Além da poeira no para-brisa

Faz alguns dias que chegamos em casa, depois de meses fora. Era hora de desfazer as malas e tirar o pó de algumas coisas. Em meio a pilhas de papéis, em uma gaveta, encontrei um diário de oração que comecei há muitos, muitos anos. Ao reler algumas páginas fui tomada de um misto de emoções. Lembranças de dias bons e cheios de louvor, mas também muitos momentos de tribulações em que eu ansiava ver a mão de Deus aliviando os açoites do vento.

Relembrar todos aqueles momentos me fez ver algumas situações como uma viagem de carro em uma estrada de terra no meio da noite. O caminho parece ser mais longo, não conseguimos ver além do que os faróis podem iluminar, tudo parece mais escuro devido à poeira que vai assentando no para-brisa e se não cuidarmos, logo estamos resmungando sobre como a estrada está esburacada, como isso vai danificar o carro, como o corpo já está doendo…e aí, minhas queridas, a murmuração vai longe.

Mas então, quando você chega ao seu destino e o dia é iluminado pelos raios quentes do sol, vê-se além da estrada empoeirada e cheia de obstáculos. Pode-se ver agora as árvores, as flores, os campos verdes e toda a beleza encoberta pela noite.

Existem momentos em nossas vidas que parece que só nós estamos passamos por aquilo, nos vemos vulneráveis e sem o controle da situação. Os dias são longos e cinzas e as noites, estas parecem não ter fim. Acredito não ser a única a me sentir assim em meio às dificuldades. O vento forte agita tudo ao redor, o medo nos paralisa e muitas vezes o sentimento de solidão nos acomete de tal forma que nos fechamos em nosso redemoinho de sofrimento e dor. Isso não é saudável e não devemos nos deixar levar por esses turbilhões de angustia.

Vivemos sujeitas às mazelas deste mundo. Como disse C.A. Carson: “É fato que os cristãos ficam velhos e enrugados. Eles contraem câncer e doenças do coração, ficam surdos, cegos e finalmente morrem. Em muitas partes do mundo os cristãos têm que enfrentar a destruição da fome, a calamidade da guerra, a sutil coerção da corrupção. Isso não quer dizer que Deus não intervenha algumas vezes em benefício de Seu povo de formas extraordinárias. Isso quer dizer que nós também vivemos em um mundo caído e não podemos escapar de participarmos do mal e sofrimento.”

O sofrimento e a dor tem o poder de nos mostrar quão frágeis somos. Percebemos que existem situações que fogem ao nosso controle. E como isso é difícil. A dor tem sido uma surpreendente professora para mim. Infelizmente gosto muito de ter o controle das coisas. Quero ter o controle da minha agenda, da organização da casa, e a lista segue. Mas desde que o lúpus entrou em minha vida, o controle foi tirado das minhas mãos. Quando as crises de dor me visitam, tenho que abrir mão de fazer as coisas quando e como tinha planejado. Confesso que a frustração foi grande no começo, quando planejava arrumar algo na casa ou tocar algum projeto e acordava com dor ou com uma fadiga que tirava minhas forças. Me via refém do meu corpo frágil e limitado.

Precisei tomar algumas medidas para não sucumbir em meio à dor e a aflição que ela me trazia. Precisei buscar ao Senhor como  diz Hebreus 4:16 “Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento de necessidade.”  Reconhecer que não consigo sozinha foi fundamental para manter o equilíbrio. Outra coisa foi reconhecer a soberania de Deus e saber que não estava só. Recitar 1 Coríntios 10:13 tem me ajudado a ordenar meus pensamentos nas horas difíceis. “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.”

Assim como devemos ajudar nossos irmãos em seus momentos de aflição, devemos buscar ajuda de outros cristãos piedosos; é de edificação mútua ter irmãs em que se possa confiar para se aconselhar e orar em nossos momentos de aflições. Gosto demais de 2 Coríntios 1:3-5 “Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações. Pois assim como os sofrimentos de Cristo transbordam sobre nós, também por meio de Cristo transborda a nossa consolação,”

Deus tem me ensinado muito através das estradas empoeiradas e cheias de obstáculos que tenho percorrido ao longo da minha vida. Não vou dizer que foram lições fáceis de aprender e nem que consigo colocá-las em prática se não houver muita intencionalidade. Mas essas lições têm me ajudado a enxergar minhas estradas de terra com a luz que vem do meu Senhor.

Passar por momentos de dor e exaustão não é prazeroso, e minha oração é que Deus me ajude a olhar meus sofrimentos com as lentes da eternidade e assim viver  1 Pedro 1:6,7 “Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado.”

Existe muita beleza no caminho além da poeira no para-brisa e dos buracos ao longo da estrada. Só precisamos olhar além, com as lentes do porvir e nenhuma dor pode tirar isso de nós.

Escrito por

Uma goiana de passagem por este mundo caótico, onde vem buscando ser moldada por Deus e ter uma vida que O glorifique. Mãe de três preciosidades: André-8, Danielle-6 e Tiago-3. Dona de casa com alegria e apaixonada por tudo que envolve este mundo "caseiro". Amante de um café fresquinho, cheiro de livro novo, artes manuais de todos os tipos e pamonha quentinha em um dia de chuva. Conheceu seu marido em Minas, já morou nos três estados do Centro-oeste e hoje serve ao Senhor da seara, com seu marido no treinamento de missionários junto a MNTB em Vianópolis.

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