A vizinha do cílio branco

No meu texto anterior compartilhei a ansiedade em mudar de casa para um apartamento pela primeira vez na vida, e ter que lidar com um monte de regras, necessárias para a boa convivência em condomínio, e com vizinhos sempre por perto – muito perto! Também recomendei uma excelente leitura sobre a arte de ser um bom vizinho. Acho esse um ponto bastante pertinente: afinal, quando vamos nos mudar de bairro sempre buscamos referências de uma boa vizinhança. Todo mundo quer ter um bom vizinho… mas e quanto a sermos bons vizinhos? Confesso que essas são preocupações reais hoje, mas naquela época, de verdade, eu tinha receio de ser a vizinha que ninguém sabe o nome e acaba sendo identificada com alguma descrição bizarra (“sabe a vizinha do 23B?” “Aquela que tem cílio branco?” “ELA MESMA!!!”).

Meu receio parece bobo, mas ele não era infundado: naqueles dias eu trabalhava fora e passava a maior parte do tempo viajando. Ou seja, eu circulava pelo prédio lá pelas 4 da manhã, saindo para o aeroporto, ou lá pela meia-noite, voltando do aeroporto, e no pouco tempo que me sobrava havia prioridades: o marido, a família e lavar a roupa para trocar de mala. Porém, mais rápido do que imaginava, minha vida tomou outros rumos e, de repente, eu passei a ser uma dona de casa em tempo integral e tinha um cachorro. Isso tudo contribuiu para que eu circulasse com mais frequência pelo prédio e pelo bairro, e sempre tinha alguém com quem eu batia um papo (sem contar as reuniões de condomínio!).

Se você me perguntasse, eu poderia listar o nome de muitos dos meus vizinhos, o número de seus apartamentos, o nome dos seus cachorros (inclusive se eram amiguinhos do Napoleon ou não), talvez soubesse o carro que dirigiam e as vagas de garagem que ocupavam. Mas esse é um ponto interessante: saber quem os outros são NÃO significa que temos um relacionamento com eles. Para saber coisas sobre seus vizinhos basta ficar na janela algumas horas por dia… conhecê-los é totalmente diferente.

No livro de Marcos (5:24-34), quando Jesus é tocado por uma mulher que há doze anos sofria de hemorragia, Ele sabia quem o havia tocado. Mas ele se vira, circula os olhos pela multidão e pergunta: “quem me tocou?”. Sua natureza divina lhe permitia saber o que se passava com cada uma das pessoas que estavam à sua volta, mas ele insiste: “QUEM ME TOCOU?”. Aquela mulher tinha ido ao encontro de Jesus, esperançosa de que ele pudesse curá-la depois de ter gasto todo seu dinheiro em médicos que não puderam ajudá-la; ao contrário: sua condição piorava cada vez mais. Ela não queria mais nada. Não queria atrapalhar. Não queria ser notada. Só queria ser curada e continuar a viver sua vida com um pouco mais de tranquilidade. “Serei curada e irei embora”, ela deve ter planejado no seu íntimo. Jesus, porém, não ia deixar que ela fosse sem que antes falasse com ele. Essa é uma atitude declarada de quem busca relacionamento – e os relacionamentos que Jesus quer não são relacionamentos superficiais. Jesus não quer que sejamos apenas conhecidos: saber o número do apartamento, o nome do cachorro e o carro que dirigimos não é suficiente. E, da mesma forma, somos chamados a desenvolver relacionamentos genuínos com nossos vizinhos.

Se prestarmos atenção nos Evangelhos, vamos perceber que Jesus se interessava, de fato, pelas pessoas que cruzavam seu caminho e engatava altos papos com qualquer pessoa (lembram do diálogo com a mulher samaritana, descrito em João 4?). Não é necessária nenhuma ocasião especial para engatar uma conversa com seu vizinho. Se você identificar uma situação em que ele precisa de ajuda, ajude-o. Um rápido encontro no hall? Desejar “bom dia” ou perguntar “oi, tudo bem?” operam milagres! Pequenas gentilezas abrem portas para conversas que podem ser divertidas, interessantes, produtivas e, quem sabe, muito profundas. Para isso, precisamos vencer o comodismo, sair da zona de conforto, vencer a procrastinação e deixar de lado as distrações e as desculpas. Seja intencional, não desperdice as chances e não se frustre se as conversas não saírem como você esperava. No próximo post vamos tratar desse assunto. E só pra encerrar a questão de uma vez por todas: sim, eu tenho cílio branco.  

Crédito: Imagem de Bernard CESSIEUX por Pixabay

Escrito por

Brasileira por nascimento e espanhola no passaporte, casada com o Marco Antonio, cristã desde os sete anos de idade. Já trabalhou como enfermeira, manicure, maquiadora, contabilista, auditora e modelo plus size. Viajante frequente, após doze anos como executiva de Auditoria, descobriu que precisava de uma pausa para repensar a vida e redefinir as prioridades. Gosta muito de redes sociais, é apaixonada por tudo que faz e super curtiu quando o Facebook lançou as reações, principalmente o "amei".

2 comentários em “A vizinha do cílio branco

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