O dia em que eu devia ter dado graças

Há sete anos, quando me preparava para mudar para o Nepal, ganhei um computador e precisava instalar o software de edição de texto (tipo Office). Após anos baixando e usando material pirata, eu tinha acabado de tomar a decisão de “dar um jeito no jeitinho” e ser honesta em todas as minhas ações, inclusive no uso de softwares. Então, juntei todas as minhas moedas e comprei os CDs originais dos programas. Porém, não tive tempo de fazer a instalação antes da partida e deixei para fazê-lo quando chegasse lá.

Todavia, qual não foi a minha surpresa ao tentar instalar o programa em meu computador em solo nepalês e um aviso apareceu na tela dizendo que eu não poderia fazê-lo por estar fora do território brasileiro e o produto para “distribuição e uso somente no Brasil”. O quê?! Um notebook que não pode sair do país? No mundo atual onde globalização e mobilidade são as premissas básicas tanto do profissionalismo quanto da vida pessoal?!

Peguei o telefone irritadíssima e liguei para a companhia, apenas para ouvir a mesma justificativa do aviso na tela. Tentei argumentar de todas as formas, mas não ouvi nada além de “você deve retornar ao seu país para concluir a instalação”… hahaha… sim, claro, porque o Nepal é logo ali do outro lado da esquina!

Irada até o limite gritei para a atendente “É isso que dá ser honesta! Vou voltar a usar o pirata e isso é culpa de vocês! Vocês reclamam do crescimento da pirataria mas estão me forçando a isso! Paguei uma fortuna pelo seu produto e não vou ficar sem ele!” Bam! Desliguei o telefone na cara dela! Humpf..

Depois de gritar ao telefone, joguei os CDs no fundo de um baú e deixei lá. Dois anos depois que eu estava no Nepal, meus pais foram me visitar e eu entreguei os CDs para eles, caso precisassem, poderiam usar. Porém, ao retornar ao Brasil, meu pai tentou usá-los e também não foi bem sucedido, e por fim deu a eles o mesmo destino de antes – o fundo de alguma caixa.

Enfim… Sete anos depois disso cá estou eu de volta ao Brasil. Dessa vez eu e meu esposo estamos contando as moedas para comprar um novo notebook porque aquele guerreiro, que foi ao Nepal comigo, precisa se aposentar. Mas as moedas são suficientes apenas para a máquina. Não dá pra adquirir o software. E agora?

Diferente de quando fui para lá, o retorno ao Brasil não foi sonhado, desejado, ou muito menos planejado. Por ordem do governo local tivemos que sair do país às pressas com a promessa de permissão para retornar em dois meses, e depois de 18 meses ainda estamos esperando. Esse foi um período de vacas magras, tanto emocionalmente quanto financeiramente, e por vezes deixamos que o fosse também espiritualmente.

Deus tem permanecido fiel e generoso, provendo tudo o que precisamos a cada minuto mas, nem sempre estamos cientes disso. Entretanto, Ele continua nos surpreendendo com caminhos inimagináveis e um senso de humor que só Ele tem.

Semana passada nosso computador novo chegou, e com ele o dilema ético da pirataria. Enquanto pensávamos em como resolver a situação, meu pai, que mora à 2500km daqui, ligou avisando que chegaria no dia seguinte com os CDs! hahaha… claro, os benditos CDs… incrédula, arrisquei colocá-los na nova máquina… 7 anos depois, e… bam! Instalou suavemente, sem avisos, sem ligações e sem complicações.

É notável a quantidade de versos bíblicos que sabemos de cor sobre a fidelidade e provisão divinas. E muito mais notável ainda o quanto desconhecemos na prática a verdade imutável que cada um deles representa.

Quando Ele diz que tudo coopera para o bem daqueles que o amam, Ele realmente quis dizer TUDO. Quando Ele ordena “em tudo dai graças”, Ele realmente quis dizer em TUDO. Quando Ele diz que há de suprir, em glória, todas as nossas necessidades, Ele realmente quis dizer TODAS.

Com muita antecedência Ele estava provendo para hoje, e eu não sabia.

A provisão de Deus é constante e atemporal. Sim, isso parece contraditório, mas como Senhor do tempo que Ele é, Suas ações hoje têm efeitos na história presente, passada e futura ao mesmo tempo. Sei que parece que estou entrando na esfera da ficção científica,  mas a verdade é que, como seres limitados temporalmente que somos, não enxergamos a história além do nosso nariz e, por vezes, temos reações terríveis diante da provisão divina apenas porque não sabemos onde Ele nos levará daqui a 7 anos ou o que já aconteceu 7 anos atrás.

Se de fato eu entendesse e acreditasse nos versos que memorizei, minha atitude naquele dia teria sido bem menos grosseira, dramática e iracunda. Eu teria confiado que aquele episódio era, sim, a provisão de Deus e teria dado graças.

Quais situações você viveu durante esse ano e que achou que definitivamente não eram motivos para dar graças? Ainda dá tempo de agradecer.

Fotografia: Neven Krcmarek on Unsplash

 

Escrito por

Cidadã do mundo, ela nunca conseguiu responder à pergunta "de onde você é?". Nascida em Minas Gerais, cresceu no Pará, se formou em São Paulo, exerceu a Terapia Ocupacional em Goiás até ir para o Nepal onde esteve nos últimos 6 anos, e onde conheceu seu marido. Se casou na Índia e está de volta ao Brasil por tempo indeterminado. Para ela o dia perfeito começa com cheiro de café coando, pão com manteiga na chapa chiando, minutos preciosos lendo e conversando com o Pai, e a risada de sua filha de 2 anos anunciando que o agito já vai começar.

3 comentários em “O dia em que eu devia ter dado graças

  1. Uau! Você se desnudou mesmo nesse texto heim moça? Incrível como me vi naquela sua ligação telefônica, agindo do mesmo jeito. Ah essa nossa carnalidade que teima em nós controlar…

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