Um passeio na casa do Lobo Mau

Era uma vez uma doce menininha (aquela do guarda-sol cor-de-rosa, lembram?) que morava numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. Essa menina, por ser pequena e gorduchinha, recebeu o apelido de Biloca (bolinha-de-gude).

A cidade era tranquila e a rua onde ela morava, também. Tinha até uma praça com parquinho de areia, quadra de futebol e lindos canteiros floridos, onde Biloca gostava de passear, correr atrás das borboletas e conversar com o jardineiro.

Conversar…. Ah! Como gostava de conversar essa menina! Conversava com todo mundo e o tempo inteiro! Ia de vizinho em vizinho saber como eles estavam, de vez em quando comia com eles algum lanchinho gostoso da boa e antiga culinária mineira. Eram os anos 80. Aquele tempo em que as crianças brincavam na rua sem a supervisão de nenhum adulto e todo mundo achava normal. Estranho era ficar quieto dentro de casa vendo TV.

Desde cedo a menina aprendeu que era educado conversar com os mais velhos, cumprimentar e ouvir suas histórias. Aprendeu também que a gente não deve conversar com estranhos, nem aceitar balas e doces deles, nem entrar no carro de nenhum desconhecido. Mas… como seria esse estranho?

Um dia, como fazia sempre, Biloca pediu umas moedinhas pra sua mãe e foi com sua irmã mais nova (sim, mais nova ainda! Sua irmãzinha tinha apenas dois anos) a uma mercearia na mesma rua da sua casa, duas quadras acima. No caminho tinha sempre alguém sentado na calçada à frente de suas casas, conversando e vendo o tempo passar. Ali, se não era todo mundo conhecido, era conhecido do conhecido. Era seguro. Pelo menos era o que as pessoas pensavam.

E foi nesse caminho que um dia, um morador dessa mesma rua abordou Biloca e sua irmãzinha. “Oi, meninas! Tudo bem?” Disse o homem sorridente, ao lado de sua esposa que também estava sentada em um banco na calçada. Biloca pensou: “Ah… um homem sorridente e sua esposa… sentados na calçada quase em frente à mercearia… não deve ter nada de mais! Não, definitivamente, esse não é o ‘estranho’ que o papai falou. Então vou responder!” E o diálogo assim prosseguiu:

_ Oi! Respondeu Biloca.

_ Vocês são muito lindas! Onde vocês estão indo?

_ Ali no mercadinho, comprar chiclete.

_ Ah, sim! Então na volta passem aqui de novo, tá bom?

_ Tá bom!

Ela saiu, seguiu seu caminho e comprou os chicletes. Na volta, passou pelo mesmo caminho, onde o homem as aguardava, agora já sem a esposa.

_ Vocês gostam de bichinhos?

_ Que tipo de bichinhos?

_ Aqueles feitos de bilocas e pintados como vaquinhas, cavalos e bonecos.

_ Ah, gosto sim! Eu amo esses bichinhos!

_ É mesmo? Eu tenho uma coleção. Eles estão ali na minha sala. Você quer ver?

A menina pensou por um instante, e fez que sim com a cabeça. Segurou na mão de sua irmãzinha e foi entrando na casa. Porém sua irmã não era como ela. Não conversava com todo mundo (nem da família) e muito menos com quem ela não conhecia. Fincou o pé no chão, fechou a cara e dali não arredou o pé.

Mas Biloca…. Biloca entrou na casa. O homem a acompanhou, mostrou sua coleção de bichinhos. Eram muito bonitinhos. Mas enquanto a menina estava ali ainda olhando cada peça de artesanato, o homem já estava abraçado ao seu quadril, um abraço forte e diferente de tudo o que ela conhecia. Ele olhou bem nos seus olhos e disse: “Você é muito bonita, sabia?” Nisso a mulher dele apareceu, sorriu e desapareceu pela casa de novo. Biloca nem teve tempo de pedir ajuda. Só sentiu um medo paralisante lhe subir pelo corpo. O homem ainda levantou sua pequena saia e a beijou. Beijou num lugar onde ninguém nunca a havia beijado. Mesmo com tão pouca idade ela sabia que aquilo não devia estar certo. Seu coração batia disparado e ela só ouvia uma forte voz em sua mente que dizia: “Saia correndo daí! Saia correndo daí!!!” Reunindo todas as forças, ela tentou disfarçar o medo e disse: “Tá bom, agora eu preciso ir, mas mais tarde eu volto!” Disse isso, agarrou a mão de sua irmã que estava esperando na calçada e disse: “Corre! Depois eu explico!!!” E correu, correu, correu. Até que finalmente chegou em casa e respirou aliviada. Biloca sabia que aquilo não era certo. Sabia que tinha que contar pra alguém.

Isso afetou seu modo de ver as pessoas e se relacionar com elas. Agora não brincava mais despreocupadamente pela vizinhança como antes. Ela tinha medo daquele homem entrar na sua casa e se vingar por ela ter contado tudo a seu pai. Agora preferia ficar em casa assistindo TV. Era mais seguro. Cada vez que saía na rua sozinha e um homem olhava ou sorria pra ela, seu coração disparava e ela paralisava de medo. Um amiguinho que segurou seu queixo, anos depois, um professor que apertou seu ombro, tudo isso era motivo de pânico e desconfiança. Mas graças a Deus, a menininha cresceu, superou esse terrível encontro, e até mesmo já perdoou esse homem. Por conviver com homens bons, descobriu que nem todos são maus.

Mas infelizmente, mês passado, duas outras menininhas desapareceram e foram encontradas mortas dentro de um carro abandonado, no dia 12 de outubro, Dia das Crianças. Uma delas também se chamava Beatriz, o verdadeiro nome da Biloca. O Lobo Mau que as atacou era muito mais feroz e elas não tiveram chance de gritar nem de sair correndo. E eu me arrepio enquanto escrevo, por pensar nas atrocidades a que elas foram submetidas, e por pensar que aquelas menininhas poderiam muito bem ser minha irmã e eu. Se aquele homem nos levasse para o fundo de sua casa, se trancasse a porta, se Deus não tivesse me livrado… eu não estaria aqui contando essa história pra você. Eu seria só mais uma notícia chocante, ou quem sabe, uma criança desaparecida, um caso sem solução.

E enquanto nós estamos aqui, no conforto de nossas casas, muitas pessoas más estão lá fora ou até dentro de outras casas, atacando outras criancinhas. Talvez haja um abusador bem próximo a você, de quem você nunca desconfie, pois acredite em mim, eles são ótimos no disfarce!

Vamos falar mais sobre isso. Deixar o constrangimento de lado e alertar nossas crianças e adolescentes. Ore pelos seus, ore pelos meus, ore pelos dos outros. “Orai sem cessar.” I Ts 5:17

“Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus”. Ef 5:15 e 16

 

Fotografia: Jamie Taylor on Unsplash

 

Escrito por

Mineira, 35 anos, casada há 9 anos com um lindo rapaz que conheceu aos 15, tem um filho de 4 anos que é um "colosso". Ela acredita que tudo isso é muito mais do que merece ou sonhou alcançar. É a graça enorme do nosso poderoso Deus. Atualmente serve ao Senhor na Missão Caiuá, no Mato Grosso do Sul, trabalhando com indígenas. Gosta muito de conversar, escrever e viajar.

21 comentários em “Um passeio na casa do Lobo Mau

  1. Texto muito lindo, bem escrito e triste em parte porque nos remete a esse assunto tão trágico e ao mesmo tempo tão pertinente.Trabalho em uma entidade que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e risco pessoal e antes fui Conselheira Tutelar. Conheci muitos lobos maus, alguns conseguimos “enjaular” mas, são como tiririca brotam o tempo todo em todo lugar . Devemos sim falar sobre o assunto e principalmente sermos muito atentos. Beijão.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigada,Soraya! Realmente, essa é uma realidade que a grande maioria das pessoas desconhece, né? Precisamos falar, alertar e agir. Todos os segmentos da sociedade precisam se envolver nesta causa. Um beijo!

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    1. Nada….nunca foi preso. Ele mora até hoje no mesmo lugar e minha mãe também ainda mora no mesmo lugar. Eu sei de uma vítima anterior a mim. Uma adolescente que ele estuprou e engravidou. Ela teve o filho e disse para o filho que o pai dele morreu.

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    1. É verdade… infelizmente tem sim. Muitos adultos que a gente não imagina por que agem da forma como agem. Muitos casamentos são afetados por isso, muitas pessoas não conseguem se relacionar normalmente. Só mesmo com a ajuda de Deus e muitas vezes auxílio de bons profissionais é que conseguimos nos libertar desses fantasmas.

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