O dia em que comi um passarinho

Ok, antes de começar quero deixar claro minha profunda apreciação por todos os animais e em especial pelos pássaros!

Desde pequena, fui ensinada por minha mãe a cuidar e apreciar toda a criação de nosso Pai, a buscar em cada ato singelo da natureza a beleza da graça de nosso Senhor. Assim, cresci observando com carinho e afeição especial as flores e os passarinhos. A tal ponto que me lembro de entristecer-me muito quando tentava alcançar algum deles e ele voava furtivamente assustado. “Mamãe, se eu fosse um passarinho, eu iria deixar os humanos me pegarem!” eu dizia chorosa diante da minha tentativa frustrada de fazer algum novo amiguinho voador.

Quando adolescente, obviamente desisti de tentar ser amiga desses seres ariscos e ágeis. O sentimento, porém, não mudou. Agora, seguindo o exemplo de minha mãe, cada vez que via algum passarinho caído por chocar-se com algum vidro ou janela, chorosa como quando com 4 anos de idade, corria para tentar socorrê-lo. Pedindo a Deus que o ajudasse, delicadamente o levantava e fazia o que podia para salvá-lo. Muitas vezes eles voltam a si e como num susto, voavam alto e desapareciam nas árvores. Outras, no entanto, presenciei um desfecho final para aquela vida pequenina e com lágrimas o enterrava.

Sendo criada em tal contexto, você pode facilmente imaginar qual foi a minha reação, anos depois, agora adulta, ao segurar uma rolinha que acabara de ser atingida por uma criança na aldeia indígena aonde sirvo como missionária.

Após 3 meses morando numa aldeia bastante isolada, numa manhã calma, seguindo nossa rotina diária, meu “filho” – um doce, inteligente e caçador menininho de 10 anos de idade que me adotou como sua “mãe”, ato comum na cultura – me chamou radiante. Ao lado da cozinha cedida para nós pelo povo, ele me disse para olhar para o velho telhado de palha seca. De lá de cima, rolava até nós uma pequena criatura, já sem vida. Alcançando-a, ele a colocou em minhas mãos. Fiquei chocada. Espero ter conseguido esconder a onda de sentimentos que vieram sobre mim no momento. Aqueles sentimentos tão naturais e instintivos que desde pequena minha mãe me ensinara de compaixão e cuidado para com os animaizinhos. Agora em outra cultura, ambiente e contexto, em segundos tive que lutar contra minha própria cultura e abraçar a ali iminente. Engoli seco. Sorri. “Você é um ótimo caçador, meu filho! Muito bem!” foi tudo que consegui dizer, sentindo o calor do bichinho ainda em minhas mãos. Nada havia me preparado para o que eu ouviria em seguida… “é uma delícia!”. Acho que nessa hora o sorriso, que com muito esforço eu mantivera até ali, esvaneceu. “Ah é?” disse sem querer imaginar o que viria a seguir… “É sim. Agora você vai cozinhar.”

Fiquei sem desculpas. Esqueci de falar acima, no pouco que descrevi esse garotinho, que ele é bastante convicto… para não falar teimoso. E assim, eu o segui; passo a passo ele foi me ensinando como limpar e preparar aquele animalzinho. Foi uma ótima aula dentro da cultura daquele povo! Quão paciente ele foi comigo quando eu errava alguma de suas instruções! Tive que desligar uma parte de quem eu era, mas recebi em troca uma nova perspectiva e experiência que jamais imaginei ter. Quando você se encontra no meio da mata, a no mínimo 300km da cidade mais próxima, sem acesso de carro ou barco, apenas um avião monomotor a cada 2 meses que traz mantimentos; sem mercado ou geladeira para guardar sua comida; tudo passa a valer! E você começa a ver novos propósitos para a criação de Deus que antes nem imaginaria.

Comemos o passarinho, e era mesmo uma delícia, como meu filho havia dito. Como nova missionária num novo campo, estou vivendo diariamente situações que nunca antes eu esperaria. Com tanta graça e cuidado, Deus tem me ensinado a cada dia depender dEle e aproveitar cada oportunidade dada por Ele para viver ao máximo, sentir ao máximo e gastar minha vida com uma causa que valerá para sempre. Imagino Jesus, sendo Deus, nascendo e crescendo em nossa cultura humana ao vir à terra! Sei que Ele me ajudará em tudo, assim como Ele também se faz presente ao teu lado agora e está pronto a te fortalecer, guiar e capacitar a fazer aquilo que às vezes parece ir além de nossas forças!

 

Fotografia: acervo pessoal da autora.

Escrito por

Curitibana de nascimento, africana de coração, filha de missionários, e irmã caçula de um jovem adotivo muito especial. Envolvida no universo missionário desde pequena, passou parte de sua infância na África com sua família, onde serviram como missionários em Moçambique. Ingressou no instituto missionário onde cresceu, ali foi moldada pela preciosa Palavra do Senhor que é o seu sustento dia após dia. Hoje, tem dedicado sua vida aos povos indígenas do Pará. Gosta de cantar e tocar seu ukulele e violão, dos quais tem muito ciúmes. É apaixonada pelo céu, com destaque à lua e pôr do sol, embora dias chuvosos e frios sejam seus preferidos combinando com um delicioso capuccino. Consegue sempre encontrar a trilha sonora perfeita, pois acredita que independente do dia ou situação, tudo fica perfeito ao som da música perfeita.

2 comentários em “O dia em que comi um passarinho

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