Mulheres sob pressão (1)

Nunca vou esquecer uma situação, logo após o casamento, em que meu marido fez uma brincadeira nas redes sociais e postou uma imagem de um ultrassom. Ele não escreveu que era a imagem de um bebê, muito pelo contrário, era visível que se tratava de um outro órgão, além da legenda explicar que se tratava de um exame de bexiga (!). A postagem recebeu centenas de curtidas e dezenas de comentários. Eu, que estava em casa dormindo, comecei a receber mensagens no celular e uma de minhas amigas ficou chateada porque ela não tinha sido a primeira a saber. “Saber o que?”, perguntei, sem entender nada do que estava acontecendo. Somente quando meu marido voltou pra casa eu entendi o que tinha se passado e, claro, ele tomou uma bronca. O que esse episódio revela, no entanto, é a pressão da sociedade, ainda que seja disfarçada de torcida ou expectativa, de que os casais devem ter filhos.

Certa vez ouvi de um pastor que era pecado uma pessoa não querer filhos. Eu o tinha questionado sobre isso alguns dias antes e ele aproveitou a mensagem dominical para disparar essas palavras como se fosse inconcebível uma mulher cristã não querer ser mãe. Sem outras referências, tomei a orientação do meu líder como verdade. Passados alguns anos, uma amiga radialista pediu que eu mandasse perguntas sobre temas relacionados a família, casamento e filhos. As perguntas mais interessantes seriam respondidas ao vivo por um pastor especializado no tema. Esse pastor respondeu que não há problemas se o casal optar por não ter filhos. Importante ressaltar que ambos os pastores, apesar de posicionamentos contrários, utilizaram textos bíblicos para fundamentarem suas respostas. Conclusão: eu fiquei confusa, como você deve ter ficado.

Então meditando sobre o assunto, eu analisei o relato bíblico que apresenta a personagem que mais ansiava por um filho (1 Samuel 1). Elcana era um homem bom, justo, procurava viver corretamente e era casado com duas mulheres (o que era permitido no contexto do Velho Testamento). Uma de suas mulheres, Penina, tinha muitos filhos mas Ana, justamente a que Elcana mais amava, era estéril.

Apesar de ser uma época em que a geração de filhos era esperada de todas as mulheres casadas, especialmente por motivos de sucessão e herança, nós não percebemos que houvesse essa pressão sobre Ana. Elcana já tinha outros filhos de modo que, do ponto de vista sucessório, o assunto estava resolvido. Além disso, Elcana não tinha desprezo por Ana, muito pelo contrário, ele a abençoava em dobro em comparação ao que fazia por Penina e não cansava de lhe perguntar: “meu amor não é suficiente para você?”. Elcana realmente amava Ana mesmo não tendo filhos dela. Isso nos leva a conclusão de que o desejo de Ana por um filho era legítimo e não motivado pela pressão social: ela queria segurar um bebezinho em seus braços!

Isso me faz pensar em quantos momentos constrangedores eu e muitas de vocês já passamos em eventos de família e encontros na igreja, sendo constantemente cobradas para ter um filho. Se você passou por uma perda gestacional, além do trauma da experiência, ainda deve ouvir comentários de que logo arrumará outro, como se o ato de parir, por si só, fosse maior do que a vida que se perdeu e que facilmente será substituída assim que outro filho nascer.

Acreditem em mim: eu já passei por isso tudo e sei do sabor amargo que essa pressão tem. O que levou algum tempo mas finalmente um dia veio foi o entendimento de que os filhos são verdadeiramente uma benção (Salmos 127:3) mas que o fato de não ter filhos não significa que Deus não se importa conosco e deixará de nos abençoar.

Já ouvi muitos relatos de mulheres que, cada uma com seu motivo, não podiam ou não queriam ter filhos e, confrontadas com esse salmo, passaram a carregar uma culpa que não era delas. A decisão de ter filhos deve se basear numa motivação genuína do casal, que deve orar junto, buscar a vontade de Deus para a família e tomar todas as ações e precauções necessárias para planejar sabiamente a chegada do novo integrante da família. Essas ações e precauções compreendem avaliar a saúde de ambos, planejar as finanças, avaliar as mudanças que a chegada de um bebê requer e alinhar expectativas em relação a planos pessoais tais como estudos, carreira e viagens, por exemplo, além de outros aspectos que variam a cada caso. Deus nos conhece intimamente, se preocupa com nossa felicidade e sabe o que precisamos pra sermos felizes. Se isso incluir filhos, ele nos concederá e seremos abençoadas por meio de nossos bebês. Caso contrário, a benção de Deus nos será concedida de outra maneira. Certo é que Ele não nos deixará sozinhas.

Fotografia:  rawpixel on Unsplash

 

Escrito por

Brasileira por nascimento e espanhola no passaporte, casada com o Marco Antonio, cristã desde os sete anos de idade. Já trabalhou como enfermeira, manicure, maquiadora, contabilista, auditora e modelo plus size. Viajante frequente, após doze anos como executiva de Auditoria, descobriu que precisava de uma pausa para repensar a vida e redefinir as prioridades. Gosta muito de redes sociais, é apaixonada por tudo que faz e super curtiu quando o Facebook lançou as reações, principalmente o "amei".

2 comentários em “Mulheres sob pressão (1)

  1. Cíntia,

    Muito bom seu texto, apenas uma ressalva… Ana queria mesmo um filho, mas teve também muita pressão (dentro do contexto cultural, que era muito grande – lembre-se de Sara, por exemplo) e de Penina, que desdenhava dela (ciúme? inveja?).

    Curtido por 1 pessoa

    1. Myrtes,

      Obrigada pelo seu comentário. Eu não consegui ver Ana com inveja de Penina; eu fui ao dicionário para me certificar do significado de inveja e não acho que Ana (1) quisesse ser a única das mulheres de Elcana a ter filhos nem (2) que ela desejasse ter os filhos de Penina mas desejava ter o seu próprio filho. No caso de ciúmes, talvez ela possa ter sentido pela atenção que a comunidade dava a Penina, mas o texto é claro em dizer que Elcana não dava menos atenção a ela por não ter filhos. Assim, eu tenho dificuldade em inferir que Ana tivesse ciúmes de Penina; me ocorreu até o contrário: apesar de não ter filhos, Ana recebia porção dobrada de Elcana e era a esposa amada. Sabendo da vulnerabilidade de Ana, Penina fazia o que estava a seu alcance para diminuir Ana. Já a comparação com Sara, entendo, faz sentido em termos culturais pelo contexto social em que ambas estavam inseridas; contudo, no caso de Sara havia uma promessa de Deus cuja realização nem Abraão nem Sara conseguiam vislumbrar (ambos eram velhos) embora houvesse grande expectativa. Além disso, se pensarmos nessa comparação, Ana também poderia dar um filho a Elcana por meio de uma de suas servas, o que o texto não diz que ela tenha feito. Se porventura o fez, não deve ter satisfeito seu anseio pela maternidade (somente com Samuel esse desejo foi satisfeito).
      Muito bom a gente analisar o texto em detalhes! Obrigada pela oportunidade.

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