Um lugar à mesa

A casa dos meus pais era um lugar de convergência. Filha de pastor, cresci vendo muita gente passando por lá. Sempre tinha a mocidade da igreja e tudo era festa, tudo era motivo pra ir no pr. Manel e tia Lena. Inclusive um dos cultos da igreja começou lá. Eu tinha uns 11 ou 12 anos. Toda segunda-feira à noite, pessoas de toda parte da cidade vinham participar da reunião. Muitas delas encontraram Jesus ali, na minha casa. Ficou tão lotado que precisaram mudar para o prédio da igreja porque não cabia mais ninguém. As portas da casa quase nunca estavam fechadas. Gente de toda parte sabia que aquele era um lugar em que podiam ir entre compromissos, pra comer, pra ter boas conversas e até chorar.

Nem sempre, eu, a filha, achei toda essa festa legal! Em alguns momentos queria privacidade e ficava frustrada porque sempre tinham outras pessoas com minha família. Meus pais eram pais de muitos outros da família da fé. Algumas vezes, principalmente na adolescência, me perguntei porque não podíamos ter nossa casa pra gente, só pra gente. Me lembro de às vezes ir pro quarto, me esconder, durante programações ou mesmo um lanche da tarde que, de repente, aconteceu. Não entendia a vida como meus pais entendiam. Geralmente eu curtia e estava junto com o pessoal, e eventualmente eu só queria ficar “na minha”.

Muitos filhos de pastores e missionários, os PKs (pastor kids) ou MKs (missionary kids), precisam de um esforcinho pra encontrar um equilíbrio. Crescemos às vistas da igreja, convivendo com as nossas necessidades e de outros que compõe o corpo ao qual estamos conectados. Tem horas que simplesmente não entendemos como o coração dos nossos pais pode ser grande. Em contrapartida, também víamos nossos pais sofrendo por amar tanto tanta gente. Mas a alegria com os que estavam alegres também era constante.

Da perspectiva da criança/adolescente pode existir uma luta interna sobre dividir os pais, a família, a casa, a vida toda. Não me entenda mal, é legal conhecer gente e tudo virar festa o tempo todo, mas o filho do pastor não é um mini pastor e isso pode pode ser conflitante.

O outro lado da moeda é a constante luta entre, quero ter uma “vida normal” mas meus pais escolheram servir a Deus e por isso não posso achar ruim que as coisas sejam assim. É meio injusto que se espere que esses filhos sejam totalmente compreensivos o tempo todo, mas geralmente é a expectativa de muitos. Como se essa pessoa não pudesse ser como todo mundo, ele é filho do pastor, né? A cobrança, muitas vezes inconscientemente,  vem da igreja, dos pais ou de nós mesmos. A gente deveria saber, estar comportado, não era para “dar problemas”, afinal de contas… o pastor é o pastor.

O coração do pastor é escancarado e, em alguns casos, sua casa é um reflexo disso.

Nem todos conseguem amar de volta com graça e misericórdia! O exemplo de Jesus é a baliza, certo? Se formos pensar na mesa da última ceia, vemos Jesus ao redor de um monte de homens imperfeitos, vivendo seus próprios conflitos, olhando aquela cena a partir de sua própria lente. Ali Jesus estava inteiro, abrindo tudo o que tinha e o que era pra gente de contextos e histórias divergentes, gente imperfeita. Mesmo Judas, que iria trair a todos, principalmente a Cristo, foi amado!

O amor que Jesus sentia por eles não os anulou, mas foi apesar deles mesmos.

Esse amor escancarado não isentou Jesus de se sentir só no final de sua missão, nem os discípulos de abandoná-lo e, no caso de Pedro, falar coisas ofensivas sobre o seu mestre amado.

Nesse paralelo entre Jesus e os pastores, penso nas pessoas que passaram pela nossa mesa. Algumas pessoas de coração inteiro, amando e recebendo amor. Outras, apenas curiosas pra saber o que era que levava tanta gente ali. E umas tantas puramente pra falar mal.

No olhar do filho, essa entrega pode ser, no mínimo, curioso.  Vemos que o pastor sofre e é desprezado também. Como os leitores da Bíblia muitas vezes ficam intrigados pelo amor desprendido de Jesus, assim, nós, os espectadores da primeira fila, ficamos ao assistir a vida de nossos pais. A decisão de viver totalmente para o Reino de Deus envolve a família, mas nem sempre a família está envolvida na missão. Cada um vive o processo de se descobrir e se encontrar na dinâmica familiar e depois no mundo. A vida dos PKs não é diferente, a descoberta de si mesmo, do relacionamento com Deus e com o mundo vai acontecendo, e isso, nem sempre, é respeitado. Dentro do contexto da vida das igrejas rola até umas piadinhas, né? “Filho de pastor é revoltado” ou “tinha que ser o filho do pastor”, como se esse ser em desenvolvimento fosse uma extensão do pai, de quem também é esperada (injustamente) a perfeição.

Alguns desses filhos nunca conseguem voltar à mesa, ficam com marcas profundas. Não receberam graça quando mais necessitavam. Eles se cansaram de sempre ter que entender, ceder, receber. Nem todos conseguiram lidar com  a entrega de seus pais, que às vezes vinha sem recompensas ou reciprocidade. Mesmo quando os mesmos não se importam e o fazem com o mesmo amor até o fim da vida.

Os PKs são eles mesmos e não os seus pais.

Eu me casei com um pastor, meus filhos são filhos de pastor. Assim como foi com meus pais, minha vida é compartilhada com o corpo ao qual pertenço. Confesso que ainda tenho umas travas, e dia a dia faço as pazes com algumas coisinhas da minha infância/adolescência. Vejo que meus pais deram seu melhor na missão de cuidar de seus filhos de sangue e também de pastorear os que foram enxertados em nossa família ao longo da jornada. Não é fácil, porque gente é gente. Eu luto as minhas lutas e caminho junto com pessoas que lutam as delas e juntos caminhamos lutando, não sozinhos mas “suportando-nos uns aos outros em amor”. Não sou igual meus pais, mas tenho muito deles em mim, inclusive o amor à causa do Reino e a vontade de servir. Como meus filhos vão lidar com tudo isso, quais as marcas (boas e ruins) que vão ficar neles, eu não sei, mas assim como meus companheiros pastores que tem filhos, seguimos entregando tudo o que somos, abrindo a casa, chamando à mesa e sendo sinceros na entrega. A nossa (minha e do meu marido) esperança é que eles se encontrem com Jesus e que Ele seja o seu maior parceiro na jornada que eles mesmos vão traçar. Assim como outros pais e mães, damos a vida por eles e torcemos, com fé, pelo melhor que está guardado no Pai.

Aos meus companheiros PKs um abraço apertado cheio de amor. Aos meus pais a gratidão por ter me mostrado uma vida em prol do Reino. Aos que também se entregaram ao ministério oro por força, pela coragem de ainda abrir a casa e convidar à mesa, mesmo com o mundo do jeito que está, e por sabedoria e graça pra cuidar dos filhos, entendê-los e respeitar suas jornadas.

 

Fotografia: Christiann Koepke on Unsplash

 

Escrito por

Esposa, filha e nora de pastor. Casada, tem três filhos. Cresceu na igreja presbiteriana e hoje serve com o marido na quadrangular. É professora de inglês e metida a artista. Canta, desenha, pinta e faz artesanato. Ama o evangelho do Reino e da vida real e prefere ver a vida assim... verdadeira, sem muita maquiagem, porém com muita esperança e graça, sempre! Gosta de escrever sobre o cotidiano e como Deus é presente ali. Acredita que está ajudando na missão de transformar o mundo através da criação dos filhos. E segue em construção e desconstrução constante.

10 comentários em “Um lugar à mesa

  1. Sempre me emociono com seus textos, são sempre muito verdadeiros e transparentes. Deus te abençoe e continue te inspirando. Meu coração e minha casa continuam abertos mesmo com marcas profundas da escolha de assim fazê-lo.

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  2. Vocês, foram a primeira família que me acolheram, assim que o Senhor me chamou….lembro de tudo isso que relatasse….enquanto lia, me passava.um filme na cabeça…..como foi bom,mas pra você,talvez,nem tanto…..de fato, acredito que ninguém parou para pensar nesses detalhes…..a mim, cabe pedir-lhe perdão, mas também, muito obrigado por tudo que aprendi com sua amada e linda família.
    Pra mim, foi super importante…..Deus te abençoe, Mical.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Marcelo, não precisa pedir perdão! Tudo sempre foi de coração. Cada um tem uma perspectiva, isso não fala sobre o certo e o errado mas sobre nós mesmos e a fase da vida em que estamos. Não penso que a maneira que cresci foi errada, apenas quis trazer um outro ponto de vista. Amo você e sua família tb. Moram no meu coração pra sempre.

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