… liberem logo a estrada!

Nossa sociedade está cada vez mais egoísta e o que importa, de verdade, é a felicidade individual, e esse foi um assunto que mexeu muito comigo ao longo desse ano.

Nossos temas, aqui no blog, são definidos antes do começo do ano e distribuídos para as autoras de modo que todas sabem com antecedência quais serão os assuntos ao longo do ano. Assim que recebo esse documento, eu o leio a fim de decidir sobre quais temas escreverei. Em 2018, eu empaquei no mês de agosto porque, afinal, o que posso falar sobre sentir a dor do outro? Eu choro com os que choram (Romanos 12:15)? Quando um membro do corpo padece, eu padeço também (1 Coríntios 12:25-26)? Sobre os presos e os maltratados (Hebreus 13), sinto a dor que eles sentem?

Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê. Jesus chorou.” João 11:33-35.

“Vendo Ele as multidões, tinha grande compaixão delas, porque andavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.” Mateus 9:36.

“Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho. Então pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.” Lucas 10:33-34 (grifos da autora).

As passagens acima são extratos de diversos momentos em que Jesus ensinou, seja por parábola ou por seu próprio exemplo, a não olharmos o sofrimento dos outros de maneira superficial ou sermos indiferentes à dor dos outros. Na Psicologia, o termo “empatia” significa uma identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro. De uma maneira mais simples, significa colocar-se no lugar do outro para entender seu ponto de vista.

Remoí esse assunto ao longo do ano. Eu dava pequenas “deixas” quando conversava sobre o tema, a fim de saber o que as pessoas viam em mim. Afinal, teria eu sido tragada pela onda de egoísmo e me tornara uma pessoa tão cauterizada a ponto de não sofrer com o sofrimento dos outros? Acontece que, no final das contas, Deus estava me tratando de modo a me tornar uma pessoa que, como Jesus, olha o ser humano, enxerga sua necessidade e tem compaixão dela.

Num determinado momento desse processo, eu e meu marido nos vimos diante de uma tragédia que nos deixou chorando e sofrendo ao pensar em um pai que, ao voltar para casa, nunca mais veria seus filhos. Num fim de semana comum, quando viajávamos para a casa de meus sogros no interior de SP, nos deparamos com um congestionamento de muitas horas causado por um acidente envolvendo um caminhão de doces que tombou sobre um veículo no acostamento, no qual estavam três inocentes crianças, deixadas pelo pai que havia ido atrás de gasolina. Claro, também havia muita gente reclamando do trânsito, mesmo sabendo o motivo de toda aquela confusão. Como você reclama que o trânsito não anda sabendo que um homem, ao voltar para o carro, descobriu que nunca mais veria seus filhos?

Naquela noite, oramos por aquela família com a voz embargada e olhos úmidos. Não consegui dormir. O ser humano descobriu que sentir a dor do outro pode ser tão doloroso quando sentir sua própria dor e por isso desenvolveu tantos mecanismos de defesa, de blindagem, que pouco a pouco vai cauterizando o coração ao ponto de não se importar que “algumas crianças morreram, liberem logo a estrada!”. 

Mas a cauterização de nosso coração não é o caminho para o qual Jesus nos chamou. Jesus nos chamou para amarmos aos outros como amamos a nós mesmos. Não nos chamou para amar da boca para fora mas “por obra e em verdade” (1 João 3:18). Prepare-se pois isso dói, demanda energia e disposição, além de ser um processo que nunca acaba… mas é para isso que fomos chamadas e esse é o caminho para que o Espírito Santo nos molde de forma que nos tornemos as pessoas que Deus quer que nós sejamos.

 

Fotografia: Trym Nilsen on Unsplash

Escrito por

Brasileira por nascimento e espanhola no passaporte, casada com o Marco Antonio, cristã desde os sete anos de idade. Já trabalhou como enfermeira, manicure, maquiadora, contabilista, auditora e modelo plus size (oooooh!). Viajante frequente, após doze anos como executiva de Auditoria, descobriu que precisava de uma pausa para repensar a vida e redefinir as prioridades. Gosta muito de redes sociais, é apaixonada por tudo que faz e super curtiu quando o Facebook lançou as reações, principalmente o "amei".

Um comentário em “… liberem logo a estrada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s