Ser ou não ser… eis a [grande] questão

Outro dia numa loja no Shopping estava olhando umas meias quando, de repente, o vendedor surgiu por detrás de uma estante. Era um rapaz de vinte e poucos anos, com o cabelo e a barba verdes, completamente verdes. Não me lembro de ter visto uma barba verde antes daquele dia.

Numa outra ocasião, eu estava num jogo de futebol em Recife. Lá pelas tantas, comecei a ouvir um burburinho na multidão. A razão era um casal que estava procurando lugar pra sentar, bem abraçadinho, com uma configuração diferente das usuais: a moça era uma loura bem alta, e a cabeça do seu par dava-lhe abaixo dos ombros. Ele era muito mais baixo que ela! Muito mesmo! E isso parece que “incomodou” os torcedores que ali estavam.

Um terceiro e último relato é de uma experiência que tive em Havana, terra dos irmãos Castro. Bem no centro da cidade, conheci um rapaz que trazia um sorriso sui generis! Ele tinha na boca nada menos que 21 dentes de ouro! Sua irmã ainda fez uma piadinha dizendo que só estava esperando ele morrer pra ficar rica.

Ante essas três situações, não pretendo lançar um olhar antropológico, nem sociológico e nem fazer um recorte sobre peculiaridades culturais. O que pretendo é buscar respostas às perguntas: qual é o limite de aceitação do diferente? Até onde podemos manter e expressar nossos gostos e preferências sem cair nas garras de sermos politicamente incorretos ou de sermos taxados de preconceituosos?

Não sei no resto do mundo, mas aqui no Brasil, especialmente na última década, vivemos pisando em ovos quando vamos nos manifestar publicamente. Dos termos e expressões que mais se ouve em todas as mídias, alguns têm se destacado: direitos humanos, liberdade de expressão, xenofobia, homofobia, heterofobia, ideologia de gênero, sistema de cotas, pluralidade, intolerância, preconceito, assédio, liberdade de imprensa, liberalismo, tradicionalismo, esquerda, direita, politicamente correto… e por
aí vai.

Nesse turbilhão de discursos, não é de se estranhar que surjam alguns questionamentos: quem somos nós em meio a tudo isso? Temos o direito de assumir para o mundo o que pensamos, em que cremos e do que não gostamos? Até onde podemos nos expressar com sinceridade? Devemos usar máscaras a fim de sermos aceitos pelas pessoas? Não temos direito de dizer o que pensamos? Devemos achar que tudo é normal e aceitável? Devemos concordar com tudo? Será que não há mais espaço para a exposição do pensamento individual? Devemos sempre nos moldar às crenças difundidas pelos veículos formadores de opinião? Temos de engolir falácias de todos os lados só porque elas estão aí? Em voga? Na boca do povo?

Espero, mui sinceramente, que ainda haja espaço para sermos nós mesmos. No momento em que não pudermos mais ser porque senão estaremos ofendendo alguém, ferindo a crença de alguém, sendo retrógrados, antiquados ou preconceituosos, não haverá mais sentido para ‘estar e ser’ neste mundo.

Desde o dia em que nasci – quiçá antes disso – fui sendo moldada por tudo que vivi. As experiências que vivenciei até hoje, unidas às minhas características inatas me fizeram quem sou. Tenho minhas crenças individuais – e aqui não falo apenas de religião, mas no sentido amplo da palavra – e meu gosto pessoal. Sei que vivo numa coletividade, em que devo – e procuro – me adaptar, seguir as regras, e considerar o outro.

Há regras e limites na minha casa, no meu prédio, no meu bairro, na minha cidade, no
meu país e outras que são universais. Mas a questão aqui não é apenas um amontoado de regras e sistemas a serem seguidos no âmbito social. Desde 1986, ano em que completei 23 anos, fui surpreendida pelas palavras de um Nazareno que, ao ser questionado publicamente, disse: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Logo depois, um amigo seu, exímio pescador, ao ser questionado pela cúpula religiosa de sua época, por causa da maneira corajosa como compartilhava sua fé com quem quisesse ouvir, disse algo que ressoou em meus ouvidos: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.”

Vivi 37 anos no século XX, e 17 no XXI. Sou casada há quase 30, tenho duas filhas nascidas por parto normal, tenho mestrado, já morei em seis cidades diferentes, já estive em 12 países, tenho dois livros publicados, nunca fui presa ou processada, já perdi meus pais e um irmão, já fui operada duas vezes, já fui atleta, fiz trabalho voluntário, morei na roça, moro numa metrópole, já comi coisas esquisitas, já quase morri duas vezes, já levei calote, sofri acidente de carro, sentei na neve, vendi perfume francês, cristais da Bohemia e baixelas de prata.

Não é possível que em algum momento desta vida eu não possa ser ‘eu’, simplesmente ‘eu’. E essa ‘eu’, nesta altura da minha vida, entende que não veio a este mundo apenas para fazer relações públicas, mas também para apresentar um caminho sobremodo excelente, cuja direção aponta para uma Cidade que não precisa nem do sol, nem da lua, para ter claridade, cidade cujas portas jamais se fecharão de dia, porque, nela, não haverá noite. E somente entrarão nessa cidade as pessoas que tiverem seus nomes inscritos no Livro da Vida do Cordeiro.

E, quer saber? Quero muito que seu nome esteja lá e que você e eu, finalmente, possamos desfrutar de um tempo em que vivamos em plenitude, sendo quem somos, sem receio de não sermos aceitos ou de estranharmos quem quer que seja. Naquela cidade, cada lágrima dos olhos de seus habitantes será enxugada, “e a morte não existirá, não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram…”

Fotografia: Raka Rachgo on Unsplash

Escrito por

Quase 30 anos de casada com um marido lindo! Duas filhas: Jessica (26) e Isabela (20). Candanga, fiquei em Brasília até os 12 anos. Daí fui pra Recife, onde fiquei quatro anos. De lá fui para Anápolis onde fiquei nove anos. Daí casei-me e fui pra Goiânia, onde passei quatro anos. Voltei para Anápolis e lá vivi mais nove anos. Agora já são 17 em São Paulo. Se fizer as contas, descobrirá que tenho 55 anos! Pode-se imaginar que meu sotaque é uma bagunça! 2017 foi meu Jubileu de Prata trabalhando em Missões Transculturais! 25 anos tentando fazer o que o Senhor me chamou pra fazer. Foram nove anos com Asas de Socorro e já são 17 com a APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Amo demais o que faço. Forever!

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