Chora pra quem te entende . . .

No início desse ano Deus abriu uma porta maravilhosa de estudos para o meu esposo nos Estados Unidos, então nossa família literalmente “levantou acampamento” e se mudou para uma cidade chamada West Lafayette, em Indiana (próximo de onde ele nasceu). E assim embarcamos rumo a uma aventura incrível!

Se eu fosse contar todas as coisas que nos ocorreram durante esses últimos meses acho que daria para escrever um livro no estilo de As Crônicas de Nárnia! Vivenciamos desde um livramento em um assalto à mão armada no nosso primeiro dia em família aqui, onde levaram todos os meus documentos e alguns bens, até bênçãos inacreditáveis, como os três carros que ganhamos em pouco mais de um mês!

Mas o que vou compartilhar foi algo que aconteceu comigo no finalzinho de agosto… foi uma situação bastante interessante e que me fez refletir muito sobre rejeição.

Posso dizer que uma das adaptações mais difíceis para mim tem sido a falta dos amigos e da família. Alguns domingos atrás, eu e meu esposo estávamos na igreja, onde estamos tentando estabelecer novos vínculos de amizade; algumas pessoas estavam bastante entusiasmadas em nos apresentar a um casal de brasileiros que também mora aqui. Eu mal tive tempo de pensar e, quando dei por mim, uma americana bem animada me tomou pela mão e me levou até uma outra moça brasileira (muito bonita, por sinal). Eu sorri e falei um “oi” bem alegre e espontâneo, tão comum a quase todo brasileiro. Mas, para a minha surpresa a moça não foi nada simpática! Ela olhou para mim com uma cara de desprezo (não parecia ter ficado nem um pouco impressionada em me conhecer), deu um “oi” bem sem graça, virou para o outro lado e com uma voz super feliz e empolgada cumprimentou uma outra americana próxima de onde eu estava.

Confesso que fiquei sem ação! Fui pega completamente de surpresa pela forma fria (e até grosseira) com a qual aquela moça me tratou. Não sei exatamente explicar porque, mas a atitude dela me feriu profundamente. De repente me senti tão sozinha, rejeitada, me senti muito insegura por ser brasileira em um país estrangeiro, por não ser de classe alta, por minha pele ser morena, meu cabelo ser preto e meus olhos serem castanhos. Será que se eu fosse diferente, se eu fosse mais branca, mais rica ou mais “americana” ela teria me tratado com a mesma gentileza com a qual tratou a outra moça?

Certa vez ouvi de alguém a seguinte frase: “Chora pra quem te entende”. E foi exatamente isso o que eu fiz! Ao longo da semana, em meio a muitas lágrimas, busquei em Deus as respostas que eu tanto procurava. Já estava me sentindo muito só, devido à distância da família e ao contato cada vez mais esporádico dos amigos no Brasil, e aquela situação só agravou ainda mais esses sentimentos dentro de mim. Não conseguia parar de pensar que Jesus provavelmente poderia se identificar com o que eu estava passando. Confesso a vocês que em muitos aspectos tem sido uma transição difícil estar aqui, às vezes tenho sentido solidão, falta de amigos, mas Jesus também se sentiu assim.

Quando estava no jardim do Getsêmani, Ele sofreu uma agonia profunda em sua alma por saber que o tempo se aproximava em que teria que carregar, sozinho, todos os nossos pecados.  Naquele momento tão difícil, Ele pediu ajuda dos seus melhores amigos: os discípulos. “(Jesus) Levou Pedro, Tiago e João com Ele, e começou a sentir-Se cheio de angústia e tristeza. Então disse-lhes: “Minha alma está cheia de pavor e tristeza, a ponto de morrer… fiquem aqui… fiquem acordados comigo”. (Mt 26: 37,38)

Enquanto Jesus sofria e orava, enquanto seu suor se transformava em sangue devido à tamanha aflição, o que os seus melhores amigos estavam fazendo? Bem, para começar, um deles, Judas Iscariotes, estava a todo vapor dando prosseguimento ao plano de entregar Jesus para as autoridades, traindo seu amigo e Mestre. Os outros três citados, que supostamente deveriam estar orando com o Senhor estavam dormindo um sono profundo e não conseguiram ser apoio para Jesus naquela hora tão difícil, e os outros oito nem sequer são mencionados no texto bíblico, mas talvez estivessem conversando, rindo, descansando… completamente alheios ao que estava prestes a acontecer!

E é aí que eu aprendo a primeira lição com Jesus: Em meio a uma profunda solidão e angústia de alma, Jesus me ensina a confiar na vontade soberana do Pai: “mas que seja feita a tua vontade e não a minha“. E como resposta, Deus envia um anjo do céu para o fortalecer (Lc 22:43).

Quando Judas chega acompanhado dos oficiais a frase que Jesus dirige a ele é muito interessante: “Amigo, a que vieste?”(Mt 26:50).  Jesus sabia que Judas estava ali para o trair, mas ainda o via como amigo. Jesus ainda estava estendendo para ele uma oportunidade de arrependimento (quem sabe, chamando-o de amigo isso poderia mudar algo em seu coração ou em suas intenções). Mas nós sabemos bem o fim da história: os discípulos não puderam vigiar com Jesus nem por uma hora, Judas não mudou de ideia e entregou Jesus para ser morto, Pedro o negou três vezes e todos (TODOS!) os outros fugiram com medo e abandonaram a Jesus. E ele enfrentou a dor, a humilhação e o peso do pecado sozinho!

Mas aqui está a boa notícia minhas amigas, Jesus sofreu a pior solidão para que eu e você não precisemos passar por isso, para que possamos “chorar pra quem nos entende”, sabe? Eu sei que Jesus sabe como a gente se sente quando está só, ele sabe e entende o que é ser traído e abandonado por seus amigos.

Voltando para a minha história com a moça brasileira, depois de pensar e orar por alguns dias, decidi que iria seguir o exemplo de Jesus. Em meu coração decidi perdoar aquela moça que me tratou tão friamente, talvez ela nem tenha percebido que tenha agido dessa maneira. Também decidi que, mesmo que os meus amigos não supram as minhas expectativas, assim como os discípulos não supriram as de Jesus, eu ainda preciso decidir amá-los e ser a melhor amiga que eu puder ser para eles, exatamente como Jesus fez. Até porque, talvez, muitas vezes seja eu a amiga que decepciona alguém, que esquece de responder uma mensagem ou que pode não suprir as expectativas dos outros.

E você? Alguém na sua vida já te feriu? Te abandonou? Te rejeitou? Talvez alguém muito próximo, um melhor amigo ou parente? Se sim, então saiba que você não está sozinha! Entregue esses sentimentos para Jesus, ele sabe o que é ser rejeitado e te entende completamente.  Para ele não importa o seu passaporte, a sua condição financeira ou status social. Quando o mundo quiser te dizer que você não tem valor, lembre que Jesus te ama do jeitinho que você é! Ele ama a cor da sua pele e do seu cabelo, ele te criou e formou com todo amor pois ele tem um propósito muito especial feito sob medida só para você!

Fotografia: Asaf R on Unsplash

 

Escrito por

Seguidora de Jesus, Brasileira de Manaus-Amazonas, casada e feliz há 9 anos com um americano, homem de Deus (Aaron), mãe de três crianças lindas (Noah - 7 anos, e um casal de gêmeos de 4 anos - Julia e Benjamin). Compositora e cantora (amadora). Formada em odontologia há 10 anos, mas atualmente dedica-se em tempo integral à família e criação dos filhos. Não recusa um convite para uma boa prosa, ainda mais se tiver um cafezinho e banana frita! Mora com a família em Indiana, nos Estados Unidos.

2 comentários em “Chora pra quem te entende . . .

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