Menos é mais

Cresci em uma cidade que não tinha meninos de rua. Não, não era uma cidade rica dessas que a gente vê em revista, em algum país distante. Era aqui mesmo no Brasil, com casas de madeira, sem eletricidade ou água encanada, em ruas sem asfalto, no estado do Pará.

Hoje já não é mais assim. A cidade cresceu, as casas melhoraram, o asfalto chegou e ninguém tem mais “condições” de ajudar os necessitados – não há tempo, espaço, dinheiro, saúde, recursos.

Naquela época era muito comum ouvir algo do tipo “-Tenho 5 meus e 3 de criação” em resposta à pergunta sobre a quantidade de filhos. As crianças iam sendo agregadas à medida que a necessidade surgia e os laços sanguíneos não tinham muita importância. As famílias eram simples, mas o alimento não era algo difícil de encontrar, isso porque o alimento também era simples. De manhã cedo os meninos saíam em suas canoas para pescar a “mistura” do dia. Cada um produzia sua própria mandioca no fundo de casa e os vizinhos compartilhavam os produtos de suas hortas. As ruas – ah as ruas! – eram abarrotadas de árvores frutíferas (manga, goiaba, caju, jambo, jamelão, abiu, açaí…).

Mas o desenvolvimento chegou, e o asfalto tomou o lugar das árvores, ou elas foram substituídas por outras apenas decorativas, afinal, as frutas faziam muita sujeira no chão. Com o desenvolvimento também chegou o desejo de possuir mais bens, utensílios, roupas, acessórios e para isso é preciso reduzir o número de beneficiários – “é melhor dar tudo para um do que um pouquinho para muitos”. O conceito de individualidade e privacidade também tomou o espaço da casa e agora já não cabem tantas pessoas em um mesmo cômodo. Enfim, aquele lugar já não é mais o mesmo, e hoje vemos crianças dormindo debaixo dos toldos das lojas no centro da cidade.

Umas das coisas que sempre me fez orgulhosa de ser brasileira é o caráter receptivo da nossa cultura. Somos reconhecidos mundialmente por sermos amigos de todos e pelo Brasil ser um lugar onde todos são bem-vindos. Também pudera,  todos aqui são de fora. Quantos podem afirmar com certeza que são genuinamente negros, ou brancos, ou índios, ou amarelos em nosso país? Aprendemos isso com os portugueses, que desde a Europa já se miscigenavam com os “mouros” e continuaram a mistura aqui com índios e negros. Mas, aprendemos muito mais com os brasileiros originais, os índios, que com poucas exceções eram alegres, passivos e receptivos (veja o exemplo da cidade paraense).

Somos todos estrangeiros aqui. Vivemos em uma terra emprestada, e somos vizinhos de gente que empresta da terra.

Não sei como começou mas estamos esquecendo dessa verdade e deixando de ser o Brasil que tanto amo. Talvez emprestando idéias de povos menos acolhedores, ou aprendendo amar demais o que acumulamos, a cada dia mais assistimos ao aumento dos discursos separatistas, raciais, hostis, ou pior: indiferentes.

Porque então é tão difícil manter nossas portas abertas para outros que precisam de abrigo, de comida, de um lugar para chamar de lar? Porque é tão importante separar o que é preto, ou branco, ou azul ou rosa? Porque insistir em olhar para baixo quando existe um horizonte tão vasto logo ali? Você conhece o haitiano que mora ao lado da sua casa? E o muçulmano no quarteirão de trás?

Hoje quando comemoramos a Páscoa, esquecemos que ela é e sempre foi a celebração de estrangeiros indo pra casa. Primeiro os judeus no Egito, e agora a igreja na terra, aguardando o retorno do Rei ressurreto. Nada do que possuímos é nosso, nem nada do que temos levaremos daqui.

Não é à toa que desde Moisés, passando pelos Salmos e profetas, até os evangelhos, Deus repete incansavelmente: “Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão, nem tomarás como penhor a roupa da viúva”. É ordem, é mandamento é expectativa do Senhor que sejamos hospitaleiros, receptivos e acolhedores.

“Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; Que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa”. Deuteronômio 10:17-18.

A minha teoria é que “menos é mais”. Quando éramos pobres, terceiro mundo, tínhamos muito mais “condições” de receber e compartilhar com os necessitados. Agora que o país alcançou certo desenvolvimento e começou a circular entre poderosos e abastados, não temos mais o que dividir. A riqueza do nosso país nos deixou pobres. Éramos mais ricos quando não tínhamos nada, pois ainda sobrava para dividir.

O dono do universo entregou seu único filho para morrer por nós. O filho do dono do universo veio à terra para morrer por nós e nos tornar seus irmãos! Ele encheu sua casa de gente que não era pra estar lá. E vai passar a eternidade dividindo sua herança com esses irmãos estrangeiros, adotados. Acho que podemos fazer o mesmo aqui na terra, você não acha?

 

Fotografia: Clem Onojeghuo on Unsplash

 

Escrito por

Cidadã do mundo, ela nunca conseguiu responder à pergunta "de onde você é?". Nascida em Minas Gerais, cresceu no Pará, se formou em São Paulo, exerceu a Terapia Ocupacional em Goiás até ir para o Nepal onde esteve nos últimos 6 anos, e onde conheceu seu marido. Se casou na Índia e está de volta ao Brasil por tempo indeterminado. Para ela o dia perfeito começa com cheiro de café coando, pão com manteiga na chapa chiando, minutos preciosos lendo e conversando com o Pai, e a risada de sua filha de 2 anos anunciando que o agito já vai começar.

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