Perfume da Vida

O óleo e o perfume alegram o coração; assim é o doce conselho do homem para o seu amigo. Provérbios 27:9

Esse versículo era um dos meus preferidos durante a adolescência e eu sempre o escrevia nos antigos relicários das minhas amigas da igreja. Sabe aquelas coisas da antiguidade? Cadernos de folhas decoradas, às vezes perfumadas, em que as amigas escreviam mensagens umas para as outras.

Hoje, adulta, do alto dos meus 35 anos, completados no começo desse mês, não me vejo uma amiga tão dedicada. Na adolescência seus amigos viram família e, com toda a enxurrada hormonal, a gente quase os venera (risos). Na vida adulta a gente tem que dosar muito o tempo, se dividir entre todos os nossos papéis, trabalho e tantas coisas. Sem falar nos “calos” inevitáveis que acabam nos machucando seja por uma coisa ou outra. Mesmo assim, ainda tenho amizades de várias épocas da vida, amigas de verdade, íntimas e companheiras. E ao pensar no tema “Gratidão”, me lembrei de uma delas.

O ano de 2017 trouxe surpresas pra mim. Algumas situações internas, que pensei ter resolvido, vieram à tona pra mais um round de resoluções e golpes. Encontrei-me em conflitos profundos e entrando em desespero. Pedi então a Deus que me guiasse a encontrar alguém que fosse usado por Ele para me ajudar, e foi aí que a minha amiga apareceu. Alguém que não está próxima fisicamente, mas mora no meu coração. Amiga de infância e adolescência na igreja, nossas mães também eram amigas e hoje nós somos “mais que isso, somos friends” (hehehe).

Pedi ajuda. Dentro da caverna escura em que estava, pedi que me emprestasse uma lanterna. Minha amiga embarcou com tudo nessa aventura e começamos uma jornada difícil pra dentro de uma tempestade de lembranças, dores, descobertas e de deixar costumes antigos para encontrar novos caminhos e recursos, tentando vislumbrar o novo. Eu mergulhei com tudo, afinal, se pra sair de um lugar ruim preciso me mexer, então “bora se mexer”. E assim, nos demos as mãos, os comprometemos a nos encontrar via Skype e fazer desses encontros algo real e prioritário. Fizemos isso por alguns meses.

Amizade é chorar junto e encorajar um ao outro.

Na vida, momentos difíceis são inevitáveis. Doenças, dores, morte… tudo isso faz parte de se estar no mundo. Podemos, porém, em meio a toda dor, ainda encontrar motivos de gratidão. Às vezes não no exato momento mas, no decorrer da caminhada é possível olhar para o que nos causou dor e procurar ver alguma coisa que carregue lições boas, aprendizados e até alegrias. Uma das formas de conseguir encontrar isso é uma mudança de ponto de vista, o que muitas vezes, vem de alguém que não é você. Vem do outro que consegue enxergar o que não estou vendo. E também vem de escolher ouvir algo além dos meus próprios pensamentos e vozes internas.

Amigos são presentes de Deus, são pedras preciosas que colorem nosso caminho com suas cores e valor.

Esse ano, quando não conseguia olhar para frente, alguém veio e levantou meu queixo. Nos momentos em que não pude dar um passo, alguém segurou minha mão, se comprometeu a andar junto e a caminhada se tornou mais leve. Não tinha como pensar no minuto seguinte mas, juntas, traçamos metas e sonhos. E quando perdi minha voz, alguém intercedeu por mim.

Olhar para fora de si mesmos pode ser uma resposta à solidão, porque existem pessoas dispostas a caminhar junto conosco, apesar de nem sempre ser fácil enxergá-las. No meu caso, eu pedi que Deus me ajudasse a ver, pedi que Ele me guiasse até alguém ou situação, a alguma coisa. Quando percebi a resposta do Pai ao meu pedido, me comprometi em fazer minha parte e a nossa jornada começou.

Recentemente ouvi de outra amiga que “a vida adulta é assim, a gente vive pela gente mesmo e não pode depender de ninguém, precisamos tomar nossas próprias decisões e caminhar sozinhas”. Tomei a licença de discordar de uma parte desse discurso. Sim, quando adultos nossas decisões são nossas e colhemos as consequências de cada uma delas. No entanto, não preciso sofrer e nem caminhar em trilhas difíceis sozinha. Ao redor de nós existem oportunidades colocadas por Deus que podem deixar o fardo mais leve.

No caminho a ser percorrido encontro pessoas sendo Jesus pra mim e demonstrando amor e graça. Segurando a minha mão, erguendo meus olhos e, de alguma maneira, perfumando o meu coração.

E por falar em perfume, posso dizer que em minha oração de final de ano, consigo perceber notas fortes e doces de gratidão, algumas flores de vitórias e a marcante presença do companheirismo. As lutas vêm e somos tentados a pensar que estamos totalmente esquecidos e sozinhos porque, quando olhamos na escuridão da caverna, não vemos nada além do breu. Tem horas que fechar os olhos e ficar dentro de nós mesmos parece a solução mais adequada, mas talvez, se esticarmos a mão, se abrirmos os olhos na penumbra, poderemos encontrar companheiros que estão enfrentando a sua própria versão da caverna e que podem e querem segurar sua mão e andar na velocidade que se conseguir – pode ser um pulo pra fora, uma corrida ou até se arrastando – mas, juntos.

Como fã assumida do Estevão Queiroga, termino com essa linda poesia sobre viver em comunhão.

Nós

Só já fiquei só
Só percebi que eu quero estar aqui
Com gente que não
Tem sangue meu, mas que é irmão pra mim

Só quem vive só
Só tem noção do que é viver pra si
Nós é bem melhor
Eu e você e quem tiver afim
Com sentimento e verdade pra gente trocar

Passou das 10 e eu nem notei
Ta vendo como é bom estar em comunhão
Tudo é de Deus
Se é meu é seu
E é mesmo como é bom estar em comunhão

Nós, desfez os nós
Que um dia eu fiz para me proteger
E quero pedir cuida de mim
Que eu cuido de você

Nós, aperta os nós
Pra nunca mais a gente se perder
Sei vamos brigar, mas vou ficar pra gente se entender
E dividir uma vida pra rir e chorar

Passou das 10 e eu nem notei
Ta vendo como é bom estar em comunhão
Tudo é de Deus
Se é meu é seu
E é mesmo como é bom estar em comunhão

 

Fotografia: Andrea Tummons on Unsplash

Escrito por

Esposa, filha e nora de pastor. Casada, tem três filhos. Cresceu na igreja presbiteriana e hoje serve com o marido na quadrangular. É professora de inglês e metida a artista. Canta, desenha, pinta e faz artesanato. Ama o evangelho do Reino e da vida real e prefere ver a vida assim... verdadeira, sem muita maquiagem, porém com muita esperança e graça, sempre! Gosta de escrever sobre o cotidiano e como Deus é presente ali. Acredita que está ajudando na missão de transformar o mundo através da criação dos filhos. E segue em construção e desconstrução constante.

4 comentários em “Perfume da Vida

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