É melhor dar o dinheiro?

Certa feita, meu marido foi para um país do sudoeste africano, com chegada no aeroporto da capital, como já havia ocorrido algumas vezes. Na ocasião, já tendo sido liberado pela alfândega, e estando no veículo que o levaria a seu destino, ele foi parado por uma patrulha militar, cujo oficial solicitou que ele abrisse a mala para verificação, e ele explicou que isso já tinha sido feito no aeroporto.

Acontece que eles ignoraram a informação e insistiram que abrisse a mala, ao que ele atendeu prontamente. Só havia roupas, chinelo, um par de sapatos, artigos de higiene pessoal, e alguns medicamentos: Buscopan  (poucos dias antes ele teve cólica renal), alguns analgésicos como Dipirona e Paracetamol, além de comprimidos de Quinino, para o tratamento de malária. Então, o líder da patrulha disse a ele: “Você está  traficando drogas!”, ao que surpreso ele contrapôs: “Como assim?” Foi quando começou um debate sem fim, com todos os componentes da patrulha armados e com as armas apontadas pra ele, debaixo de um sol escaldante. O oficial chegou a dizer, em tom ameaçador: “Você já foi a alguma cadeia no Brasil? Pode imaginar como são as cadeias aqui?” O rapaz que estava dirigindo o veículo se aproximou do meu marido e disse a ele: “Melhor dar um dinheiro. Enquanto você não der, eles não vão nos liberar.”

E aí você acha que ele deu? Você daria?

Situações assim, seja lá do outro lado do mundo ou aqui no nosso país, são quase uma rotina: é o garçom que vai atender sua mesa com mais atenção caso na chegada você “molhe a mão dele”; é o agente do DETRAN que diz a você não ser necessária toda aquela trabalheira pra renovar a sua CNH, mas que tudo pode ser fácil e rapidamente resolvido (enquanto fica olhando bem dentro dos seus olhos com aquele sorrisinho meio cínico); é o funcionário da TV à cabo que oferece um servicinho mais rápido “por fora”; é o gerente da sua conta no banco que passa por trás do guichê dos caixas pedindo um “favorzinho” ao caixa pra efetuar um pagamento seu enquanto a fila está enorme; é o fiscal dos postos da Receita, nas estradas, que não liberam o caminhão com carga pra seguir viagem caso o caminhoneiro não abra a carteira pra ele (mesmo que toda a documentação esteja correta); é aquela hora que você usa a impressora da empresa onde trabalha pra imprimir um monte de materiais para seu uso pessoal; é a sua postura no trabalho quando, ao invés de ser diligente e cumprir as suas tarefas, você fica conversando com seus amigos no WhatsApp ou navegando em outras redes sociais escondido do chefe.

Dei apenas alguns exemplos aqui, e estou certa de que você teria muitos outros a compartilhar. Ações como essas estão sempre nos rodeando e nos “cutucando”. Pensamentos como “isso não tem nada demais”, “vai ser rapidinho”, “só funciona desse jeito”, “ninguém tá vendo mesmo”, “não tem outro jeito”, “vai ficar muito caro se eu não fizer assim” estão sempre nos assediando e às vezes moldando nosso jeito de ver e fazer as coisas.

É muito fácil eu gritar a plenos pulmões “Fulano tem mesmo de ser preso! Ele é um ladrão! Roubou milhões dos cofres públicos!”, mas na hora de “molhar” a mão de alguém pra resolver um problema mais rapidamente, ou quando se age de maneira incorreta no trabalho, nosso senso de justiça acaba sendo comprometido.

Uma sociedade inteira pode ser afetada por ações individuais. Ideias do tipo: gentileza gera gentileza, ou correntes do bem, comprovadamente dão certo. No ano 2000 foi lançado um filme que conta a história de um professor que dá como tarefa para sua turma bolarem uma ideia que mudasse o mundo para melhor. Um dos alunos cria um plano e o coloca em ação, mas ele não imaginava que aquilo não só afetaria a vida de sua mãe, mas colocaria em movimento uma onda sem precedentes de bondade humana que, sem que ele soubesse, germinou num fenômeno nacional (“A Corrente do Bem”).

É mais ou menos esse tipo de ação e reação que estou tentando tratar aqui. Você por acaso já assistiu aquelas “pegadinhas” em que a pessoa deixa cair (propositalmente) um dinheiro para que a câmera escondida flagre como os transeuntes vão reagir? Pois bem, há aqueles que de imediato chamam a pessoa que perdeu o dinheiro e o devolvem ou apontam aonde caiu, e há aqueles que disfarçam, colocam o pé em cima, deixam a pessoa se afastar e pegam o dinheiro pra si. Se eu perguntar “Como você reagiria?” estou certa que sua resposta seria: “Claro que eu devolveria!” Mas não é todo mundo que pensa assim…

Quem me conhece bem diz que sou crédula demais, que sou inocente, que confio demais nas pessoas e coisas do gênero. De fato, gosto de ser assim. Deus me fez assim. No dia que eu perder a capacidade de confiar nas pessoas, de esperar o melhor delas, de acreditar na sinceridade delas, a vida vai ficar muito sem graça. Não estou dizendo que gosto de ser passada pra trás, ou que sou uma boba inveterada, o que estou dizendo é que a despeito de tanta coisa ruim que acontece e da pouca credibilidade que o ser humano tem neste mundo feio, doente e sombrio em que vivemos, creio que ainda há pessoas que buscam viver os ensinamentos de Jesus Cristo, moldar as suas práticas na ética cristã e agir conforme o mandamento bíblico que resume TODA a Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo.

Ah, e em relação à situação que relatei lá no começo, eis o desfecho: meu marido não deu o dinheiro. Foram horas naquele sol quente, naquela intimidação toda, mas ele resistiu bravamente até que a patrulha também desistiu e foi embora. Foi fácil? Não. Deu medo? Deu. Mas no fim, apesar de todo o desgaste, ele não comprometeu Aquele de quem deveria dar bom testemunho e a quem, inegavelmente, prestará contas um dia: o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas.

Fotografia: rawpixel.com on Unsplash

Escrito por

30 anos de casada com um marido lindo! Duas filhas: Jessica (26) e Isabela (21). Candanga, fiquei em Brasília até os 12 anos. Daí fui pra Recife, onde fiquei quatro anos. De lá fui para Anápolis onde fiquei nove anos. Daí casei-me e fui pra Goiânia, onde passei quatro anos. Voltei para Anápolis e lá vivi mais nove anos. Agora já são 17 em São Paulo. Se fizer as contas, descobrirá que tenho 55 anos! Pode-se imaginar que meu sotaque é uma bagunça! 2017 foi meu Jubileu de Prata trabalhando em Missões Transculturais! 25 anos tentando fazer o que o Senhor me chamou pra fazer. Foram nove anos com Asas de Socorro e já são 17 com a APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Amo demais o que faço. Forever!

10 comentários em “É melhor dar o dinheiro?

  1. Concordo. É a tolerância com as “pequenas corrupções” (pirataria, colar na prova, gato na tv à cabo, não devolver o troco errado quando se percebe o erro, o uma mão lava a outra, etc) que nos faz tolerantes com as “grandes corrupções”. Seu texto me fez refletir quando a Bíblia menciona o fim dos tempos o amor esfriará tanto e o pecado e a perseguição ao cristianismo (e talvez à moral Cristã) será tão gde que “não se poderá comprar e nem vender”. Talvez seja isso tbm… se não estivermos firmes na Rocha seremos enganados pela “corrupção do nosso próprio coração” e do sistema do mundo, apenas para buscar a sobrevivência ou nos integrar neste mundo. Seu texto me fez refletir também sobre romanos qdo fala que Deus entrega o pecador à corrupção do próprio coração como forma de juízo por não amar ao Criador e obedecê-lo em amor. O que começa sendo pequeno (achar normal colar numa prova e não se arrepender por isso) acaba por se achar normal o desvio de milhões. Muito sério e sábio seu texto e reflexivo. Pertinente aos dias e nossa realidade de hoje. Eu também não daria o dinheiro. Mas admito na minha fraqueza humana que eu preciso de fé e da graça do Pai para manter uma postura firme assim como seu marido teve em uma situação tão extrema, de ameaça e de risco de vida. Pois eu mesma nunca passei por uma situação assim. Mas seu texto nos chama a estar prontos e vigilantes quando nossa fé for colocada à prova, pois isto testificará o que de fato está no nosso coração. Que Deus nos dê um caráter firme desde já nas pequenas coisas, pois quando vier as grandes a nossa resistência à corrupção testificará nossa fé ou o juízo de Deus sobre nós! Senhor tenha misericórdia de nós.

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  2. Querida Mônica, o Agripino é meu herói!!!! Isso me fez lembrar quando o Bernardo e ele foram para Angola e que a mala do Bernardo digamos assim se “extraviou” e que no dia seguinte o Agripino foi buscar a mala do Bernardo porque ele já estava dando aula, e o Agripino foi intimidado pelo pessoal do Exército. São tantas as situações, em que se não tivermos a plena certeza de que os olhos do Senhor estão sobre toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é inteiramente seu, é muito fácil vacilar. O medo nos faz tomar decisões erradas. Aqui não estou falando sobre as pequenas situações do dia a dia, em que as pessoas tomam decisões tão mesquinhas por conta de um padrão mental que infelizmente se instaurou e criou raízes na mente de boa parte dos brasileiros, que é a medíocre lei de Gerson, o famoso :- Eu gosto de levar vantagem em tudo!!!!! Para resistir e ser fiel até a morte se assim for preciso, você tem realmente de ter nascido de novo, tem de ser cristão bíblico na prática e não apenas de falar, se não, na primeira oportunidade em que for apertado o parafuso espana. Sê fiel até a morte!decididamente não é para qualquer um. Bjs

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  3. Este é meu Xi Gripin🙌🏼 Eu sabia que ele resistiria bravamente a essa situação! Sinceramente minha Xia, concordo com tudo que vc disse e vc sabe que vcs são minha referência de vida. Com seus ensinamentos e testemunhos aprendo até hj sobre muitas coisas. Infelizmente somos rodeados pela corrupção o tempo todo. Quando fui tirar minha carteira no Rio, fui reprovada por nada e adivinha qual era a intenção ali? Até hj não tirei minha CNH por motivos financeiros, mas poderia ir pelo caminho mais fácil com certeza. Mas não vejo mérito algum nisso. Pelo contrário, mesmo perdendo um dinheirão com a situação. Passei por algumas situações na vida que me fizeram ser uma pessoa mais desconfiada e menos crente nos outros, infelizmente. Mas acredito que os planos de Deus são perfeitos pra nós e nele confio plenamente, pq Ele é tudo pra mim. Já houve vezes que fui muito bem atendida em restaurantes, por exemplo, e no fim de tudo dei uma gorjeta como gratificação. Mas sem prometer aquilo antes, só para ser bem atendida. E, no fim, quando surpreendida, sem imaginar que poderia vir algo dali, já prestigiei alguns serviços quando sentia no coração que aquela pessoa merecia. Mas como gratificação mesmo, e jamais comprando ou prometendo “por fora” só para ser bem atendida. Aí não. Jamais. mas vc está certa em tudo o que disse. Esse mundo é sombrio e cheio de corrupção e outros tipos de maldade. Mas com Cristo no coração podemos resistir a situações como aquela do começo do texto, porque sabemos quem somos e nossa capacidade, quando testada, jamais corromperá nossa essência. Obrigado por me mandar o texto. Te amo minha linda Xia! Amo vcs! Um grande beijo da sua sombrinha❤️ Fiquem com Deus preciosa. Um grande abraço 🙏🏼🌹😘

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