Fura balão

Se você leu o último “Da minha Cabeceira” e meus dois posts anteriores, sobre ser um bom vizinho, e experimentar relacionamentos saudáveis com aqueles que moram na mesma rua ou no mesmo prédio, deve ter sentido um quentinho no coração. “Isso seria muito legal!” Pensou nos seus vizinhos – com alguns você até mantém contato frequente, já outros você mal reconhece na rua (especialmente agora, com todo mundo usando máscara) – mas decidiu abraçar o desafio de estabelecer um relacionamento genuíno com eles. Na sua cabeça, talvez já tenha planejado um belo piquenique no parque: lanches gostosos, sucos coloridos, os homens conversando sobre o campeonato brasileiro, as crianças se divertindo com bolinhas de sabão enormes, brilhantes, e você e a vizinha – sua nova amiga – estão organizando os comes e bebes pra compor um cenário mais do que instagramável. Há flamingos, bexigas douradas, costelas-de-adão verdíssimas e abacaxis com canudinhos (de papel) pra todo lado. Influencer nenhuma bate a decoração que vocês, juntas, montaram. Ninguém usa máscara, afinal a pandemia já passou e todos estão aliviados por poderem se reunir de novo.

Com essa cena em mente, você se empolga e aproveita cada oportunidade para conversar com sua vizinha. Sorri seu melhor e mais largo sorriso e dispara um “bom dia!” bastante convicto. A vizinha devolve o bom dia e o sorriso, mas tudo parece bastante técnico. No dia seguinte, você usa outra tática e usa o “como vai?” na esperança de que a vizinha lhe devolva um “bem, e você?”. Essa vai ser sua chance de engatar uma conversa despretensiosa enquanto ambas cuidam de seus respectivos jardins. A vizinha continua dando suas respostas técnicas: ela sorri e diz “estou bem, obrigada”. Você não se deixa abater e continua tentando se aproximar da vizinha, mas, a essa altura do campeonato, suas expectativas diminuíram – foi como se alguém tivesse furado o lindo balão dourado que você já ia encomendar online para o tal piquenique. Frustrada, você decide: “vou ficar na minha e fingir que isso nunca aconteceu. E nada de inventar moda e querer ser a legalzona da rua!”.

Eu também tive esse medo quando me mudei para um prédio pela primeira vez, logo depois de casar. Antes eu vivia na casa dos meus pais e, na minha cabeça, os vizinhos eram vizinhos dos meus pais e não meus. Agora, conduzindo meu próprio lar, tive que encarar a dificuldade de me conectar com famílias que, literalmente, me cercavam. Eu passava muito tempo viajando, me sentia intimidada em frequentar as áreas comuns (piscina, academia, sala de pilates), nunca participei da confraternização de fim de ano do condomínio e nem da Assembleia (sobrava para o marido, coitado). Pra piorar, eu tinha passado por algumas experiências ruins, como a que tive com um morador que me xingou enquanto eu usava a lavanderia do prédio sob a acusação (infundada) de ter mexido nas roupas dele. Meu medo não era só de não ser correspondida mas de ser categoricamente rejeitada. Ninguém é obrigado a gostar de mim, eu sabia disso e preferia não correr o risco. Então chega o Napoleon, um bichon frise muito fofinho e que adora outras pessoas e animais, é apaixonado por crianças e curte longos passeios. Ou seja, fui obrigada a sair da toca e enfrentar o mundo que, como descobri, é cheio de cachorreiros como eu. Filhote e curioso por natureza, Napoleon queria interagir com todo e qualquer cachorro que cruzasse nosso caminho. Não tive escolha a não ser começar a interagir com os vizinhos cachorreiros e, pouco a pouco, fui descobrindo quem era quem (frequentemente você aprende o nome do cachorro antes de descobrir o nome do dono. Não perguntem… risos). Alguns vizinhos não me deram bola; sei os seus nomes, conheço seus bichinhos, mas nossos relacionamentos não passam de “bom dia” ou “boa noite”. Com outros aconteceu exatamente o contrário! Até a síndica (que não tem cachorro!) se tornou nossa amiga e sempre que nos falamos durante a quarentena mencionamos a saudade de aglomerar com eles pra comer pizza.

Em Lucas 19, quando Jesus passa pela cidade de Jericó atraindo uma grande multidão, vemos que Ele se acerca de Zaqueu, um homem impopular por ser cobrador de impostos do governo romano. Sabendo de sua disposição em conhecê-lo, Jesus diz que quer se hospedar na casa dele – e o homem ficou radiante (diz o texto bíblico no verso 6 “com alegria, recebeu Jesus em sua casa”). Quando lembramos da mulher samaritana (ela de novo! que relato maravilhoso em João 4), vemos que Jesus, cansado e sedento, aborda a mulher na expectativa de que ela lhe desse de beber. A mulher é pega de surpresa porque judeus desprezavam samaritanos: “como é que me pede água para beber?” (v.9). Os próprios discípulos foram pegos de surpresa (v.27) ao ver Jesus conversando com aquela mulher. Ainda nos Evangelhos, quando Jesus envia os 72 discípulos para cidades que Ele futuramente planejava visitar (Lucas 10), ele dá instruções para que os discípulos não se detivessem em locais onde não fossem bem recebidos. Ao contrário, que colocassem seus esforços para abençoar os lugares onde fossem acolhidos.

Esses detalhes dos Evangelhos nos revelam que durante seu ministério, Jesus se aproximava de homens e mulheres que estavam pré-dispostos a conhecê-lo e a ouvir o que Ele tinha a dizer. É um fato que, sendo homem e sendo Deus, Jesus conhecia a disposição do coração de cada uma das pessoas que encontrava e nós, seres humanos, não temos tal capacidade. Mas é justamente por isso que precisamos correr o risco, sair de nossa zona de conforto, e tentar encontrar em nossos vizinhos a reciprocidade que é importante para estabelecer um relacionamento saudável. O vizinho de um lado pode não estar muito interessado em interagir com você, mas e o vizinho do outro lado? Às vezes a família que mora no mesmo prédio não vai se tornar amiga da sua família; mas talvez a família da casa da esquina está aberta a ter um relacionamento com vocês. Se você tem filhos, é possível que o casal aposentado da porta ao lado não compartilhe dos mesmos interesses que você tem em home schooling, discovery kids e brincadeiras com massinha; mas se você circular pela brinquedoteca do seu prédio vai encontrar outras mães que podem se tornar até uma rede de apoio pra você. Não tenha medo. Ou melhor, vença o medo.

Crédido da imagem: Tabeajaichhalt via Pixabay

Escrito por

Brasileira por nascimento e espanhola no passaporte, casada com o Marco Antonio, cristã desde os sete anos de idade. Já trabalhou como enfermeira, manicure, maquiadora, contabilista, auditora e modelo plus size. Viajante frequente, após doze anos como executiva de Auditoria, descobriu que precisava de uma pausa para repensar a vida e redefinir as prioridades. Gosta muito de redes sociais, é apaixonada por tudo que faz e super curtiu quando o Facebook lançou as reações, principalmente o "amei".

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