Tá difícil

Eu nasci em Brasília, em 1963. Só essa informação já dá uma ideia do que eu vivi até hoje.

Quando pequena, de férias na casa de meus avós paternos em Olinda, Pernambuco, fiquei amiga da Gracinha. Ela era filha da Tonha, que trabalhava para a minha avó. Éramos praticamente da mesma idade e ficamos muito amigas. A mãe era branca, e ela, que saiu ao pai, era… moreninha, negra, afrodescendente, preta… Nem sei como descrevê-la, hoje em dia, pois usando o termo errado, posso ser taxada de racista e até ser cancelada*.

Uma pessoa da família, naquele dias, ao ser questionada sobre ser racista, respondeu: “Eu não sou racista não! Só não gosto de passar a mão no cabelo da Gracinha.

Antes de completar 15 anos, com muita insistência, meu pai me deixou ir a um baile de carnaval, no Clube Português, no Recife, com os meus tios, que sempre compravam uma mesa para os dias de folia. A orquestra animava o baile a noite toda, e as letras de algumas músicas eram cantadas por todos os foliões: “O teu cabelo não nega, mulata… Mulata eu quero o teu amor”, “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?”; “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia, qual é o pente que te penteia?”; “Maria sapatão, sapatão, sapatão, de dia ela é Maria, de noite é João!”

Só de digitar esses trechos de músicas, me sinto super desconfortável, afinal, os dias são outros. Se hoje alguém escrevesse uma letra assim, certamente seria “trucidado” virtualmente, além de processado por racismo ou homofobia.

Mudando de assunto… No dia 25/12/2020 em pleno Natal, eu estava em busca de um vídeo no YouTube e não achava de jeito nenhum. Então digitei o nome “Jesus” (somente essas cinco letrinhas) e o resultado me deixou irada-irritada-estarrecida. O primeiro vídeo que apareceu, no topo da página, tinha o título “Jesus Hetero” de um certo canal “de humor” brasileiro. Acredite se puder. Ao invés de aparecer, por exemplo, o filme do Franco Zeffirelli, ou mesmo a novela da Record TV, aparece aquilo.

Se eu começo a postar minha crença religiosa, em cujo centro está a pessoa de Jesus, homem-Deus, Deus-homem, aparecem vários críticos de plantão, e corro o risco de ter minha página bloqueada por algum tempo, por causa de denúncias de que aquele conteúdo foi ofensivo a alguém. Se eu digitasse “nem os efeminados, nem os sodomitas (…) herdarão o reino de Deus”, que é um fragmento do Livro Sagrado da minha religião, creio que tal post não duraria duas horas até ser bloqueado.

Recentemente, um respeitado e reconhecido médico norte-americano, oncologista e cirurgião, que já serviu nas forças armadas em conflitos no Oriente Médio, começou a tecer críticas severas, com grande repercussão nacional e internacional, a temas atualíssimos, como a (in)credibilidade ante as vacinas contra o vírus do número antecessor ao 20, o perigo da tecnologia 5G, ou o uso daquele remédio conta esse vírus, cujo nome começa com a letra “H”. Quase que imediatamente os vídeos dele foram tirados do ar, e ele anda sendo perseguido por vários setores poderosos que estão por aí.

Mas por que eu falei três assuntos aparentemente desconexos em parágrafos aparentemente incoerentes? Explico. Do fundo do meu coração vem meu desabafo (repeti o pronome possessivo duas vezes intencionalmente): tá difícil falar, tá difícil opinar, tá difícil pensar! São olhos gigantes em satélites, em algoritmos e em “buscas” que ficam rastreando tudo que fazemos. E por que isso? Pra que eu e você sejamos enquadrados em determinadas categorias que definirão quem somos e como devemos ser “tratados” pela sociedade, pelos formadores de opinião, pelo mundo.

Até onde vai a nossa liberdade de expressar o que pensamos, no que cremos ou o que sentimos? Qual o limite?

Fica essa pergunta, tão retórica quanto possa parecer. Quem sabe você tenha uma ótima resposta que nos ajude a sair deste buraco tão fundo e apertado – ser um brasileiro, vivendo em 2021 d.C – onde fomos nos meter?

Escrito por

32 anos de casada com um marido lindo! Duas filhas: Jessica (27) e Isabela (23). Agora que a Jessica se casou temos também o Daniel! Candanga, fiquei em Brasília até os 12 anos. Daí fui pra Recife, onde fiquei quatro anos. De lá fui para Anápolis onde fiquei nove anos. Daí casei-me e fui pra Goiânia, onde passei quatro anos. Voltei para Anápolis e lá vivi mais nove anos. Agora já são 19 em São Paulo. Se fizer as contas, descobrirá que tenho 57 anos! Pode-se imaginar que meu sotaque é uma bagunça! 2017 foi meu Jubileu de Prata trabalhando em Missões Transculturais! 25 anos tentando fazer o que o Senhor me chamou pra fazer. Foram nove anos com Asas de Socorro e já são 19 com a APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Amo demais o que faço. Forever!

9 comentários em “Tá difícil

  1. Excelente texto Mônica!!!
    Tudo muito verdadeiro, e penso que éramos felizes e não sabia. ( sempre falava isso na época da faculdade, já na década de 90).
    Na minha opinião não existe mais liberdade, hoje somos prisioneiros de um sistema, e a única forma de liberdade está em Cristo!!!

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  2. Mônica, ser um Brasileiro vivendo em pelo século XXI no ano 2021.
    Creio que continuará sendo sempre uma pergunta e talvez encontre alguma resposta também retórica.
    Mas o mais sensato pra mim…será aliar se avocê com estes testos intrigantes, e verdadeiros que sem saber a resposta por você proposta mas que nos dá fôlego para continuar e iniciar mais um ano.
    Que venha 2021 Deus nos responderá.

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  3. Uau!!! Ótima reflexão!!! Vou sempre testemunhar do meu amor maior Jesus Cristo!!! Pois Ele é tudo no meu viver!!! Me ama incondicionalmente!!! Nunca desistiu de mim!!! Creio q vai ser “difícil 2021 d.C” mas a minha esperança é Jesus!!! Parabéns

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  4. Parabéns pela explanação, amada Mônica! Seu texto veio trazer luz ao emaranhado de sofismas e confusões que se têm levantado contra a ética, a moral e tudo que permeia a verdade de DEUS! Numa das respostas que você deu a um comentário aqui, me fez lembrar do que disse JESUS: “Quando essas coisas começarem a acontecer, exultai e levantai a cabeça, porque a vossa redenção se aproxima.”
    Lucas 21:28

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  5. Primeira quero parabenizar pelo Blog e em segundo por esse texto que contém tantas verdades ! São tempos difíceis… E muitos ainda virão , creio que estamos vivendo o “princípios das dores” que Deus nos mantenha fortes e firmes em Cristo Jesus. Grande beijo. Denise

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