Que eu saiba qual é a voz

Lá estou no tatame lutando para ganhar a medalha de ouro. Olho para o Sensei, ele dá instruções, mas meus olhos se desviam e pairam na gritaria ao redor.  Começo a prestar atenção nas pessoas, suas expressões, sugestões e broncas. A maioria nem sequer sabe o nome dos golpes. Nem sei porque estou olhando para elas. Vou ficando irritada, já não queria estar ali e começo a ficar com raiva da minha adversária, apesar de ser minha amiga. Tem a mesma idade, 10 anos, e conversamos sobre tudo nos intervalos dos treinos de Judô. Fico feliz pela amizade. Ela nunca me venceu nos treinos e damos risada juntas, mesmo quando eu a derrubo, entretanto, agora ela é minha adversária. Ambas querem ganhar. Não é nem pela medalha de latão pintada de dourada e que leva o nome de “ouro”, mas pelo reconhecimento. A gritaria das pessoas ao redor aumenta. Me distraio com elas e sou derrubada. Levanto frustrada e com mais raiva ainda. O Sensei implora que eu olhe para ele, mas tanto meus olhos como meus ouvidos se desviam para a multidão. Sou derrubada novamente! Depois mais uma vez. Final de campeonato! Quero chorar, mas seria mais frustrante ainda. Seguro as lágrimas. Vários me procuram pra falar que eu deveria ter escutado seus conselhos. Todos sábios aos seus próprios olhos, prontos a falar. Mas talvez o problema foi esse.

É interessante como certas lembranças são tão vivas mesmo depois de tantos anos. Lembro nitidamente dessa luta que perdi, mas não lembro das demais que venci. Acho que um dos principais motivo é o ego que estava no tatame. O mesmo ego presente em discussões, debates e posições.

A multidão ao redor triplicou. Sou cobrada de ter opinião sobre tudo. Preciso me revoltar com os assuntos mais comentados e não basta guardar para mim ou conversar com amigos próximos sobre, é preciso expor, escrever, defender postar a todo custo. Eles estão ao redor gritando, obrigando, cancelando.

Meu maior adversário sou eu! Buscando em lugares onde não há sabedoria. Onde todos estão prontos a falar, a repetir, a ir em debandada e me levarem. Meu ego gosta, se sente aprovado, se sente importante.

Da mesma forma que esqueci de olhar o Sensei, esqueço de olhar para Ele. Perguntar se devo expor minha opinião sobre determinado assunto. Se devo ir em frente com alguma discussão ou se devo me recolher. Se aquilo que estou debatendo dará fruto. Se agora é o momento de ter coragem e defender algo que creio, ou melhor sair de cena.

No meio de tanto barulho, tantas pessoas, algumas usando nosso nome, quero apenas fechar meus olhos, me concentrar na sua voz. Me deleitar em sua Palavra que rasga meu coração e me mostra as mais profundas intenções.

Talvez esteja sentado lá atrás da multidão. Talvez não me diga nada, mas sua presença acalme meu coração, silencie meus pensamentos, meu ego justiceiro pecaminoso que teima em querer um pódio que não é dele!

Talvez eu largue aquela luta sabendo que o Reino não é ser o primeiro. Talvez me contente em sentar ao seu lado ao invés de querer uma medalha tola e aplausos fúteis. Talvez aguarde para entrar apenas em combates que você está e que seu nome estará como campeão mesmo que enfureça a muitos. No meio dessa gritaria, peço para me ajudar a diferenciar a sua voz! Que eu sabia qual é!

Escrito por

Sou a Polly Lee "A experiência é uma professora cruel, mas você aprende. Meu Deus! Como você aprende!" (C.S.Lewis)

2 comentários em “Que eu saiba qual é a voz

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