O Discípulo Radical e a Simplicidade

Eu poderia apresentar uma longa relação de bons livros cristãos que li ao longo da vida. No momento estou lendo “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, do consagrado C. S. Lewis, o autor que se tornou popular com a obra “As Crônicas de Nárnia”. Desde “O Peso da Glória” até “Porque não sou pacifista”, em que Lewis discorre sobre a guerra – seria a guerra sempre um mal? – eu poderia falar bastante sobre como os escritos lúcidos e de fácil compreensão de Lewis tem impactado minha vida e minha forma de pensar, especialmente nos dias de hoje.

Entretanto, apesar da propaganda inicial a respeito de Lewis, nenhum livro provocou uma mudança tão profunda em mim como “O Discípulo Radical” de John Stott, editado no Brasil pela Ultimato.

A sinopse do livro, por si só, já é interessante: “Existem diferentes níveis de comprometimento na comunidade cristã. O próprio Jesus ilustra isso ao explicar o que aconteceu com as sementes na Parábola do Semeador (Mt 13.3-23). A diferença está no tipo de solo que as recebeu. A semente semeada em solo rochoso ‘não tinha raiz’”. Evitamos o discipulado radical sendo seletivos: escolhemos as áreas nas quais o compromisso nos convém e ficamos distantes daquelas nas quais nosso envolvimento nos custará muito. No entanto, como discípulos não temos esse direito.”

Em 2013, o ministério jovem de minha igreja escolheu “O Discípulo Radical” como material de base para os encontros semanais que aconteciam às quartas-feiras. O livro se aprofunda na apresentação de bases bíblicas para ressaltar oito características do discipulado cristão que, frequentemente são deixadas de lado mas, que são fundamentais para a vida cristã: inconformismo, semelhança com Cristo, maturidade, cuidado com a criação, simplicidade, equilíbrio, dependência e morte.

Cinco anos depois, ainda sou profundamente tocada pelas palavras de Stott acerca da simplicidade. De todos os aspectos que se referem a uma vida simples, o consumo é o que mais mexeu comigo na ocasião e continua mexendo. Sempre fui uma pessoa ligada em moda e com o crescimento da indústria plus size, estava constantemente antenada nas tendências oferecidas tão lindamente nas vitrines. Também sou maquiadora e mantenho uma página no Facebook para falar do assunto. Ora, as marcas de cosmético e maquiagem não param de lançar produtos e mais produtos.  E eu queria tudo: as roupas, os sapatos, as bolsas, as maquiagens, os cosméticos.

Jamais tinha pensado no dinheiro desembolsado – esse não era um problema porque eu manejava bem o salário, as contas e as parcelas do crediário! ufa! – tão pouco no impacto nos testes em animais (muitas marcas de cosméticos adotam essa prática), no armazenamento (quem tem espaço pra guardar tanta coisa? eu não tinha!), na quantidade de lixo das embalagens (ok, algumas são recicláveis – mas nem todas!), no desperdício (ora, se você tem dois pés, usa salto alto apenas quatro dias na semana, para que precisa de oito scarpin pretos? Os números não são reais, é apenas uma forma de ilustrar a problemática). E a quantidade de produtos que perde a validade? E as peças repetidas? E as roupas que nem foram tiradas da sacola? E as que não servem mais e estão encostadas no armário?

Em resumo, as questões levantadas por Stott me levaram a questionar o estilo de vida que eu mantinha: eu precisava mesmo de tudo aquilo que tinha e de continuar comprando naquela velocidade?

Minha proposta aqui não é fazer uma resenha do livro;  já sinalizei que ele é ótimo e vale a leitura calma e atenta. Além disso, não sou das Letras e, portanto, não sou qualificada para analisar o texto sob aspectos técnicos. Mas posso afirmar categoricamente que eu mudei a forma de consumir as coisas tendo em mente a simplicidade, que é importante para a vida cristã. Uma vida de consumismo nos distrai do que realmente é essencial e, ao final das contas, nós é que somos consumidos no anseio de consumir. Em busca de um estilo de vida sofisticado, acabamos tragados por uma vida dispendiosa, trabalhosa e superficial.

A mudança de vida tem sido gradual. Comecei com uma boa revisão do armário e me desapeguei das roupas que já não serviam ou não eram mais adequadas. Fiz o mesmo com sapatos e acessórios (cinto, bijuterias, calçados). Também adotei uma nova forma de comprar: para uma roupa nova entrar no armário, uma peça equivalente deveria sair. Isso funcionou bem pois cheguei num ponto em que eu somente tinha peças que eu gostava, me serviam bem, e não queria me desfazer delas. Ora, se não tem peça pra sair, não compraria uma peça nova.

Com o passar do tempo, aquela vontade de comprar coisas novas foi diminuindo e os critérios para as compras novas foram aumentando. Hoje, não me basta somente ter uma roupa para doar; a peça nova precisa estar com um preço muito, mas muito bom.  O caimento tem que ser quase perfeito (quem quer comprar uma peça em promoção e pagar horrores para ajustar na costureira?).

Curioso que hoje, casada, mãe de família, esses hábitos tem-se estendido para as compras da casa. Quando as coisas quebram, se for viável, damos preferência ao conserto ao invés de comprar tudo novo. Dias atrás, nossa mala de viagem, de material rígido, estava quebrada e precisaríamos da mala para as férias. Pensamos em comprar uma nova pois a nossa já era “rodada”. No fim, pesquisamos e achamos uma oficina que fazia o tal reparo. A mala está nova e não foi pro lixo.

O lixo, aliás, foi outra das preocupações que passei a ter. A quantidade de lixo que produzimos é imensa e nossos sistemas de coleta já estão saturados. Pensando nisso, reciclamos o máximo de lixo que podemos. Quando não tenho certeza se um determinado material vai ser descartado adequadamente, levo ele pra casa e dou o destino correto.  Restos de obra (entulho), lixo orgânico, embalagens. Cada categoria tem um destino correto e nós, aqui em casa, praticamos isso.

Apesar de estar sendo uma mudança gradual, levar uma vida mais simples trouxe mais leveza e praticidade à nossa rotina, fazendo com que, por outro lado, coloquemos esforço e atenção às questões realmente importantes ao nosso redor. O chamado de Stott – NÃO! – o chamado do Evangelho para a simplicidade, ao final das contas, é mais uma forma dEle nos abençoar e sermos felizes e não uma restrição pesada imposta por Deus sobre aqueles que O servem.

Escrito por

Brasileira por nascimento e espanhola no passaporte, casada com o Marco Antonio, cristã desde os sete anos de idade. Já trabalhou como enfermeira, manicure, maquiadora, contabilista, auditora e modelo plus size (oooooh!). Viajante frequente, após doze anos como executiva de Auditoria, descobriu que precisava de uma pausa para repensar a vida e redefinir as prioridades. Gosta muito de redes sociais, é apaixonada por tudo que faz e super curtiu quando o Facebook lançou as reações, principalmente o "amei".

5 comentários em “O Discípulo Radical e a Simplicidade

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