A chave que abre a porta

Eu e o meu esposo tivemos o privilégio de servir a Deus no Egito. Chegamos ao Cairo em julho de 2004, cheios de sonhos e boas expectativas. Moramos num lindo apartamento espaçoso com vista para o rio Nilo. Nosso principal meio de servir àquela nação e o corpo de Cristo foi através de nossos dons de liderança e da nossa hospitalidade. Nossa casa estava sempre cheia! 

De um jeito que não havíamos imaginado foram dois anos frutíferos. Mas tivemos que aprender a honrar a Jesus em meio à perseguição e doenças. Logo nos primeiros meses eu comecei a ter crises intensas de alergia que me impediam de sair de casa. Quando as crises alérgicas passavam, alguma outra doença aparecia e me limitava fisicamente, até que o sofrimento pareceu insuportável, para nós dois. Por mais que tivéssemos convicção da importância do que estávamos fazendo ali, nos sentimos encurralados e sem saída. Quando achávamos que tínhamos chegado ao fundo do poço, começamos a orar assim: “Deus, ou você me cura ou me leva embora daqui!”.

Não me lembro de um momento nesses vinte anos de ministério e dezoito de casamento em que eu e o meu esposo estivemos tão unidos. Nós buscamos a Deus juntos e fervorosamente como nunca antes. E a resposta veio, mas não foi bem o que esperávamos. Deus disse um alto e claro ESPEREM. Até hoje consigo me lembrar da dor que senti por ouvir essa resposta. Não se tratava apenas de não aguentar mais as doenças. Eu não aguentava mais a humilhação e a pressão das pessoas que nos conheciam para que voltássemos ao nosso país. Pela lógica eu tinha que voltar para o Brasil. E contra todas as possibilidades, o deus da lógica perdeu. Nossa família, pela graça de Deus, se submeteu à voz do Senhor.

Você deve estar pensando: “Como é que foi? Qual milagre Deus fez quando vocês obedeceram? Deus te curou? As pessoas começaram a te apoiar emocionalmente e incondicionalmente?”. Não mesmo! A nossa obediência foi o milagre. Ninguém é capaz de obedecer a Cristo pelas próprias forças, ainda mais em situações extremas. E esse foi só o primeiro milagre de muitos outros nos anos seguintes. Jesus me curou cinco anos mais tarde. Três meses após a ordem de Deus para esperar, eu fui surpreendida em um interrogatório de quase três horas e forçada pelas autoridades egípcias a deixar o país, sem poder me despedir de ninguém ou de pegar as minhas coisas em casa. Quando chegamos ao Brasil, as coisas ficaram ainda mais difíceis em nossa vida e ministério. Inclusive as minhas doenças pioraram. Levei mais dois anos pulando de médico em médico, de tratamento em tratamento, até encontrar o adequado. Foram mais dois anos até eu ficar curada.

Todos nós queremos viver os milagres de Deus e, lá no fundo, esperamos uma certa proteção de Deus por tomarmos a decisão correta. Deus nunca prometeu isso aos seus filhos, mas a nossa natureza egocêntrica assim como a cultura exercem uma grande influência na forma como enxergamos a Deus, a sua Palavra, o seu Reino e o nosso papel no mesmo. Ainda bem que Ele, amorosa e pacientemente, vai nos libertando dessas visões distorcidas.

Ele tem sido bem paciente comigo. Depois de ter tomado uma decisão correta e difícil no Egito, tomei várias decisões erradas. Mesmo assim a soberania de Deus me guiou, assim como o seu amor leal. No final, não se trata em quão bons somos em tomar decisões, mas da obra de Cristo em nós, da promessa de completar a obra dele em nossa vida, nos transformando a cada dia, e de seus propósitos eternos para todas as nações. Jesus é a chave que abre todas as portas, e também que as fecha. Podemos confiar que, quando somos fracos, Cristo dá conta do recado. Podemos nos alegrar por saber que quando acertamos em nossas decisões, é o Espírito gerando seu fruto em nós e nos fazendo crescer para a glória de Deus, nos levando a cumprir uma missão que vai além de nós mesmos e do que podemos compreender.

Oito anos após a experiência de ser expulsa de um país, Deus foi muito gentil comigo e me levou de volta às ruas do Cairo. Foi um milagre! Eu decidi que nunca mais voltaria, mas por motivos de trabalho fui obrigada a fazer um treinamento de três semanas lá e não encontrei nenhum impedimento, tive o visto e saúde abundante. É claro que Deus usou essa breve viagem para lançar luz a outras áreas escuras do meu coração, e me provou de outras formas. Tudo decisão de Deus, não minha. Tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele (Filipenses 2:13).

Escrito por

Tainise, carioca de 41 anos, casada há 18 com o Orivaldo, que é de Bauru (SP), e mãe do Kyle (5 anos). Conheci meu esposo na agência missionária Jocum (Jovens com Uma Missão), onde servimos a Deus por dez anos. Sou formada em Letras (Português-Árabe) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e congrego na Igreja Presbiteriana do Brasil, no Rio de Janeiro. Jesus me chamou para escrever (e ministrar) sobre sexualidade para mulheres cristãs. Em 2018 comecei o blog http://tainise.com.br/ como uma forma de cumprir meu chamado para encorajar e mentorear. Sou extremamente informal, gosto de sentar no chão, andar descalço e brincar com crianças. Também curto falar inglês, conhecer pessoas de outras culturas e me sinto realizada quando conecto as pessoas umas às outras.

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