Num beco sem saída

“Mas o pastor Jorge nunca te bateu?”

A pergunta me atingiu bem de frente. Veio de uma moça que eu evangelizo e acompanho há mais de um ano. Na cultura dela é bem comum (embora sempre sofrido) homens baterem em mulheres.

No meu trabalho como missionária e esposa de pastor às vezes me deparo com situações que me deixam num beco sem saída. “E agora? O que eu faço? O que eu respondo?”. Como eu poderia dizer pra ela que eu sei o que ela está sofrendo, se eu nunca passei por esta situação?

No mundo do “politicamente correto” tudo é muito radical, tudo “preto no branco”. Parece simples: está errado? Denuncie! Te faz sofrer? Pula fora! Mas na vida real… ah, a vida real! Essa é bem mais complicada. Não tem só preto e branco, tem o cinza e mil outras cores também.

No caso desta moça, ela chegou na minha casa de noite, chorando, com seu filho de apenas 5 anos que tinha presenciado a agressão. Estava com suas partes íntimas doloridas e inchadas, ao ponto de não conseguir se sentar. “Me ajuda!”, disse ela. E eu imediatamente pensei: “Meu Deus, me ajude! Eu não me sinto capaz!”

O que fazer? Denunciar o marido dela? Posso até imaginar as pessoas lendo e dizendo: “Claro! Óbvio! Siiimmmm!”. Mas… eu tinha muita coisa a ser levada em consideração. Ia adiantar? Provavelmente não. A polícia raramente se mete nos assuntos acontecidos dentro da aldeia indígena. Será que ela queria isso? Será que isso solucionaria o problema?

Orei em silêncio e pedi sabedoria a Deus. Me coloquei no lugar daquela mulher e de seu filho pequeno e fiz o que ela precisava de mais imediato: a levei até um hospital pra que fosse tratada, verificaram se nada tinha se rompido internamente e receitaram três dias de injeções, demos assistência para que ela fosse esses três dias continuar seu tratamento. Dei abrigo na minha casa por duas noites, ofereci um trabalho temporário depois que ela melhorasse. Me prontifiquei a ir com ela buscar suas roupas. Orei com ela, a escutei, dei apoio. Tudo que eu pude dizer foi: “Não vou te dizer se você deve denunciar seu marido ou não. Isso é você quem decide. Também não estou aqui para te dizer se você deve continuar com ele ou não. Isso também é decisão sua. Só quero dizer que estou com você, orando e apoiando. Vou te dar abrigo enquanto você precisar. Fique aqui, pense bastante, peça a Deus para te mostrar o que fazer.

Na vida real (aquela que vivemos fora do Facebook, sabe???) nós nos deparamos com os mais variados tipos de situações. Muitas vezes ficamos em dúvida sobre como agir; e agir precipitadamente mesmo com a melhor das intenções, pode prejudicar mais do que ajudar. Denunciar um marido violento, sim (ou nesse caso, talvez não) mas antes de fazer isso, você ofereceu um lugar seguro para a mulher e seus filhos se abrigarem? Você ofertou alguma assistência a ela? Você vai prover algum tipo de sustento enquanto ela precisar se recuperar? Você está preparado para se defender se preciso for, desse marido violento?

Me lembrei ainda de outra situação que vivemos quando tentamos adotar um menino de catorze anos, criado apenas pela mãe, até que essa mãe foi violentamente assassinada. Adoção tardia. Que lindo, né? Tão falado e aplaudido pela mídia. E com certeza adoção, em qualquer fase da vida, é um ato louvável. Mas você já viu alguma reportagem ou documentário contando o outro lado da história? Eu nunca vi. Mas já vivi na pele e já ouvi inúmeros relatos de adoções que não deram certo e chegaram até a arrasar completamente uma família inteira.

Quando nossa experiência começou a dar errado, novamente nos vimos num beco sem saída. O certo seria desistir ou insistir? Ouvimos errado a voz de Deus? Deveríamos abrir mão de tudo por amor aquele menino que precisava de nós?

Oramos bastante e decidimos voltar atrás. Por mais que isso inicialmente provocasse em nós um sentimento de derrota, decidimos que era a saída mais acertada, encerrar o processo antes de prejudicar irreversivelmente nosso lar, nosso casamento e nosso filho.

Por que não falam sobre isso? Porque mostrar o lado ruim da adoção é politicamente incorreto. É polêmico. É delicado.

É correto adotar: sim. Eu devo adotar um filho: não sei. Nem sempre. Nem todo mundo. Depende do caso, depende de muitas coisas, peça orientação a Deus. Pra isso e pra tudo o que você fizer.

Se você parar pra pensar, até alguns mandamentos bíblicos são politicamente incorretos. Disciplinar os filhos com vara, perdoar em vez de se vingar, suportar o sofrimento por amor a Cristo em vez de se rebelar, pensar nos irmãos fracos na fé em vez de priorizar sua “liberdade”, e o famoso “tudo me é permitido mas nem tudo me convém”. O ditado do mundo é “meu corpo, minhas regras”; ou “na minha vida mando eu!”. Mas a que preço???

Antes de tentar ser politicamente correto, lute para alcançar a sabedoria que vem lá do alto. Aquele discernimento que só o Espírito Santo de Deus pode te ofertar. Na verdade a Bíblia diz para pedirmos sabedoria, pois Deus está disposto a nos concedê-la:

“Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.” Tiago 1:5

Outro verso perfeito para o momento em que estamos vivendo:

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:2

Não sejamos pessoas impulsivas, prontas a denunciar, gritar e lutar sem antes refletir. Nem tudo é o que parece. Nem tudo é tão simples. Nem todos que pensam diferente de você estão errados ou não são pessoas dignas. Deus criou o ser humano com inúmeras complexidades. Nunca vamos conseguir entender todas as pessoas e todas as situações. Nem tudo que o mundo prega é bom e deve ser copiado.

Antes de agir, pense. Antes de atirar a primeira pedra, olhe para si mesmo. Antes de falar (ou postar), reflita. Antes de tudo, peça a direção de Deus e não tenha medo de ser, quando preciso for, politicamente incorreto.

Fotografia: James Cousins on Unsplash

Escrito por

Mineira, 35 anos, casada há 9 anos com um lindo rapaz que conheceu aos 15, tem um filho de 4 anos que é um "colosso". Ela acredita que tudo isso é muito mais do que merece ou sonhou alcançar. É a graça enorme do nosso poderoso Deus. Atualmente serve ao Senhor na Missão Caiuá, no Mato Grosso do Sul, trabalhando com indígenas. Gosta muito de conversar, escrever e viajar.

16 comentários em “Num beco sem saída

    1. Enquanto leio seu texto meus olhos se tornaram um rio de lembranças. Passamos ppr isso na minha casa, meu pai pastor. Não é fácil. As vezes me vejo como Pedro querendo agir no impulso da minha raiva. Mas suas palavras são bálsamo do Senhor. Ele nos responderá, Ele sempre responde. Que Deus abençoe sua vida e continue te usar pra glória Dele.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Puxa! Q texto reflexivo! Como erramos em nossas decisões! Levados pelas emoções! Nossa Bia amei a narrativa e fez me pensar em quantas vezes errei em algumas atitudes q podem ter complicado td o contexto…minha irmã você é maravilhosa e q o Senhor continue usando-a grandemente para falar aos nossos corações! Amo você! Muito obrigada por mais essa pérola! Jesus te abençoe!

    Curtido por 1 pessoa

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