Pais idosos? Eu te desafio!

pexels-photo-2586537-3Há uns cinco ou seis anos, eu estava no meu quarto e minha mãe perguntou o que seria bom para febre. Eu respondi, prontamente, mas depois fiquei pensando: quando eu era criança essa cena seria diferente! Eu é quem faria perguntas e ela é quem daria todas as respostas!

Comecei a perceber em meio a situações como essa que eles nunca souberam tudo, mas que enquanto eu precisei de “super-heróis”, eles o foram, mesmo que nunca tenham deixado de ser frágeis, falhos e pessoas simples que sonham.

Chega um tempo que, naturalmente, os papéis mudam. De repente os fortes heróis, dotados de toda a sabedoria, passam a depender dos seres que, antes, eram totalmente dependentes e frágeis.

Eu saí de casa pela primeira vez, para estudar no Instituto Bíblico Peniel. Foi o maior tempo que fiquei fora de casa até então, antes de casar. Foi muito estranho a cada retorno, num feriado ou férias, descobrir uma nova ruga ou fragilidade na saúde dos meus pais (coisas que de perto às vezes não reparamos).

Por vários momentos eu pensei: meus pais estão envelhecendo e eu não estou vendo. Será que fiz a decisão correta?

Eu tinha amigos preciosos, irmãos que Deus me deu, que os visitavam todo final de semana, mandavam fotos, cuidavam de seus medicamentos e me mantinham atualizada. Deus cumpre a Sua promessa de junto com a provação ou dificuldades, enviar juntamente o escape ou socorro! (1 Co 10:13)

Dois anos depois, estava no último ano do seminário, e recebemos a notícia de uma doença terminal que meu pai havia desenvolvido. Pelos diagnósticos médicos e estatísticas da ciência, não passariam de dois anos de vida.

Foi um choque! Mas infelizmente o choque maior não foi a dor de perdê-lo! Foi pensar que teria de mudar os “meus planos” para cuidar dele. Não era o que eu esperava! Não era o motivo pelo qual saí de casa. Inclusive, estava iniciando meu namoro com meu atual marido, e isso poderia influenciar diretamente num possível futuro ministério que nem tínhamos definido ainda e, até mesmo, se ele aceitaria casar com alguém que iria passar anos ou dias (quem saberia?) fora do que haviam sonhado.

Vários medos invadiram meu coração, pois eu sabia que não adiantava eu querer ir embora “salvar o mundo” e abandonar minha família.

Quando me formei, cinco meses depois, cheguei em casa e meu pai estava bem pior. Tanto eu quanto nossos irmãos em Cristo na igreja orávamos por sua cura. Afinal, há algo errado numa oração dessas? Em expressar os desejos do nosso coração ao nosso Aba Pai?

Um dia estava caminhando pela rua e li um testemunho de uma mulher que teve seu pai milagrosamente curado de um câncer. No meu julgamento, aquela pessoa não era merecedora da bênção, pois não tinha feito escolhas dentro da vontade do Senhor no curso de sua vida. E em meu coração, murmurei e disse ao Senhor: “por que ela e não eu? Se o Senhor curasse meu pai, estaria livre para a missão que tanto me esforcei para seguir!”

Naquela mesma hora o Espírito Santo me repreendeu! Eu estava me colocando no lugar de Deus, julgando o que Ele deveria fazer, quando e com quem! Ao invés de me alegrar com os que se alegram, meu coração egoísta e desumano estava pensando em seus próprios planos, ainda que fosse para o “Reino”. Não tinha onde esconder meu rosto! E nem precisava! Deus vê além das nossas aparências.

Então comecei a avaliar diante Dele o meu desejo pela cura do meu pai. Será que era para eu não ter de abrir mão de mim mesma a fim de devolver a ele o cuidado que me deu? Ou para ver seu bem e Deus ser glorificado?

Por meio dessa experiência, Deus foi me ensinando que não entendemos os porquês da vida. Que nossa visão é limitada a enxergar apenas um emaranhado de fios, e que Ele vê o bordado pelo lado certo! Seus propósitos são muito maiores que os nossos míseros planos! Ele cura ou não se quiser, e Sua atuação no mundo independe de nós.

Essa situação nos ajudou a olhar para uma outra possibilidade de ministério em minha própria igreja. O Senhor abriu uma porta para trabalharmos na igreja, meu marido foi convidado para pastorear, e eu poderia, enquanto o auxiliava, estar perto e cuidar do meu pai.

Pude cuidar dele até o último dia de sua vida. E Deus ouviu minhas orações sobre como gostaria de ajudá-lo naquele momento.

Foram dois anos visitando-o, não sabendo a próxima vez que o veria com vida. Levava-o duas vezes na semana a médicos, sessões de fisioterapia respiratória, entre outras coisas. Várias vezes eu não queria estar onde estava e ele nem sempre era grato pelo que fazíamos. Tinha que dividir minha vida de recém-casada (onde ansiamos por privacidade) e o novo ministério. Tive muitos momentos de refletir sobre as atitudes ingratas e egoístas do meu coração. Ainda assim, entendi que a missão que o Senhor havia me dado naquele momento era cuidar do meu pai. E não me interessava por quanto tempo, bastava obedecer.

Quando entendemos nossa missão, servimos ao próximo com dedicação e amor.

Eu não carrego a culpa de ter abandonado meu pai. Antes dele falecer, estava com ele no hospital, pude abraçar, dizer que o amava e me despedir. Tomei com ele minha última Coca Cola naquela tarde, mesmo que ele só estivesse aguentando olhar eu tomando. (a história da Coca explico um dia qualquer).

Ainda tenho minha mãe. Eles me tiveram mais tarde mesmo. Possivelmente você sendo da minha idade ainda não passou por isso, mas pode ser que seu tempo chegará.

Não sei qual foi ou qual é sua experiência com seu pai ou mãe. No meu caso, em relação ao meu pai, não fomos grandes amigos. Mais da metade da minha vida passei discordando dele e das suas escolhas e, no final de tudo, o Senhor me deu essa missão.

Apesar de nossas diferenças, era só em mim que ele confiava. Mesmo com meu jeito “fiona” às vezes, o amei, perdoei e nos entendemos. Não porque ele disse tudo que eu esperava que ele dissesse, mas porque Jesus nos perdoou antes que pedíssemos perdão.

Eu não estava pensando que meu pai morreria quando morreu, adoeceria quando adoeceu. Ele chegou aos setenta sem eu perceber, envolvida nos afazeres da vida.

Quando nossos pais envelhecem eles precisam ter onde ficar. Em geral, querem mesmo é ficar na casa deles. Alguns nem pensam em outra alternativa, contudo nunca sabemos o que pode acontecer.

Você planeja a sua vida pensando na velhice dos seus pais? Vamos ser realistas! Pensamos em casa própria, em dar um carro para os possíveis filhos que teremos e coisas assim.

Eu quero te fazer um desafio, principalmente se você é uma filha mulher. Como dito em Provérbios 31, a mulher virtuosa acolhe os necessitados e provê tudo para seus familiares. Como mulheres preciosas aos olhos do Senhor, devemos exalar esse perfume e brilho até o fim, dar graça onde não se sente que a recebeu, e dar amor onde achou que faltou. Pois afinal de contas, o que fazemos é sempre para o Senhor, e Ele é a fonte da graça, do amor e de tudo que precisamos para viver.

Escrito por

"Uma quase Campineira, casada com um baiano que conheceu no Instituto Bíblico Peniel, onde se formaram em Teologia, e uniram duas culturas diferentes, o que tem tornado suas vidas mais empolgantes e cheias de amor. É psicóloga, gosta de ler, ouvir boa música, apreciar o pôr do sol e tomar uma Coca com amigos. Nos últimos 2 anos, serviram ao Senhor em Campinas/SP, onde seu marido foi pastor auxiliar, de jovens e adolescentes. Agora, decidiram continuar o treinamento para o trabalho missionário com povos transculturais. Ambos desejam alcançar os que ainda nunca ouviram falar sobre Deus."

5 comentários em “Pais idosos? Eu te desafio!

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