My old Superman

Quando era pequena, eu tinha uma relação maravilhosa com o meu pai. Como temos a personalidade parecida, passávamos muito tempo conversando e conversávamos sobre tudo. À noite, eu e meus irmãos deitávamos na cama dos nossos pais e meu pai contava histórias que eram uma mistura de coisas que ele ouviu, viveu ou inventou. Isso não importava. O que importava era que adorávamos ficar ali escutando aquelas aventuras e imaginando aquele mundo encantado junto com ele.

Meu pai era mais próximo de nós porque ele era quem estava sempre passeando conosco, contando histórias, comprando presentes, incentivando nossa imaginação, leitura e criatividade. Ele era um herói pra mim e para os meus irmãos também.

Enquanto isso, minha mãe estava ocupada com alguma coisa em algum lugar. De vez em quando ela lia para nós, mas era bem raro. Lembro que eu gostava de ouvir o som da voz dela lendo e lembro exatamente das palavras dela quando orava conosco antes de dormir: “Dá-nos uma boa noite de descanso, guardados e protegidos pelo Senhor”. Ela trabalhava em casa com o meu pai (como autônomos) o dia todo e, quando terminava o expediente, começava a segunda jornada: fazer a janta, lavar a louça, garantir que tudo estivesse em ordem. Como eu sou a filha do meio e minha irmã nasceu antes que eu completasse dois anos, não me lembro de ser “o bebê” da minha mãe. Não me lembro de sentar no colo dela com tempo e sem pressa. Entenda-me! Ela não era uma mãe ruim ou ausente, só estava ocupada demais. Era ela quem tinha que garantir que a casa estivesse arrumada, a geladeira e a despensa cheias e a pia vazia. Naquela época eu não entendia e achava que ela não gostava de mim. Não entendia por que é que minha irmã mais nova tinha sempre colo e eu não.

Mas o tempo passou, eu cresci e as coisas mudaram. Apesar de amar demais o meu pai, comecei a ver nele aspectos que eu não gostava. Me ressenti da forma como o casamento deles acabou e ele saiu de casa prometendo voltar para nos levar com ele, mas não voltou. Até tentou uma época, mas não deu certo. E depois disso ele desistiu da ideia de morar novamente conosco. Mas não foi apenas isso. Ele simplesmente passou a viver a vida dele como solteiro, deixando minha mãe sozinha com três filhos, obrigando-a a procurar emprego novamente, depois de ter passado mais de dez anos trabalhando em casa com ele e cuidando da nossa família com total dedicação.

Passamos por maus bocados e se não fosse a graça do Senhor conosco, ai de nós! Graças a Deus que nos cercou de amigos, irmãos e familiares que nos estenderam a mão nessa época de extrema dificuldade.

Mas depois de muitas idas e vindas, acertos e desentendimentos, já quando eu tinha sete anos de casada, meu pai veio morar comigo. Doente, sozinho e debilitado. Era espantoso pra mim perceber como ele havia decaído em tão pouco tempo. Ele que sempre foi independente, dirigia, trabalhava, “se virava” e levou sua vida do jeito que quis, agora precisava de mim para quase tudo. Por causa do diabetes descontrolado, ele chegou aqui bem confuso mentalmente. Por diversas vezes me chamou pelo nome da minha mãe e chamava meu filho pelo nome do meu irmão mais velho. Ele não enxergava quase nada e por isso não podia mais dirigir. Deixava minhas canecas caírem e quebrarem, derramava os líquidos na mesa e no chão. Eu estava em um campo missionário, tentando auxiliar meu marido, com uma criança de três anos (que vale por dez) e um idoso de sessenta e três.

Nosso estilo de vida, horários e rotinas, se chocou drasticamente e os conflitos eram muito desgastantes. Eu não reconhecia mais aquela pessoa. Quando foi que meu pai se transformou naquele homem idoso, que não gostava de tomar remédios e não comia salada e que todo dia tinha uma lista enorme de “desejos” a serem atendidos? Como é que ele não percebia que estava sendo birrento, egoísta e acomodado?

É nessas horas que percebemos que não somos tão espirituais, desprendidos e evoluídos como pensamos ser. A presença do meu pai aqui me fez reviver traumas enterrados, ressentimentos não resolvidos, comecei a me deparar com emoções horríveis que eu nem sabia que tinha.

Era difícil dosar o “honra teu pai e tua mãe” com o “quem manda aqui sou eu.” Foi um ano longo e cansativo e vi, mais uma vez, minha natureza carnal sendo “revirada” por Deus. Eu tentava trabalhar em mim a disposição para servir, mas quando me dava conta, já estava murmurando. E ainda tinha meu filho, tão pequeno, mas já observando e percebendo tudo ao seu redor. Eu não podia ser um mau exemplo para ele.

O jeito era clamar como o publicano: “Oh, Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” É dentro de casa, junto daqueles que convivem conosco dia a dia, que nos mostramos da maneira que realmente somos, e só então percebemos o quanto precisamos ser tratados por Deus.

Somos acostumados a ser cuidados por nossos pais desde que nascemos e nada nos prepara para o dia em que tudo se inverte: nós precisamos cuidar, amparar, relevar os erros deles, as “malcriações”, sim! Muitas vezes nos comportamos como pais deles e eles, como nossos filhos.

Na minha experiência pedia a Deus que mantivesse sempre vivas na minha memória as lembranças de coisas boas que ele fez por mim e momentos felizes que passamos juntos. Assim seria mais fácil superar os momentos ruins.

Pedia também que Deus me renovasse e me enchesse de força e sabedoria para, ao final daquela prova, ser aprovada por Ele.

Quer saber com sinceridade? Eu acho que não fui aprovada. Errei muito mais do que acertei. Mas cresci. Foi um tempo de reconhecer ainda mais minha miséria, meu coração pecador e minha necessidade da graça de Deus. E assim prossigo, aguardando para ver o resultado final dessa obra que Ele está fazendo em mim. Sigo tentando superar minhas deficiências e em tudo ser sincera diante de Deus e daqueles que me cercam. Sigo na árdua tarefa de contemplar no espelho as minhas falhas e dizer: “pode fazer sua obra em mim, Senhor!”.

Escrito por

Mineira, 35 anos, casada há 9 anos com um lindo rapaz que conheceu aos 15, tem um filho de 4 anos que é um "colosso". Ela acredita que tudo isso é muito mais do que merece ou sonhou alcançar. É a graça enorme do nosso poderoso Deus. Atualmente serve ao Senhor na Missão Caiuá, no Mato Grosso do Sul, trabalhando com indígenas. Gosta muito de conversar, escrever e viajar.

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