: é agora!

Mesmo sendo urgente, tem coisas que precisam acontecer antes do parto, veio alguém dizer que não havia lugar para o bebê na UTI neonatal, apenas para mim na de adultos, eu teria o bebê ali, e ele seria transferido para outra maternidade ao nascer. Não tivemos paz. Lembramos de um amigo que conhecia alguém no hospital adventista de Manaus, ligamos para ele. Minutos depois, ele ligou: “Tudo certo, já estão esperando por ela”. Muita burocracia e papelada, conseguimos a liberação. Agora faltava uma ambulância, a pública não me levaria. Falamos com um amigo que tem um hospital, ele conseguiu uma para nós.

Parêntesis… Eu estava ali, deitada, respirando, tentando não pensar nem no minuto seguinte, vendo toda aquela agitação, papéis pra lá e pra cá. Meu marido resolvendo as coisas ao telefone. Parecia um filme ou seriado desses de hospital. Porém me sentia mais tranquila, a espera ia acabar, Deus estava cuidando de mim e do bebê.

Na agonia da transferência, chega a ambulância. Meu marido disse que o médico parecia o George Clooney da série Plantão Médico. Ele perguntou quem era a mãe, e disse: “Querida, vamos cuidar de você e do bebê”. Logo eu estava dentro da ambulância. Meu marido perto dos meus pés, minha cabeça perto do médico que passava as mãos no meu cabelo e dizia: “Não se preocupe, querida, vai ficar tudo bem”. Ele não sabia, mas estava sendo usado pelo Pai celeste para me confortar e lembrar do Seu cuidado.

Chegando no hospital adventista, fui muito bem recebida, a equipe de enfermeiros imediatamente trocou os acessos e foi cuidando de tudo, o Laurence saiu para cuidar da papelada e veio o médico que faria meu parto, olhou minhas informações e disse que eu ficaria bem. Fiquei em uma sala deitada, sozinha, nem sei por quanto tempo… Agradeci a Deus o tempo todo, estávamos em boas mãos, nas mãos Dele. Chorei ainda ali, não sabia o como tudo ia ser, mas se vivesse ou se morresse, Ele ainda estava cuidando de tudo.

Finalmente, perto das 5 da tarde, fui para o centro cirúrgico, no caminho a pediatra veio e me preparou “Seu bebê é muito novinho, mesmo tendo tomado as injeções de corticoide, talvez ele não chore, mas estamos com uma equipe completa para cuidar dele”. Ok… vamos esperar para ver. A equipe médica falando baixinho, muito concentrados, eu ali, entregue, imóvel, esperando o choro ou não choro, tensa. Cortando o murmúrio escuta-se aquele chorinho de neném recém-nascido. Um barulho que me pareceu uma música, um hino de vitória, meu filho, vencendo a primeira batalha da vida dele. A doutora colocou-o perto do meu rosto, ele era tão pequeno, tão delicadinho, nasceu no dia em que entrei na trigésima semana. Levaram-no, foi para a incubadora e eu fiquei ali, maravilhada, extasiada. A espera havia acabado.

Foi uma semana longa de espera, de silêncio. Queria respostas, queria o controle. Mas não havia o que pudesse fazer, apenas esperar, respirar, confiar. Deus estava se movendo. O meu Pai cuidava de mim. Qual seria o resultado daquela luta? Não fazíamos ideia, mas Ele sim.

Depois desse longo episódio começaria outro de hospital, UTI neonatal, UTI adulto… mas fica pra outro momento.

Lembrei dessa canção do grupo Palavrantiga – Esperar é Caminhar e de uma antiga que cantava na igreja, o Salmo 42:

“Por que estás abatida minha alma?

Por que te perturbas dentro de mim?

Espera em Deus pois ainda o louvarei”.

Na espera, lembramos do que aprendemos. No silêncio, recorremos à fé. Não vemos nada, não sentimos, mas Ele prometeu então, confiamos.

Fotografia: Acervo pessoal da autora

9 comentários em “Espera-nça

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  1. Voltou tudo na memória agora e claro às lágrimas são inevitáveis e a lembrança do cuidado de Deus tb! Medo e segurança no Deus que cremos, incerteza e certeza do Seu Amor e cuidado mesmo não entendendo o que está acontecendo. Louvado Seja!

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  2. Uma história de esperança e fé e lendo a história da Mical e de seu bebê, não tem como nos emocionar e sentir através das suas palavras a presença do nosso Pai sempre presente mesmo em meio a toda essa avalanche de emoções e acontecimento eu posso dizer e falar eu sei o que você sentiu pois passei com a minha bebê por essa situação e só Deus pra nos fortalecer nessas horas. Conheço Mical e sua família pessoas queridas e amadas. Bjs Nena

    Curtido por 1 pessoa

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