Meu Epitáfio

Meu Epitáfio

Minha mãe não envelheceu. Um câncer a levou aos 52 anos de idade. Meu pai partiu aos 76 em decorrência de complicações por causa do diabetes, mas vivia em outro estado, juntamente com sua segunda esposa e um filho de 18 anos.

Eu não vivi a experiência de cuidar de pais idosos, mas muitas pessoas que conheço têm passado por isso. É aquela amiga cuja mãe está numa fase ainda não tão avançada de Alzheimer; a outra amiga cujo pai ficou acamado por 7 anos, e que o viu partir recentemente;  a outra, cuja mãe já bem idosa, mas ainda com certa qualidade de vida, adoeceu, ficou mais de 1 ano na cama e também se foi recentemente. Neste último caso, essa amiga já tem mais de 60 anos e, antes de a mãe adoecer, ela cumpriu todos os requisitos de uma agência missionária para servir num país da América do Sul, mas teve de adiar seus planos.

Enfim, na minha faixa etária, tenho me deparado com inúmeros casos de pessoas que se veem numa situação em que: ou precisam ir morar com os pais, ou precisam trazer os pais para morar consigo, ou que precisam reestruturar toda a vida para cuidar de pais idosos e/ou doentes. Enfim… a vida é assim.

Aqui em casa tenho um combinado com minhas duas filhas (devo registrar que meu marido não pensa como eu). Se eu vier a envelhecer e ficar severamente enferma, seja do corpo ou da mente, elas podem, e devem, me colocar num “Lar de Idosos”, ou coisa que o valha, sem nenhum constrangimento ou consciência pesada. Vou adorar ficar com novas amiguinhas, “doces velhinhas” como diria minha sobrinha. De fato eu não quero ser um peso para as meninas, ou seus cônjuges, ou seus filhos. Só faço duas exigências: que o lugar tenha câmera 24 horas, para elas verificarem se não há ninguém me maltratando e, se eu ficar acamada e senil, que sempre se lembrem de colocar meia nos meus pés, porque sinto frio nos pés. Seria bom também eu ficar de cabelo escovado (podem até cortar bem curtinho pra não dar trabalho) e me passarem um batonzinho discreto, porque afinal estou velha, mas não morta! hahahaha

Quando eu morrer, prefiro que meu corpo não seja cremado, mas devem comprar para o enterro o caixão mais barato que tiver, pois não quero que gastem muito dinheiro com uma bobagem dessas. Quanto à questão da cremação, não tenho uma explicação muito plausível, a não ser que na Bíblia, livro que procuro seguir, não há nenhum caso em que o corpo de um morto tenha sido cremado em algum ritual fúnebre. Também gostaria que ninguém gastasse dinheiro comprando “Coroa de Flores”. Inútil isso. Seria muito mais útil pegar esse dinheiro e depositar como oferta de amor na conta de algum missionário.

Se alguém quiser falar algo sobre mim, que escreva uma frase ou um singelo cartão e entregue a alguém da minha família, e se for algo que gostaria de ter me falado, mas não deu tempo, que registre num papel e coloque na sepultura (se preferir pode até enviar uma mensagem, ou e-mail, pois ainda deverão estar ativos no dia da minha morte). Talvez alguém até chore, o que é normal, mas que o sentimento mais profundo seja de gratidão a Deus porque, um dia, ele me arrancou deste mundo tenebroso, com raiz e tudo, e me transplantou para o Reino do Filho do seu amor! Que as pessoas que estiverem no meu ofício fúnebre saibam não que eu “estou em um lugar melhor”, ou que “parti desta para a outra”, mas que, finalmente, deixei de ser uma peregrina, uma forasteira, uma apátrida, e que estarei enfim na minha Pátria de verdade, vivendo plenamente, sem dor, sem doença, sem choro, sem tristeza, porque Alguém me prometeu, e eu cri na promessa, que uma vez na Minha Pátria, toda a lágrima dos meus olhos seria definitivamente enxugada.

Ah, e quanto ao meu epitáfio, eu gostaria que fosse escrito algo mais ou menos assim:

“Aqui jazem os restos mortais de uma mulher que nasceu duas vezes, e que desde os 23 anos viveu tentando seguir, servir e obedecer a Jesus Cristo, seu Redentor, com quem está vivendo por toda a Eternidade.”

Bom, e como o mundo está tão global e interligado, devendo ficar ainda mais, podem até escrever a mesma frase em Inglês, em Árabe e em Espanhol, língua esta que aprendi a amar e a apreciar profundamente desde os tempos da faculdade.

 

Escrito por

31 anos de casada com um marido lindo! Duas filhas: Jessica (27) e Isabela (22). Agora que a Jessica se casou temos também o Daniel! Candanga, fiquei em Brasília até os 12 anos. Daí fui pra Recife, onde fiquei quatro anos. De lá fui para Anápolis onde fiquei nove anos. Daí casei-me e fui pra Goiânia, onde passei quatro anos. Voltei para Anápolis e lá vivi mais nove anos. Agora já são 19 em São Paulo. Se fizer as contas, descobrirá que tenho 57 anos! Pode-se imaginar que meu sotaque é uma bagunça! 2017 foi meu Jubileu de Prata trabalhando em Missões Transculturais! 25 anos tentando fazer o que o Senhor me chamou pra fazer. Foram nove anos com Asas de Socorro e já são 19 com a APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Amo demais o que faço. Forever!

29 comentários em “Meu Epitáfio

    1. hahahaha
      No meu caso, sinto calafrio por pensar que há tanta gente seguindo o caminho errado, achando que vai dar na Pátria Celestial, mas que no fim das contas vai dar no pior lugar que jamais existiu! 😥

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  1. Boa noite Minica. A paz do Senhor! Parabéns pelo texto escrito.
    Este texto está escrito com as mais profundas realidades da vida enquanto vivemos neste mundo e envelhecemos, há muitas histórias quando as pessoas envelhecem e depois morrem ,muitas São cuidadas pelas as pessoas da família outras não. Deus abençoe!

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  2. Simplesmente amo seus escritos. Não sei se é por causa da sua forma de escrever ou porque sempre está falando de você, de coisas corriqueiras da vida, coisas com as quais as pessoas se identificam. Que legal falar sobre sua velhice e sua morada definitiva. Muita gente não gosta de falar disso. Eu também acho muito importante este assunto. Obrigado por compartilhar sua maneira maravilhosa e livre de viver a vida.

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  3. Simplesmente amo seus textos. Não sei se é por causa da forma que você escreve (estilo) ou se é porque você sempre fala sobre você mesma. Talvez sejam os assuntos corriqueiros da vida que faz com que eu me identifique, mas eu acho mesmo que é por causa de todos estes motivos juntos. Na verdade, falar sobre seu próprio epitáfio parece não ser tão simples assim, e parece nem ser tão corriqueiro assim, mas nao podemos negar que todos os dias tem um montão deles sendo escritos por aí. Nem todos gostam de falar sobre isto, nem mesmo de ler sobre isto, mas eu não vejo drama nisso não. Conhecer um pouco de como deseja sua velhice e também sobre sua despedida para o lar definitivo é para mim algo importante. Eu também falo disto para minhas filhas e esposa, embora me pareça que ainda esteja no meio da caminhada, ninguém nunca sabe a hora que chega o barco desta inevitável viagem.

    Obrigado por compartilhar um pouquinho mais de você a esta comunidade, saiba que sua vida torna a vida de muitas pessoas mais fácil, simples e feliz.

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    1. De fato todo dia um montão deles está sendo escrito mesmo! Também não vejo nenhum drama em falar do assunto. Como o brasileiro em geral é muito supersticioso, é como se falar do assunto fosse “chamar” a morte, né?

      Curtido por 1 pessoa

  4. Já que quer à tradução em 500 línguas, precisa ser mais direta neste seu epitáfio: “Mônica nasceu duas vezes, e a partir dos 23 anos seguiu, serviu e obedeceu a Jesus Cristo, seu Redentor, com quem vive hoje e sempre!” Vou pensar no meu e depois compartilho! Rsrs

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  5. Assunto tabu na cultura brasileira. Mas concordo com você. Precisamos investir em lugares cada vez mais acolhedores para cuidar dos nossos idosos, inclusive de nós quando chegar a hora. Nunca faria isso com a minha mãe porque ela não aceita. Mas, penso que muitas famílias teriam mais qualidade de vida se os pais ficassem em lugares assim durante o dia e só passassem a noite com os filhos. Ou ficassem nesses lugares durante a semana e o fds na casa dos filhos. Em alguns casos, moraria direto nesses lugares. Mas precisamos romper com a culpa e investir, como sociedade, em estabelecimentos de qualidade e acessíveis. Precisamos de voluntários e profissionais. Precisamos de mudança de mentalidade e atitude de amor. Não se trata de “largar” os pais pra se livrar deles. Se trata de oferecer aos pais idosos uma estrutura que você não consegue dar na sua casa ou com suas habilidades pessoais. Por exemplo, tem pais que deixam os filhos na creche mas não “abandonam” os filhos. Acompanham de perto, supervisionam, aproveitam ao máximo quando estão em casa com as crianças, educam, dão amor e carinho, mas 8h por dia esse filho amado fica na creche. A lógica é a mesma com pais idosos. Os pais podem ficar na casa dos filhos e ainda assim serem abandonados emocionalmente ou fisicamente. Enquanto outros serão enviados a lugares especiais mas serão cuidados e amados por seus filhos.

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    1. Uau! Seu comentário deu um ótimo artigo pro tema deste mês, Tainise! Precisamos mesmo de mais lugares assim. Aqui em SP há, mas os custos são elevados. A ideia de passar o dia ou a semana e depois ir pra casa dos filhos é muito boa, a não ser em caso de acamados né?

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  6. Me emocionei ao ler suas palavras. Sabe quando lemos algo que até embarga nossos olhos? Então, foi assim que me senti ao ler suas palavras. Muitas pessoas têm medo de debater sobre a morte, por isso achei bem corajoso o que vc escreveu, pois ela um dia chegará ou para um ente amado ou para nós mesmas. Mas o que mais falou ao meu coração foi trazer à memória que devemos ter ciência de que a vida passa como um sopro e um dia estaremos na presença de Deus e que a despeito de como foi aqui, o mais importante foi que Deus nos permitiu conhecer a Cristo e (mesmo nas nossas falhas) viver para Ele… e que uma vida apenas vale realmente a pena quando isso acontece. A morte para nós? Será apenas um começo de uma eternidade com Ele. Muito lindo o texto. Beijos, Letícia.

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  7. Amei o texto amiga!
    A sua cara!
    Te conheço de Asas de Socorro, desde que Isabella ainda “morava” na sua barriga, Sempre foi transparente, amorosa e pronta pra servir!
    Espero que esse Epitáfio ainda demore muiiito pra ser escrito! Ou melhor: que nem precise, pois nosso Mestre está voltando e poderemos subir com Ele!
    Um grande abraço com muitas saudades!
    Glória Correa

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