O hamster, o rato e os tagarelas

shallow focus photography of white rodent
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Em meados de 2013 eu finalmente percebi a minha desordem emocional. Noites seguidas de insônia e a forte angústia que sentia o tempo todo me levaram a entender que havia dentro de mim uma preocupação excessiva com o que aconteceria amanhã. Diante das responsabilidades que assumi no jornal impresso onde eu atuava, buscava fazer o trabalho com esmero mas sempre parecia ser um esforço insuficiente. E assim eu perdia o sono pensando no que podia ter feito diferente. De manhã, de tarde e de noite, em todas as gavetas que eu abria nos pensamentos, havia a necessidade de antecipar e controlar possíveis cenários futuros, que na maioria das vezes nunca chegaram a se concretizar. Ou seja, vivia numa roda de hamster: correndo, suando, porém sem chegar a um lugar satisfatório. Sem saber o que fazer com esse minicaos, deixei de lado velhos preconceitos e recorri à Terapia Cognitivo-Comportamental. Após algumas sessões, a psicóloga trouxe o diagnóstico: Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Como assim?! No início fiquei assustada. Como uma pessoa cristã pode ser ansiosa? Como explicar esse comportamento, se Jesus cuida de mim e das pessoas ao meu redor? E por que preciso tomar remédio pra ansiedade, se o Senhor pode me curar? Essa última pergunta foi a mais difícil. Rs. Naquele momento, entendi que eu havia ultrapassado os meus limites ao longo de vários anos e precisava seguir o tratamento (ferramenta divina para a cura). Ao mesmo tempo necessitava adquirir novos hábitos: dormir mais cedo, reduzir a ingestão de café, usar uma agenda e praticar atividade física com regularidade. Claro que eu falhei (e ainda falho) no respeito a essas regrinhas, mas fui descobrindo alternativas pra desacelerar a mente. Duas dessas receitas são a corrida de rua e a contemplação da criação, principalmente do nascer e do por do sol. Mas não pense que é fácil pra mim aquietar a alma, mesmo quando decido relaxar. Quer ver? Leia rapidinho essas duas histórias.

 Rato’s running

 Era noite e eu estava animada correndo na pista de um parque em Manaus, embora o cheiro não fosse dos melhores, visto que o parque está ao lado de um dos principais córregos poluídos da cidade. Havia uma reforma em curso naquele local, o que trouxe alguns entulhos às bordas do percurso. Em certo momento, quando corria ao lado dos materiais de construção, vi um ratão correndo de um lado a outro da pista. Um roedor asqueroso que tentou me intimidar com sua imponência (tenho pavor!) e velocidade. Naquela hora, pensei: “Vou embora, seu nojento! Esse lugar não comporta nós dois”. Mas passados alguns segundos, percebi que não faria sentido desistir. Precisava mesmo era encará-lo, afinal eu fiz um esforço pra estar no parque aquele horário. Então permaneci correndo e toda vez que passava pelos entulhos, acelerava o máximo que podia. No final das contas, concluí o treino em um tempo ótimo (valeu, rato!) e estava com a cabeça mais leve após um dia agitado. Naquela noite, aprendi que os obstáculos surgem até mesmo na hora do lazer e que preciso perseverar na busca pelo descanso. Afinal “tempo sabático” é princípio de Deus para aquietarmos a alma e ouvir a Sua voz.

Os tagarelas

 Sentei na cadeira do avião desejando dormir. Estava prestes a enfrentar dez horas de voo entre Toronto e São Paulo e havia planejado aquele soninho depois de uma longa espera no aeroporto. Mas enquanto as outras pessoas se acomodavam em seus assentos, percebi que meus companheiros de fileira não me deixariam cochilar. Eram dois adolescentes brasileiros, cheios de empolgação, hormônios à flor da pele e assuntos pra compartilhar, porque acabavam de sair de dois intercâmbios diferentes no Canadá. Desataram a rir e a falar alto e fui ficando cada vez mais irritada por não conseguir pregar o olho. Assisti a dois filmes na tentativa de “apagar” em meio à tempestade, a exemplo do que fez Jesus. Porém eu não tive sucesso. Confesso que até fingi ser estrangeira pra evitar que eles conversassem comigo em português. Depois de mais de quatro horas, olhei para o lado e o adolescente à minha esquerda estava dormindo profundamente e de boca aberta. Senti raiva e inveja – simultaneamente!

Enquanto tentava administrar meus sentimentos ruins, vejo pela janela alguns raios de luz vermelha surgindo no céu. Fiquei intrigada e continuei observando até perceber que era o início do amanhecer. Não podia acreditar que estava diante daquela cena. Pela primeira vez vi o sol surgir naquele tamanho e naquela cor, como uma grande bola avermelhada. Sem dúvida, foi a alvorada mais bela de toda a minha vida! E o Pai sabe o quanto me sinto renovada com a chegada de um novo dia. Faz parte da minha rotina acordar 5h e esperar o nascer do sol enquanto preparo o café (agora tomo só de manhã). Enquanto me emocionava com o espetáculo no céu, compreendi porque eu precisava estar de olhos abertos naquele momento. Vivendo a corrida diária de um hamster, eu já havia perdido muitas oportunidades de contemplação. Essa experiência me lembrou que precisava exercitar mais a quietude e aproveitar a viagem. Em outras palavras, depender mais do Pai, diminuir a autocobrança e amar os outros com leveza, entendendo que o plano de voo nunca foi e nunca será meu.