Entre pedras e perdão

Em 2017, surgiu no meio evangélico uma grande polêmica a respeito de uma cantora gospel que teve sua conversa gravada e o áudio exposto na mídia. Em uma das gravações ela falava obscenidades ao, então, namorado e em outra pedia (de forma frenética e exaltada) para usar drogas.  As redes sociais ficaram em polvorosa com esse escândalo! Penso que essa polêmica revelou dois sintomas muito interessantes de uma grave doença da nossa cultura atual, especialmente a cultura evangélica.

De um lado temos os juízes de plantão, prontos para trucidar e dar sua sentença ao pecado alheio, esquecendo-se muitas vezes de seu próprio pecado e do quanto o perdão maravilhoso de Jesus os alcançou um dia e os transformou (se é que transformou mesmo). Pensei nas palavras de Jesus relatadas em Mateus 7: “Não critiquem, e assim vocês não serão criticados! Porque como vocês tratam os outros, eles também vão tratar vocês. Façam aos outros aquilo que vocês querem que eles façam a vocês mesmos.”(v. 1,2 e 12)

De outro lado, temos aqueles que usam do pretexto da graça de Deus para argumentar que, por não estarmos mais debaixo da lei, podemos fazer tudo o que quisermos, dizendo a nós mesmos que tudo é permitido ‘e’ tudo convém (o versículo original diz: “Tudo me é permitido, MAS nem tudo convém.” I Coríntios 6:12). Barateando a graça e zombando do sacrifício de morte do Filho de Deus por causa do pecado. Ao pensar nesse grupo de pessoas, me lembrei do versículo na sequência, no mesmo capítulo de Mateus 7: “Só se pode entrar no céu pela porta estreita! A entrada para o inferno é larga, e sua porta é bastante ampla, para todas as multidões que escolherem esse caminho fácil. Mas a Porta da Vida é pequena e a estrada é estreita, e só uns poucos a encontram”. (v. 13 e 14)

Quando olho para o Jesus descrito nas Escrituras, percebo que ele não tinha medo de falar a verdade, mas fazia isso de uma maneira cheia de autoridade e compaixão. 

Observando, por exemplo, a história da mulher adúltera (relatada no evangelho de João capítulo 8) podemos de uma maneira muito clara aprender com o próprio Jesus como lidar com esse tipo de situação. O que mais me chama atenção nessa história, é que o mesmo Jesus que diz para a mulher adúltera: “Onde estão os teus acusadores? […] Nem eu te condeno”, foi o mesmo que disse: “Vá, e deixe sua vida de pecado”.

Se permitirmos que o politicamente correto encubra a Verdade plena de Jesus em nossa vida ou em nossa sociedade por medo de ofendermos as pessoas, estaremos abandonamos a beleza redentora da cruz. Precisamos chamar pecado de pecado (a Palavra de Deus nos dá uma clareza sensacional quanto a isso); mas não com o dedo em riste pronto para acusar a todos, pelo contrário, começando a partir de nós mesmos, buscando um arrependimento genuíno que nos leve para mais perto da cruz de Cristo e nos faça reluzir a luz do céu nesse mundo escuro.

Trazendo outro exemplo, a igreja onde congrego fica localizada em um bairro muito pobre e exerce um trabalho fenomenal com as pessoas da comunidade. Estamos no meio do inverno e isso significa temperaturas assustadoramente frias (duas semanas atrás tivemos sensação térmica de -40 graus!!). Por isso esse é um tempo muito difícil para as pessoas sem-teto. Todo domingo de manhã, quando chegamos para o culto, passamos pelo hall de entrada lotado de moradores de rua e pessoas bem humildes. Eles vão até lá porque sabem que encontrarão um lugar quentinho e aconchegante para sentar, poderão tomar café, recarregar seus celulares, terão a dignidade de usar um banheiro limpo e, se desejarem, poderão se sentar e ouvir sobre a Bíblia sem receberem olhares de rejeição ou desaprovação da igreja. Quando olhamos por esse ângulo, o politicamente correto não é necessariamente algo ruim; parte da definição desse conceito é não excluir os marginalizados, ou insultar grupos de pessoas tidos como menos favorecidos.

Mas a verdade incontestável é que aquelas pessoas, assim como a cantora e como a mulher pega em adultério, estão em uma situação fragilizada por causa do pecado. Pecado deles próprios, pecados nossos como igreja e sociedade. A solução para esse dilema está na cruz de Cristo! Nela todos nós podemos olhar a feiura de nossos pecados e o altíssimo preço que foi pago para nos permitir ter um relacionamento com um Deus perfeito.

Em um mundo onde tudo é tão relativo, precisamos entender que há, sim, uma verdade absoluta, que se chama Cristo Jesus e que essa Verdade se fez carne e habitou entre nós. Ele é a ponte entre um Deus imutável e um mundo em constante mudança.

Fotografia: JJ Jordan on Unsplash

 

 

Escrito por

Seguidora de Jesus, Brasileira de Manaus-Amazonas, casada e feliz há 10 anos com um americano, homem de Deus (Aaron), mãe de três crianças lindas (Noah - 7 anos, e um casal de gêmeos de 5 anos - Julia e Benjamin). Compositora e cantora (amadora). Formada em odontologia há 10 anos, mas atualmente dedica-se em tempo integral à família e criação dos filhos. Não recusa um convite para uma boa prosa, ainda mais se tiver um cafezinho e banana frita! Mora com a família em Indiana, nos Estados Unidos.

2 comentários em “Entre pedras e perdão

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