A pressa que me atrasa…

Tenho medo de onde vamos parar, com tanta pressa, mas não saindo de lugar algum.

Alguns até vão longe, mas são “forçados” a parar ou cair doentes, e nessa pausa “pós vida frenética”, o tempo que ficam parados, é como se fossem ultrapassados por eles mesmos, como se tivessem perdendo tempo enquanto se recuperam. Então a culpa chega, sem atrasar, dizendo repetidamente: “se você tivesse feito isso ou aquilo…”

A tecnologia nos promete agilidade, praticidade e otimização dos processos. Mas quanto mais temos tecnologia, menos tempo temos tido!

Pais apressados, não conseguem sentar com seus filhos, ver a tarefa de casa, gastar tempo na disciplina… O choro é insuportável, pois correu muito o dia todo e precisa de descanso. Então é mais fácil sanar o som incômodo com um leite, chupeta, presentes, afagos, tabletes, entretenimento e por aí vai…

Casais na pressa de saber se um casamento vai dar certo, querem experimentar “tudo” antes. Então pulam-se etapas. E já que o casamento demora, então por que não morar junto logo, pois não há tempo para planejar tudo! E para separar também se torna mais rápido, afinal… não houve papelada, fotos, amigos, padrinhos…

Casamento para sempre? Que nada! Não se adequou a você? Troca. Afinal, o importante é ser feliz hoje, e o quanto antes!!!! (Percebem as incoerências?)

É mais rápido postar um lamento no Facebook do que cultivar amizade. Hoje em dia estar presente “um a um” dá trabalho. É melhor ter um monte de curtidas e compartilhamentos, mesmo que seja uma “fake news”.

Hoje em dia, nos cumprimentos, a pergunta “tudo bem?” é educação e formalismo, isso quando há. Quem realmente está disposto a te ouvir se não estiver?

Também tem pessoas enlutadas que não respeitam o tempo devido para sofrer suas perdas. Envolvem-se em outros relacionamentos para esquecer os do passado, ou, se enchem de atividades para não ter tempo para pensar, e entre outras coisas.

Sempre que houver pressa, haverá um retorno a você mesma. Ninguém pula etapas (só tentamos e nos iludimos). Quanto maior a distância que corrermos de nós, maior será o tamanho do tempo para nos recuperar. É por isso que tantas pessoas caem em depressão ou em crises de melancolia ou revolta contra Deus, cerca de dois anos depois de algum ocorrido desses…

Lembro-me da época em que “trabalhava demais”. Às vezes entrava mais cedo e saía mais tarde do trabalho, e nunca era suficiente. E me incomodava algumas funcionárias, que entravam no horário e não ficavam um minuto a mais, e aparentemente estavam bem, satisfeitas e cumprindo suas metas. Se estavam mesmo não sei, mas sei é me sentia comprometida com meu emprego, e as pessoas que não “paravam tudo para ajudar os outros” para cumprir suas tarefas, as considerava como “não comprometidas”.

Então fui duramente confrontada quanto a essa questão de comprometimento. Descobri que eu não era tão empenhada, se comigo mesmo não cumpria os cuidados devidos. Existe alguém comprometido que não o seja em tudo?

Fui numa psicóloga que olhou para mim e disse: “vejo em sua vida um filme em preto e branco. Não há cor, não há beleza, apenas horários, tarefas, compromissos e deveres”. Naquele momento entendi que havia algo errado. Como uma filha do Altíssimo poderia refletir uma vida sem cor? Havia algum problema. (Claro que não procurei essa psicóloga por ter entendido que havia um problema nessa área. Eu fui por causa “dos deveres” que a profissão me exigia…)

Nessa época eu estava no quinto ano da faculdade. Não conhecia meus vizinhos, quase não via o Sol se pôr e fiquei fora de tudo que havia no cinema e na mídia. Finais de semana eram para os compromissos na igreja, os infinitos relatórios da faculdade e estágios. Até que conheci a amiga rinite e o refluxo faringo-laríngeo, que me deram uns dias de “folga” forçada.

Mas gente apressada “demora” a aprender algumas coisas! Que ironia!

Consegui vencer essa parte. Conheci meus vizinhos, o bairro “novo” que morava há cinco anos, e tentei dar cor a minha vida.

Passaram-se dois anos e o Senhor me levou ao seminário, onde tive tempo com Deus, de maneira incrível. Ali também conheci meu marido, um poço de calmaria, sistemas, tranquilidade e poucas palavras. Pensei que era muito boa quando iniciamos nosso relacionamento, afinal, já estava concluindo o curso (há-há). Foi então que percebi o quanto precisava ser transformada ainda (isso nunca termina).

Relacionamentos sempre revelam coisas em nós que não percebemos a sós e ao conviver com ele, comecei a perceber que chegava aos mesmos lugares que eu, andando um passo de cada vez, enquanto me atropelava e tropeçava tentando dar dois ou três, carregando mais peso nas costas.

Inclusive, cheguei a pensar que andaria mais devagar e iria retroceder se me casasse. E de forma tão carinhosa, o Senhor ainda tem me mostrado que, de fato o caminho é mais devagar por se dividir tudo, mas que com certeza, chegamos mais longe juntos.

Passaram-se mais dois anos, e então vieram as experiências no ministério, onde precisei parar de novo para um “pit stop”. Dessa vez não por uma obrigação. Mas me senti confiante num olhar atento de uma psicóloga, cristã, bíblica, mas também profissional (cognitivo comportamental). Venci mais essa barreira.

Como disse, ninguém pula etapas e processos, e eu precisei (e ainda vou precisar) passar pelas quais pulei. Seja um perdão a ser doado, amargura, medos, entre outros, para que a obra de Cristo seja completa em nós e por meio de nós.

Decidi falar sobre isso, porque temos tido um problema grave em nossas vidas: a falta de equilíbrio. Uns têm sido muito vulneráveis, e de tanta insegurança, não tem saído do lugar, quase que de forma hipocondríaca e viciados em diagnósticos médicos. No outro extremo, estão os que nunca param para cuidar de si e são demasiadamente espirituais para pedir ajuda ou auto suficientes (se eu parar quem vai fazer o que eu faço?). Tenho a tendência de me encaixar sempre na segunda opção, infelizmente.

Quantas de nós ainda nos envergonhamos por nos “perdermos” nas linhas da ansiedade, e no pretexto do “testemunho”, estamos caindo em outro pecado, o do orgulho, por não procurar ajuda!? Ou pensar no que os outros vão pensar?

Louvo ao Senhor por amigas irmãs que também são meus ouvidos e me olham como uma humana. Espero que encontre jóias preciosas em sua caminhada…

O Senhor nos chama a dividir o fardo. A caminhar junto. A mostrar nossas fraquezas. A não ter pressa em nos mostrar bons e fortes. Afinal, o que é forte é O Tesouro dentro do vaso de barro…!

Parar para cuidar de mim ainda me dá a sensação de perda de tempo, pois tenho convicção de que o Senhor me chamou para cuidar de outros… No entanto, é preciso aprender que há tempo para curar e ser curado. E com as feridas cicatrizadas, respeitando o devido processo, seremos ferramentas uteis (e saudáveis) nas mãos do Senhor, para levar a outros o conforto que recebemos.


Desejo que você dedique tempo, sem pressa, para olhar para si, e para os que estão a sua volta. Não é preciso parar de olhar para si, porque está olhando para o outro, e vice-versa.

Foto: Manu Mangalassery from Pexels

Escrito por

"Uma quase Campineira, casada com um baiano que conheceu no Instituto Bíblico Peniel, onde se formaram em Teologia, e uniram duas culturas diferentes, o que tem tornado suas vidas mais empolgantes e cheias de amor. É psicóloga, gosta de ler, ouvir boa música, apreciar o pôr do sol e tomar uma Coca com amigos. Nos últimos 2 anos, serviram ao Senhor em Campinas/SP, onde seu marido foi pastor auxiliar, de jovens e adolescentes. Agora, decidiram continuar o treinamento para o trabalho missionário com povos transculturais. Ambos desejam alcançar os que ainda nunca ouviram falar sobre Deus."

5 comentários em “A pressa que me atrasa…

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