Deixe entrar

Ela entrava sem bater na porta. Quando eu via, já estava na minha frente sentada à mesa, esperando por um chá ou apenas um olhar. Alguns minutos depois aparecia outra e, assim, quando eu menos esperava, tinha que parar o que estava fazendo e dar-lhes atenção. Tentava me comunicar e, de alguma forma, relacionar-me com essas que me visitavam. Ora por fotos, ora por mímica. Poucas palavras eu sabia, mas de uma coisa eu tinha certeza: por mais que na minha cabeça era um grande esforço, era isso que eu devia fazer -recebê-las em minha mesa.

E quando os visitantes eram pequeninos e curiosos? Entravam calados, olhos arregalados, observando cada detalhe, dos móveis a pequenos objetos espalhados naquela nova tenda, montada ali no seu bairro, poucos dias antes. Em suas cabecinhas deviam perguntar-se:  “Quem são estes que vieram nos visitar?” E na minha cabeça, eu tentava resolver: “Deixo-os entrar sempre ou coloco horário para recebe-los?” Afinal, eram vários, um entra e sai, manhã e tarde. Alguns abriam até a geladeira, perguntando o que eram aquelas novas comidas: verduras, frutas que não estavam acostumados a comer. Outros tentavam me ensinar os nomes de cada coisa em sua própria língua e, assim, vi logo que era uma oportunidade de aprender. Aprender com aqueles que a gente pensa que ensina, mas que na verdade temos muito mais a receber. Percebi que um e outro enchiam o bolso daquelas frutas que pareciam ser interessantes e suculentas. E agora? Deixar ou repreender?

Foram os primeiros meses de contato com aquelas pessoinhas com quem comecei a me envolver.

Só que ter de parar sempre o que estava fazendo para atendê-los me causou desconforto e, então, pensei em trancar a porta para resolver.  Afinal, é o meu tempo, meu espaço! Sentia-me invadida, não era bobagem. Egoísmo, talvez. Só sei que a minha face já estava mudando, e ao invés de um sorriso no rosto ao vê-los chegar, minha vontade era dizer: “Não pode entrar.” Isso estava me preocupando, o problema era comigo ou com eles que estavam entrando?

Mas como disse anteriormente, eles têm muito a ensinar e não somente a aprender, foi quando uma voz doce me confrontou: “Não abra apenas a porta da sua tenda, abra a porta do seu coração e deixe-os entrar”.

Mas e minha privacidade? Minha agenda? Minha rotina? Minha vida?

Deixei me levar por essa voz e aos poucos vi meu coração se encher de novas carinhas de olhinhos puxados, arregalados, prontos para ouvir o que eu quisesse falar.

Fui encaixando essas novas vidas na minha. Sentavam-se agora junto com meus filhos na hora dos estudos e leituras. Foi assim que começaram a ler pela primeira vez as histórias bíblicas. Enquanto cozinhava, conversávamos, me ensinavam a sua língua. E quando me dei conta, eles já faziam parte de mim. Vivi momentos preciosos e, por  certo, Jesus se fez presente ali.

E claro, quando queria o meu espaço, já não era mais um problema dizer: amigos voltem mais tarde que eu preciso de um tempo para mim.

E era assim que nosso Mestre Jesus fazia.  Após tantos encontros com aquelas multidões que ele atendia, precisava de um momento a sós, onde se refazia. Retirava-se para orar e revitalizar suas forças junto ao Pai.

Mas será que era isso que eu buscava, no tempo que dizia necessitar? Ou era apenas para me esconder de meu próprio egoísmo e falta de amor?

Abrir mão de nós mesmos pelo outro, isso sim é amor. E foi isso que Ele nos ensinou.

Até onde nossa privacidade é um esconderijo de nossos erros, ou uma necessidade saudável de relacionamento com quem nos conhece mais e está sempre disposto a nos atender? Ele nos recebe à mesa sempre que aparecemos, a fim de nos transformar a ponto de não mais nos preocuparmos se estamos ou não rodeados de olhos atentos a nos observar.

Escrito por

Sou Juliana, filha do Pai, 31 anos, formada em teologia, casada, mãe de uma garotinha e um garotinho. Dona de casa, homeschooler, morando atualmente em uma tenda no meio do deserto da Mongólia. Em constante aprendizado nas matérias; amor e serviço. Apaixonada pelos quatro citados acima, pela beleza da criação e pela singularidade das pessoas espalhadas por este mundo.

Um comentário em “Deixe entrar

  1. Uau! Ju!!! Que experiência e aprendizado impactante! E você, tão jovem, e ainda com uma rotina pesada com duas crianças em casa, demonstrou que tem uma alma ensinável e atenta aos ensinamentos do Mestre Jesus!

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