Sobre Introversão e Abnegação

Sempre fui uma pessoa introvertida. Em festas, provavelmente, não ficarei muito tempo na roda principal de conversa. Serei aquela pessoa sentada no sofá, vendo o aquário, na varanda, conversando com, no máximo, duas pessoas ao mesmo tempo. Ficar em qualquer ambiente muito cheio, faz com que a minha mente tente assimilar todas as informações e isso me leva a um desgaste enorme. Algumas pessoas se sentem renovadas em conversar com uma multidão, eu me sinto exaurida.

Acho que todo introvertido já teve o problema de ser confundido com tímido ou orgulhoso. Quando adolescente, fui em um acampamento da minha igreja e no último dia, um dos meninos disse em alto e bom som que eu deveria ganhar o prêmio de menina mais séria e antissocial. Lógico que ele falou brincando, porém o fez por causa do meu comportamento. Enquanto todos estavam jogando bola, pulando na piscina e fazendo brincadeiras de roda, eu preferia assistir.

Passei boa parte da minha vida sendo pressionada a ser uma pessoa extrovertida. Na verdade, sinto que o mundo prega que para obtermos sucesso, precisamos ser extrovertidos. Vivi inúmeras tentativas de ser uma pessoa muito extrovertida. Em algumas ocasiões conseguia atuar bem. Em outras era um total esgotamento.

Certo dia ao ler o livro “Doze Homens Comuns” de John MacArthur, me deparei com uma observação em relação a personalidade do discípulo André. Ele era diferente do seu irmão, Pedro. Enquanto seu irmão era falante e ficou bastante visível nas escrituras, André é o que menos aparece dentre os quatro principais discípulos. Enquanto Pedro pregava para multidões, André levava de forma individual as pessoas até Cristo. Tanto é que foi ele quem “apresentou” Cristo a seu irmão logo depois de tê-lo encontrado. A Bíblia não relata André querendo ser como seu irmão Pedro. A impressão que temos, era que André sabia que Deus o havia feito daquela forma, com aquela personalidade, para ser parte dos planos do Senhor.

É libertador saber que Deus nos faz de diferentes maneiras e com diferentes propósitos, e me apeguei a isso com todas as forças. Agora afinal, eu não precisava ser alguém extrovertida.

Porém, cometi um grande erro. Decidi que as pessoas teriam que respeitar o meu jeito de qualquer maneira. Caso não gostassem, seria problema delas. Não iria abrir mão em nenhum momento do meu jeito, e foi com esse pensamento que machuquei alguns amigos.

Nós seres humanos não conhecemos bem o que é abnegação. Dificilmente abrimos mão de algo que é nosso em favor de outra pessoa. E quando o fazemos, achamos que estamos sendo tolos, ou que estamos desistindo de nós. Alguns gestos, atitudes que eu não faço questão nenhuma, para outros são importantes.

Voltando ao acampamento, aquele menino que fez a brincadeira comigo, disse mais tarde que ficou chateado porque era ele quem estava organizando a recreação. Por não ter participado, eu dei a entender que não lhe dava a mínima importância. Algumas pessoas dirão que o problema é dele, que ele é quem deveria respeitar meu jeito. Mas não custava nada eu ter brincado um pouco e depois voltado para o meu lugar. Certamente ele ficaria feliz.

Jesus jamais deixou de ser quem era por ter abnegado da sua majestade para vir em forma humana como nós. Ele continuou sendo Deus. Mas, abriu mão de muitas coisas para que conhecêssemos o Pai. Certamente Ele não nos fez diferentes para que sejamos egoístas com nossas personalidades. Mas, para que possamos estar confortáveis nelas ao ponto de, às vezes, abrirmos mão do nosso jeito para abençoar o outro. Tenho amigos extremamente extrovertidos que em algumas ocasiões, escolheram ficar conversando individualmente comigo ao invés de estar com mais pessoas. Sei como eles ficariam muito mais felizes cercados por mais gente, mas escolheram abrir mão disso naquele momento porque sabem o quanto me fariam feliz.

Apesar de eu não considerar importante em ir em um encontro de amigas em um lugar cheio, elas consideram importante que eu vá. Apesar de achar importante que amigos me liguem para perguntar como estou, para eles é de extrema importância receber um telefonema meu. Apesar de não fazer questão de estar em uma roda de conversa, para alguns é essencial que eu participe pelo menos um pouquinho.

A pergunta que devemos fazer é: Na minha introversão ou extroversão do que posso abnegar pelo outro?

 

Fotografia: mvp on Unsplash

Escrito por

Há quase dez anos mora na cidade cinza de São Paulo. Busca cores nas paletas que o Criador deixou. Graduou-se em Biologia e fez Mestrado na área de Neurocomportamental. Ama leitura e concorda com C.S.Lewis: "A experiência é uma professora cruel, mas você aprende. Meu Deus! Como você aprende!"

2 comentários em “Sobre Introversão e Abnegação

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